A
foto no cavalete
*
Por Keli Vasconcelos
Fiz
um curso de fotografia, em meados de 2015. Coisa simples, só mesmo
para matar uma vontade alimentada havia tempo. Após alguns
empurrõezinhos de uma amiga e umas economias, acabamos juntas
cursando-o.
Durante
as aulas, visitamos um parque, na zona oeste de São Paulo. Árvores,
pessoas, arquitetura, cliques. Daí, deparei-me com uma cena tocante:
uma avó brincando com o seu neto, este devia ter uns quatro, cinco
anos no máximo. Ele corria nos tablados de areia, entre a gangorra e
o balanço, espantando os pombos faceiros.
Então,
apareceu uma galinha.
Aquela
carijó que a gente vê nas cidadelas do interior. O menininho, em
sua inocência de menininho, perguntou à vovó o que era aquilo.
Ela, na sabedoria protetora das avós, aproximou-se do pequeno e
simplesmente disse: “É uma galinha”. Sem delongas. Galinha e
ponto.
Naquele
momento, eu fotografei o momento.
Depois,
no notebook,
“apanhando” na edição, deixei a imagem em sépia, como as fotos
bem antigas. Afinal, infelizmente, a cena é cada vez mais rara.
Salvei o trabalho.
Abstraí.
Dias
atrás, leio uma notícia de um concurso cultural, intitulado
Festival Pericentro, cujo tema era retratar a cidade, suas
metrópoles, suas periferias. Os selecionados fariam parte de uma
exposição na Praça Padre Aleixo Mafra, que aqui em São Miguel
Paulista, na zona leste, onde moro, chamamos de Praça do Forró,
relembrando o seu passado festeiro. O evento faria parte das
comemorações dos 394 anos do bairro, em setembro. Nunca fui a tais
festejos, então decidi participar.
Peguei
algumas fotos que fizera da própria praça, outras da região,
algumas produzidas durante o próprio curso, em sala de aula, e as
enviei. Para o meu espanto, um dos organizadores acessou a página
que tenho no Tumblr (keliv1.tumblr.com) e ficou encantado com uma
foto: a da senhora com o netinho.
A
princípio, relutei, afinal, não fora feita no bairro e achei que
não se adequava ao tema, porém o intuito era esse mesmo: estampar
nos extremos o que a cidade tem. Levar a Praça do Forró para a
Avenida Paulista e vice-versa, resumindo.
O.k.,
mandei a imagem, e, para variar, abstraí.
O
tempo passou, o concurso idem e
recebi um e-mail no
final de uma quinta-feira: a imagem fora selecionada e faria parte da
exposição. Misto de fascínio e desconfiança, pois não botava fé
se iriam expô-la mesmo.
No
sábado seguinte, fui ao evento. Depois da caminhada de vinte
minutos, avistei estandes e palco com música, além das barracas de
artesanato da feira permanente ali. O público se dividia entre
curiosos, moradores de rua – ou, melhor dizendo, os da própria
praça – e quem desembarcava da estação de trem. Tudo muito
breve, rápido demais para contemplar.
Daí,
encontrei um espaço de intervenção artística, duas tevês e
quadros em cavaletes. Fitei o telão. E nada.
Já
desistindo, jamais imaginei que a imagem selecionada estaria
eternizada em um dos cavaletes, impressa, com moldura e tudo o mais.
A
vó e o neto, observando a galinha.
Eu
e a foto, aquele instante que eu desejo não ficar somente em um
registro sem retorno. Estava feliz por ter o trabalho exposto. Mas,
sendo bem sincera, queria mesmo é que as pessoas pudessem admirar os
pequenos instantes.
Utopia?
Não sei. Quem sabe o Presente nos presenteie com um futuro mais
doce. O problema é se iremos permitir.
Eis
aí, do mesmo modo que o netinho e sua questão, a minha vã dúvida.
*Keli Vasconcelos é jornalista de São Paulo. Atuou em rádio, assessoria de imprensa, editora e revistas. Hoje realiza trabalhos como freelancer.
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