Um concerto para a morte
*
Por Misael Nóbrega de Sousa
Vejo reproduções de corpos mutilados, quando abro os jornais diários. É a valorização do fato, em detrimento do anônimo. É a discussão de que o bom tem que ser ruim. É a notícia que não constrói. Os vermes pululando no escatológico... – e a falência múltipla dos órgãos. Não permito que transplantem as minhas partes. Elas servirão, apenas, aos meus propósitos... – como súditas devotadas de uma vida miserável. Além do mais, quem iria cobiçar um alargamento de mim?
Uma bala na cabeça, ao som de
um violino – como pano de fundo – é um concerto para a morte. O
que jorra do cérebro é, ao mesmo tempo, uma arte... – por
quantas vezes for levada a efeito... – e uma sonata. Morre-se,
assim, embebido do sangue melancólico de um Vivaldi. O que ainda me
faz resistir à tentação... – é a certeza de que serei
aprisionado nas páginas de um tablóide, em forma de retrato. E isso
é tétrico.
O amarelar do papel –
mofando... – é o esforço (da alma) para fugir das letras. Àquelas
mesmas que relatarão a mentira (lacônica) do que eu fora. A minha
vida, em três ou quatro linhas, sensacionalistas. – Um processo
semelhante ao da carne em putrefação... – quando os bichos
escrotos devoram a nossa consciência pagã. E se é assim, uma
certeza... – prefiro me apegar à dúvida.
Quanto ao esquecimento? Não
há consolo melhor. Ele se encarregando da reminiscência dos
estúpidos... – e os tipos que inventei sendo enterrados comigo. –
Se não tivesse pudor, quanto ao meu corpo desnudo, poderia ser
ruminado... – sem a casca que reveste as serpentes.
Não há algo mais dispensável
que uma vestimenta de cadáver. Quando me assentarem na frialdade da
sepultura, arregalarei os olhos e contarei as estrelas, uma
infinidade de vezes... – e até que minhas contas cheguem à cifras
inimagináveis. E testemunharei o meu próprio dessecamento (e só
convidarei para presenciar o nefasto, alguns poucos entusiastas).
De nada adiantará rogarem
para que os santos saiam em minha defesa... – estarei escondido
debaixo dos seus disfarces. Permito-me, ainda, só não sei até
quando... – Deus sempre teve razão.
* Jornalista e professor universitário na Paraíba
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