Manga rosa
*
Por Laís de Castro
Posso lembrar com detalhes
daquele beijo, no portão da sua casa, o sol do meio-dia de trincar
bico de galo, o primeiro gole de água morna na torneira do jardim,
uma preguiça dos diabos. Roubado, desajeitado, assustado, o beijo
tinha um ruidoso gosto de fruta madura, trazia nele a orgia da gula
que havíamos exercitado durante a manhã no pomar vizinho, vinha
sabendo a manga. Depois daquele beijo eu nunca mais fui a mesma e nem
você. Tínhamos, de alguma forma, deixado para trás a criança e
entrado no perigoso terreno da juventude, já não se poderia brincar
de esconde-esconde impunemente. Tínhamos, de alguma forma,
envelhecido décadas num minuto, embaixo daquele sol escaldante,
pulado para fora da infância num parto prematuro. As sementes de
ilusão já não eram tão numerosas, a fantasia se tingira de cores
mais fortes, as cores neutras se esvaindo em águas de forte
correnteza. A renúncia aos brinquedos ainda iria demorar algum
tempo, você e eu deixaríamos escapar a luxúria porque não
resistiríamos a um bom desafio de queimada, cada bolada vigorosa
valia por mil carícias. Éramos crianças. Cada pulada de muro, cada
corte no pé, cada metro andando na enxurrada satisfaziam, realizavam
e nos premiavam com horas e horas de sono de reis e rainhas, profundo
como só aos nobres se permite.
Na escola, você me deu a
fruta. Conhece marolo? Nunca ouviu falar? Prova. Uma fruta silvestre,
quase desmaiada em sua busca infinita de uma ata. O marolo é uma ata
que não deu certo. Ata é fruta do conde, bobo. Obrigada. De nada.
Mão estendida. Foi na calçada que as duas mãos se encontraram em
agradecimento à fruta. Um toque. Um arrepio. Depois disso fui
premiada com o gol do time de futebol. Poderia jogar, enfim, entre os
meninos. Você evitava que os outros se aproximassem. Era um muro,
uma barreira intransponível e insondável, ganhamos de três a zero.
Defesa menos vazada do campeonato: eu no gol, você, o beque. Vieram
outros muros, enxurradas, invasões a pomares alheios, como se
invadíssemos um país inimigo, na busca incontida de novos sabores,
ameixas amarelas, cajus, macaúbas. Andanças, sorvetes infinitos, de
milho verde, na rua de baixo. Milho cor do sol, de nascer do sol,
meio pálido, cálido, esquálido. Na rua de cima, o trem apitava, em
sua agonia de morte, parecia que ele sabia que ia morrer. E nós
sabíamos que aquele tempo ia passar, cada minuto era curto, cada
suspiro um adeus, como se houvesse ali, na porta da frente, a partida
definitiva, aqui, agora. O olhar esperto, mas triste, como olhar de
tartaruga. A pele verde oliva, duas jabuticabas então seriam os
olhos.
Não vou dizer seu nome.
Na praça, à noite, eu de
vestidinho bordado, criança mesmo. Uma criança que aquele beijo
tinha abortado. Nascera a mulher. Inconsciente. No toque de mão. No
banco de cimento. Na história que estava sendo escrita, sem que nós
dois soubéssemos. Nas armadilhas que enfrentaríamos anos depois. Os
dois. Atrás do cemitério catando gabiroba, infantes, o cerrado
oferecia também pitangas, araçás, anonas, pindaíbas e amoras
selvagens. Quem não provou perdeu metade da vida. Bem feito! Bem
feito! Bem feito!
O sorriso branco, os dentes
brancos, eu também poderia ter adivinhado o que o futuro nos
reservava, como um jogador aflito tenta adivinhar o cavalo vencedor
do próximo páreo, mas uma criança nem pensa nisso. Corre de um
lado para o outro, experimenta as sensações mais cruéis e
deliciosas, passa por elas como água debaixo da ponte, retoma,
repassa, dorme o sono dos justos e esquece feito o pássaro que
abandona um ninho e constrói um novo logo adiante.
Céu-inferno-céu-inferno-céu-inferno-céu-inferno.
Pula, pula amarelinha, casa um, casa dois, casa três... vocês sujam
toda a calçada com estes desenhos de amarelinha riscados com tijolo.
Pega o esguicho e lava. Neste minuto. Que coisa! E não desaparece de
novo, que está na hora de tomar banho e jantar.
Vamos brincar de circo. Mas
tem que ser na sala. A cortina abre e lá atrás estamos nós,
excêntricos atores e atrizes, perfeitos, representando pluft, o
fantasminha. Quem brincou, brincou, quem não brincou, não brinca
mais. O tempo do ensaio acabou. O pluft tinha um amiguinho, uma
amiguinha. E eles se abraçavam, no final. E havia os agradecimentos,
todo mundo de mãos dadas, os adultos batendo palmas. As mãos se
mantiveram unidas por alguns anos. Seria ainda o ensaio? Sem
palavras, os beijos arderam em chamas nos bancos da praça. O cenário
não era o mesmo. Víamos tudo diferente. Não havia sabor nenhum no
sorvete de milho verde. Só o sabor do seu beijo. Do meu beijo. Os
olhos fechados, colhendo a desordem dos sonhos, o coração batendo
forte, a gente suava mais do que a caldeira da máquina a vapor que
apitava para embalar nosso temor inconsciente. O céu parecia mais
cheio de estrelas. Pontilhado? Cheio. O melhor era ganhar a rosa que
você apanhava no jardim de um outro menino. Mil jardins houvessem,
mil rosas haveriam. A delicadeza do moleque de quem nada se esperava.
Daquele moleque. Não poderia haver outro. Aventura, fantasia. Pudor,
despudor. Epidemia. Chicletes. Guaraná caçula. Baile com a
orquestra que chegava de ônibus. O filme do cinema também chegava
de ônibus. E é proibido até dezoito, somos barrados na porta.
Vitrola. Rádio.
Por que o travo foi repousando
em nossos lábios? Prevíamos o futuro com uma nitidez infantil.
Adiávamos o drama com plena certeza de que ele era inevitável.
Fingíamos não conhecer o que já conhecíamos há mais de um milhão
de anos. O caminho a percorrer estava traçado desde sempre, cada
curva e cada armadilha da estrada sempre pairando sobre nós. Uma
delas nos laçaria. Esgotávamos nossa paixão juvenil em abraços e
ternura, em transpiração e ansiedade, com a evidência transparente
da desesperança. Éramos profundamente felizes e profundamente
tristes. Éramos desesperadamente adultos e não havia ninguém no
mundo mais criança. Os dois.
Nunca mais nos vimos depois
daquela noite em que o sereno começou a cair frio sobre nossos
ombros adolescentes, gelando até os ossos. Tinha chegado o momento.
*
Jornalista trabalhou na revista Realidade da editora Abril, na Carta
Editorial e na Azul. Hoje é diretora de redação da revista Dieta
Já, da Editora Símbolo. Ganhou 3 prêmios Abril, um concurso de
contos infantis no Estado do Paraná e lançou seu primeiro livros de
histórias para adultos: “Um Velho Almirante e outros contos”,
pelo selo ARX (Siciliano).
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