Sobre riqueza e pobreza
O
ex-chanceler argentino, Dante Caputo, observou, num discurso de
abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, em
1988, que a humanidade jamais conseguirá viver em paz e harmonia
enquanto houver um fosso profundo separando países ricos e pobres.
Para ilustrar sua advertência, utilizou-se de uma imagem muito
significativa. Disse que os passageiros de primeira classe de um
transatlântico de luxo jamais poderão se sentir seguros se nos
porões desse navio houver uma bomba prestes a explodir.
Argumentou,
com lógica cartesiana, que se o artefato romper o casco da
embarcação, com a explosão, esta, certamente, afundará, levando
consigo, para o fundo do oceano, todos a bordo. Ou seja, tanto os
passageiros de primeira classe, com sua empáfia e arrogância,
quanto os de terceira, incluindo eventuais clandestinos que se
escondam nos porões.
Esse
é o perfil do mundo contemporâneo. Terminada a guerra fria, com o
fim do comunismo no Leste europeu e, consequentemente, com o fim do
antagonismo ideológico que colocou o mundo à beira da confrontação
nuclear, não veio a tão sonhada e apregoada paz. Houve, apenas, uma
troca de conflitos, o que é lamentável. A tal da globalização, em
vez de dividir, de forma um pouquinho mais equânime, a riqueza
coletiva mundial, concentrou-a, ainda mais, nas mãos das potências
econômicas, em detrimento de países miseráveis, condenados à
fome, ao atraso, à marginalidade, à ignorância, às epidemias e à
consequente violência gerada pelo desespero.
Volto
ao tema “riqueza e pobreza” atendendo solicitação de um dos
meus leitores mais fiéis, que me acompanhou por mais quinze anos
pelas páginas do jornal Correio Popular de Campinas, em que mantive,
por uma década e meia, coluna diária de comentário de política
internacional. Solicitou-me que abordasse o assunto não pelo enfoque
individual, mas pelo coletivo, no de países. Claro que é impossível
abordar assunto tão amplo, complexo e polêmico em algumas poucas
linhas. Josué de Castro, por exemplo, escreveu, há 65 anos, todo um
(memorável) livro, “Geografia da Fome” e abordou a questão da
miséria “apenas” pelo aspecto da carência alimentar. E somente
do Brasil. Imaginem o quanto seria preciso escrever para abordar só
a fome no mundo!
A
humanidade conta, neste início de século e de milênio, com uma
quantidade de riqueza e de recursos tecnológicos como jamais contou
em época alguma da história, a despeito de sucessivas crises
econômicas internacionais. Sequer preciso citar dados estatísticos
comprobatórios, já que qualquer pessoa medianamente informada e
esclarecida poderá ter acesso a eles recorrendo ao “Google”. Há
alimentos estocados, nos silos norte-americanos e das potências
europeias, suficientes para alimentar sobejamente cada indivíduo da
Terra por um par de anos. Recordes de safras são batidos
sucessivamente. Nos países desenvolvidos, as respectivas populações
veem-se às voltas com doenças causadas pela obesidade, ou seja, do
excessivo consumo de comida, e não da fome.
E
o que acontece nas comunidades nacionais paupérrimas, da África e
da Ásia? Ocorre um fenômeno exatamente inverso. Milhões e milhões
de pessoas morrem de inanição, ou estão condenadas a esse tipo de
morte, caso não venham a ser socorridas a tempo. É, por exemplo, o
que se verifica, atualmente, na região conhecida como “Chifre da
África”, em especial a Somália, Quênia, Etiópia e Djibuti, onde
13,3 milhões de seres humanos, parte considerável dos quais
crianças, não têm rigorosamente nada para comer. E as mortes se
sucedem, configurando perversa tragédia, não inevitável, como
cataclismos do tipo terremoto, furacão ou vulcão, mas
“antinatural”, posto que evitável e passiva de prevenção.
Sinto-me mal, muito mal, apenas em abordar essa catástrofe. Mas não
se trata de ficção, porém de fato palpável e comprovável, que
depõe contra a tão propalada racionalidade do “homo sapiens”
(ou “homo demens”, como o classificou Edgar Morin).
A
tecnologia "encolheu" o mundo, reduzindo distâncias,
aproximando povos, expandindo o conhecimento. As comunicações, os
transportes, a eletrônica, a informática, a medicina etc. chegaram
a um ponto de desenvolvimento tal, que a vida das pessoas teria tudo
para ser extremamente fácil, agradável e feliz. E, sobretudo,
longa. Teria... Mas não é. Nunca, em tempo algum, houve tanta
miséria e desolação como agora. O ser humano se supera, a cada
dia, em egoísmo, insensibilidade e alienação.
Os
famintos do mundo são, na atualidade, em quantidade jamais imaginada
pelo mais pessimista dos futurólogos. Além dos habitantes do
“Chifre da África”, cuja situação é crítica, algumas
centenas de milhões de pessoas mundo afora sofre em decorrência da
fome e de suas sequelas. Mais de 900 milhões de indivíduos são
analfabetos. Um bilhão de pessoas não têm onde morar. Doenças de
fácil prevenção, originadas da desnutrição e falta de higiene,
ceifam multidões, em especial crianças. Epidemias e pandemias
espalham-se Planeta afora. Enfermidades tidas como erradicadas (como
a tuberculose) retornam com maior intensidade. Vírus até então
desconhecidos, extremamente selvagens e letais, como o do Ebola,
manifestam-se em paupérrimas comunidades africanas.
A
humanidade foi dividida, aleatoriamente, em três mundos distintos e
estanques, em termos de desenvolvimento econômico, social e
cultural. Fala-se, ultimamente, de um quarto, o constituído por
países absolutamente inviáveis, mas que existem e descem a ladeira
da miserabilidade com rapidez estonteante nestes tempos de alta
velocidade.
Josué
de Castro, na introdução do seu livro “Geografia da Fome”,
observou: “Interesses e preconceitos de ordem moral e de ordem
política e econômica de nossa chamada civilização ocidental
tornaram a fome um tema proibido, ou pelo menos pouco aconselhável
de ser abordado”. E isso ele escreveu em 1946! Esse panorama, hoje,
é diferente? Não, não e não. O problema, por não ser resolvido,
apenas se agravou, e muito.
A
riqueza gerada por dois terços dos habitantes terrestres vai parar,
invariavelmente, nas mãos do um terço restante, através da
especulação financeira, apátrida e sem piedade, que se
mundializou. E essa concentração de renda e recursos é cada vez
maior, a despeito de planos, programas, promessas, juras,
manifestações de intenções e conferências internacionais, que
não passam de exercícios cínicos e inócuos de retórica.
O
escritor D. H. Lawrence, célebre por seu romance "O Amante de
Lady Chaterley", que teve sua obra censurada como "pornográfica"
e "atentatória à moral" e que não viu o livro ser
publicado na íntegra (o que ocorreria apenas após a sua morte),
criticou os pressupostos baseados no "ter", em detrimento
do "ser". Escreveu: "O que queremos é destruir nossas
falsas, inorgânicas relações, especialmente com o dinheiro, e
restabelecer nossa relação orgânica e viva com o cosmos, o Sol e a
Terra, com a raça humana e com a nação e a família".
Imoral
não é falar sobre sexo e erotismo. Imoral é deixar pessoas
morrendo à míngua, enquanto temos mais do que precisamos e
desperdiçamos. Qual a razão do patrimônio da humanidade – que
são os recursos do Planeta – estar entregue a pessoas tão
medíocres, sem princípios e sem ideias, que os vêm depredando de
forma estúpida e sistemática? Sim, que me respondam a essa questão
tão simples e objetiva... se alguém tiver resposta que se sustente!
O homem mais poderoso do planeta faz isso, e ninguém pode fazer nada.
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