Cotidiano banal
O
cotidiano da maioria das pessoas é, pelo menos por longos períodos,
encarado como tedioso e entediante. Os dias parecem se arrastar,
serem sempre iguais, embora, obviamente, não o sejam. Quem passa por
dificuldades – doenças, carência financeira ou afetiva que
considero pior, desemprego etc. – torce para que o tempo voe, se
possível na velocidade da luz, na esperança (não raro vã) de que,
em isto acontecendo, sua vida irá melhorar. Às vezes melhora mesmo.
Em outras, porém, se deteriora ainda mais. Depende das ações de
cada um.
Encaro
cada novo dia como uma alta montanha a ser escalada, alguns deles até
como o Pico do Everest, com seus quase nove quilômetros de altura,
que me desafie a escalá-lo. Caso consigamos cumprir todas as tarefas
a que nos propusermos, neste espaço de 24 horas (desde que factíveis
em tal período), poderemos afirmar que atingimos o topo com sucesso
e fincamos, ali, nossa bandeira. Em caso contrário...
Todas
as manhãs, ao despertar, em minhas meditações, busco reunir
forças, físicas e mentais, para escalar, com êxito, o pico desse
dia que estiver iniciando. Quanto mais rotineiro ele me parecer,
maiores serão minhas chances de êxito. O que arruína nosso
cotidiano não é, propriamente, a rotina. São os acontecimentos
súbitos, não previstos, inesperados, que podem arruinar não
somente o dia, mas a semana, o mês, o ano... e até a própria vida.
É verdade que surpresas agradáveis também ocorrem, mas são raras.
Daí preferir a rotina, aquilo que já conheço, a possibilidade de
seguir meu roteiro previamente traçado, no qual não seja
necessário nenhum improviso.
Perguntaram,
em uma entrevista, se não me engano feita em junho de 1979, a Lygia
Fagundes Telles, se a televisão não era a grande inimiga dos
escritores. Afinal, as pessoas se distraem, por horas, à frente da
“telinha mágica”, despendendo um tempo que poderia ser utilizado
para a leitura. Poderia...
A
querida escritora nem mesmo pensou muito para responder. Disse, com
plena convicção: “A televisão não tira leitores. Quem tira
leitores é a vida. E a vida no Brasil virou um artigo de luxo. Para
se poder pagar a vida, tem-se de trabalhar muito”. E põe muito
nisso! É necessário fazer das tripas coração. Concordo, pois,
plenamente com a Lygia. Quem não está habituado a ler, não o fará
jamais, tenha ou não televisão em casa (hoje em dia, até sem
tetos, ou seja, moradores de rua, a têm).
A
TV, aliás, desde que você saiba o que assistir, quando e quanto, ou
seja, tenha moderação no seu uso (conheço pessoas que ficam doze
horas ou mais à frente dessa geringonça que o saudoso humorista
Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo de Sérgio Porto, gostava de
chamar de “máquina de fazer doido”) , é um instrumento
utilíssimo de informação e de cultura. Não concebo que em pleno
século XXI esse veículo de comunicação não existisse. Se não
existisse, teria que ser, urgentemente, inventado, tal como o
computador, o telefone celular e outras tantas “engenhocas” menos
disseminadas (ou mais caras).
O cotidiano, por mais banal
que nos pareça, se vivido plenamente, sem que adiemos coisa alguma
para o dia seguinte, ou para os posteriores, tende a nos conduzir ao
sucesso e até mesmo à felicidade. Claro que não há nenhuma
certeza (nunca há, e para ninguém) disso. Mas as chances são
grandes, ou pelo menos razoáveis. Todavia, não devemos, em
contrapartida, colocar “o carro à frente dos bois”. Não é
atitude sensata e nem inteligente se preocupar com o que ainda não
aconteceu e tem grandes probabilidades, até, de jamais acontecer.
Projetar o futuro é uma coisa muito relativa e, não raro, inútil.
Corremos o risco de perder o hoje, sem construir um melhor amanhã.
Tempos atrás publiquei, neste
espaço, duas crônicas, ambas com o mesmo título, distinguindo uma
da outra apenas com os algarismos 1 e 2, intituladas “Um dia por
vez”. A primeira delas iniciei com estas palavras, que embora
pareçam refletir o óbvio, nem todos se dão conta: “ O
segredo de uma vida equilibrada, sem traumas e sem dramaticidade, é
viver um dia por vez”. E não estou certo? Muitos não agem assim.
Diria que é a maioria.
A
poetisa Charlyane Mirielle diz tudo isso, porém com muito mais
charme e beleza do que eu, neste poema que partilho com vocês,
intitulado “Flores do cotidiano”:
“Dentro
de um verso esquecido
uma
flor sangra a saudade
de
uma nova inspiração.
É
o tempo rotineiro
sem
manhã, sem arrebol,
sem
perfume, sem canção.
E
o pranto escorre faceiro
no
olhar do rouxinol
Por
saber que o cancioneiro
no
lugar do coração
carrega
um girassol...”.
Salve,
pois, os dias calmos e preguiçosos, que parecem não querer acabar!
Salve a rotina, quando a preenchemos com atividades construtivas que
embora pareçam sempre a mesma, de fato, soem ser diferentes! Só os
tolos e os despidos de imaginação (o que no meu entender vem a dar
na mesma) se queixam de tédio e precisam (ou pensam precisar) de
agito para viver. Não sabem, não podem ou não querem escalar o
pico de cada dia, e ficam, inutilmente, pelo caminho, sem jamais
conquistarem seus Everestes.
Reitero
que gosto do cotidiano rotineiro, que preencho com atrações ditadas
por minha imaginação. Afinal, conforme encerrei a segunda das
crônicas intituladas “Um dia por vez”, “da soma de todos esses
dias calmos, aparentemente sem brilho, sem dramas, sem euforias e sem
heroísmos, construiremos nossa biografia. Fabricaremos o sucesso ou,
quiçá, a felicidade. Simples, não é verdade...?”. Prá quê,
pois, complicar o que de per si é objetivo e óbvio?!
Boa
leitura!
O
Editor.
Solidão, falta de amor, não ter alguém para conversar é dramático em dias agitados ou tediosos. O que fazer?
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