Dia
do índio na UERJ: sonhando com a terra que perdi
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Por José Ribamar Bessa Freire
“Anhangá
me fez sonhar com a terra que perdi”. (Heitor
Villa-Lobos, O canto do pajé)
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É importante que a fala de vocês seja ouvida na cidade – diz
Vincent Carelli a um líder Kaiowá enquanto dirige Martírio,
premiado como o melhor filme pelo júri popular do Festival de
Brasília. Ele entrevistou muitos índios em aldeias e na beira de
estradas em Mato Grosso do Sul, cujas falas ecoaram, nesta quinta
(19), em várias cidades nas quais o filme foi projetado. No Rio
de Janeiro, somaram-se a elas vozes presenciais de outros índios,
cantos do Coral Infantil Guarani da aldeia Itaxi de Paraty, rezas de
Carlos Tukano, filho e neto de pajés, além de reflexões de Ará
Reté (Sandra Benites).
Foi
no Dia do Índio, na Capela Ecumênica da Uerj. O evento “Sementes
de Cura e Ritual de Proteção aos Povos Indígenas”, promoveu
encontro de culturas, religiões, gerações. O Coral da Universidade
da Terceira Idade (UNATI) interagiu com as crianças guarani e entoou
“O canto do pajé”, saudando Tupã, Deus do Brasil, e Anhangá,
que alimentou o sonho da volta à terra indígena, coberta por manto
protetor por todos os lados: o budista Emilio Mira y Lopez, o
sacerdote de Candomblé Márcio de Jagun e o diácono Marcos Gayoso
da Pastoral Católica da UERJ reforçaram as vozes indígenas em
defesa da terra, da língua, da cultura.
Martírio
e Resistência
-
O filme, que registra o processo dilacerante do genocídio, documenta
a resistência nas vozes de mulheres combativas e na mobilização
política dos índios, mostrando a história recente, quando eles
foram retirados muitas vezes de suas terras, mas voltaram sempre e
nunca desistiram de retomá-las – destacou o antropólogo Rubem
Almeida, que conviveu mais de 30 anos com os Kaiowá-Guarani e
assegura que eles sabem distinguir os inimigos e os aliados. “O que
tá pegando a gente é o capitalismo” – confirma um líder Kaiowá
entrevistado no filme por Vincent.
A
mesa que discutiu Martírio,
aberta por Rubem Almeida, contou com dois pesquisadores do Museu do
Índio. Materiais de arquivo manuscritos e de imagens usados no
filme, com o registro da expropriação das terras Kaiowá desde a
Guerra do Paraguai, passando por Rondon e Getúlio Vargas até hoje,
foram ressaltados por Carlos Freire, enquanto massacres e torturas de
índios inventariados no Relatório Figueiredo localizado no arquivo
do Museu do Índio, em 2013, por Marcelo Zelic do Grupo Tortura Nunca
Mais (GTNM), foram abordados por Elena Guimarães.
O
papel da mídia foi retomado pela mesa “A representação Indígena
e Negra na Educação no município do Rio de Janeiro, dez anos
depois da promulgação da Lei 11.645”, mostrando o lugar da
dobradinha escola e mídia no atropelamento dos direitos indígenas
por fazendeiros, pecuaristas e agronegócio em aliança com poder
político. Jaime Pacheco, da Secretaria de Educação, trouxe para o
debate trechos do editorial de 1929 do Estadão, onde
Júlio de Mesquita Filho, qual bandeirante dos tempos modernos,
pontifica:
“Não
é desejável a contribuição dos pretos americanos para o
caldeamento de raças no Brasil. Um contingente preto nesse momento
será mais nocivo que útil à obra da civilização em que estamos
empenhados. Precisamos de gente para os nossos sertões, mas de gente
capaz de melhorar em todos os sentidos a população do país. Não
temos preconceito de cor, mas somos obrigados a confessar que os
pretos não constituem fortes elementos de civilização, nem
garantem à raça tipos aperfeiçoados física, mental e moralmente
[...]”.
Negros
e índios
O
preconceito se estendia aos povos originários, seguindo Paulo de
Frontin, presidente da Comissão do Quarto Centenário do Brasil, em
1900, que propõe o extermínio dos índios no seu discurso oficial
de abertura das comemorações:
“O
Brasil não é o índio; os selvícolas, esparsos, ainda abundam nas
nossas magestosas florestas e em nada differem dos seus ascendentes
de 400 anos atrás; não são nem podem ser considerados parte
integrante da nossa nacionalidade; a esta cabe assimilá-los e, não
o conseguindo, eliminá-los”.
O
papel da escola na reprodução de tais preconceitos contra negros e
índios foi debatido pelos dois outros integrantes da mesa. A
Guarani-Nhandewa Sandra Benites, mestre em antropologia, questionou a
interculturalidade presente em escolas indígenas, mas ausente do
sistema nacional de educação, que deforma a imagem dos índios.
Márcio de Jagun, professor de Direito Portuário na Universidade
Gama Filho e na UFRJ, autor dos livros Ori
– a Cabeça como Divindade e Ewe,
a Chave do Portal,
discorreu, entre outros tópicos, sobre a repressão às religiões
de matriz africana.
O
objetivo da escola e da mídia é esse mesmo: “formar
e dirigir a massa inculta, forjando a opinião pública, esteio sobre
o qual se assentava [...] o destino político da nação”,
confirma o bandeirante Mesquita, em outro editorial.
Sementes
de cura
Um
“chega pra lá” no preconceito foi dado na mesa coordenada pelo
indigenista Toni Lotar. O budista Emilio Mira y Lopez, que já doou
relíquias sagradas tibetanas ao Instituto dos Pretos Novos, realizou
um ritual para abençoar e aliviar o sofrimento dos índios. Ele
ofereceu agora essas relíquias, denominadas tsa-tsas, para serem
enterradas em terras indígenas Kaiowá, em Mato Grosso do Sul, e na
aldeia guarani Morro dos Cavalos, em Santa Catarina. Na crença
budista, elas podem proteger os seres martirizados e curar o meio
ambiente.
O
martírio dos tempos coloniais continua até hoje nos crimes
cometidos por jagunços e pistoleiros pagos pelos usurpadores de
terras, passando pelo período da ditadura (1964-1985) quando pelo
menos 8.350 indígenas de dez etnias foram assassinados com a
cumplicidade de agentes do Estado. Sofreram com o esbulho de
suas terras, remoções forçadas, prisões, torturas, maus tratos,
contágio por doenças infectocontagiosas, segundo o capítulo
“Violações de direitos humanos dos povos indígenas” elaborado
por equipe independente do Grupo de Trabalho da Comissão Nacional da
Verdade, sob responsabilidade da conselheira Maria Rita Kehl.
Essa
mácula para a sociedade brasileira foi abordada na fala do diácono
Marcos Gayoso, participante da mesa. Ele lembrou que o papa Francisco
solicitou recentemente uma reparação histórica aos índios por
parte de seus algozes tanto no período colonial, como nos tempos
modernos, o que significa, entre outras medidas, a restituição das
terras usurpadas especialmente nos últimos 50 anos.
P.S.
– O evento organizado pelo Programa de Estudos dos Povos Indígenas
em parceria com o Museu do Índio, foi aberto pela diretora da
Faculdade de Educação, Rosana Glat, em mesa mediada por Ana Paula
da Silva (Pro-Indio) com a presença de Carlos Freire, representante
do diretor do Museu do Índio/Funai José Carlos Levinho, de Jaime
Pacheco da Secretária de Educação, de Renato Veras, diretor da
Unati e de Telma Simoni do Programa de Estudos e Pesquisa das
Religiões (Proeper). O encerramento foi feito por este locutor que
vos fala, coordenador do Pro-Indio.
*
Jornalista e historiador.
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