O
destruidor de alegrias
*
Por Gustavo do Carmo
—
Sinto
muito, ele não vem.
A
noiva, com seu vestido decotado de renda branca, se pôs a chorar em
uma tsunami de lágrimas. Ivan seguiu o seu caminho. Não a conhecia,
mas sentiu-se vingado pelo que fez, sem nenhum remorso.
Afastou-se
tranquilamente da multidão de convidados que a cercaram para
consolá-la na porta da igreja. Não era uma situação inverossímil
porque ele tinha falado a mesma coisa para o noivo, que encontrara
meia hora antes, na rua dos fundos da matriz. Aliás, mesma coisa,
não! A crueldade foi mais requintada.
—
Eu
vi a sua noiva beijando outro quando passei por ela.
Estava
voltando de uma corretora de valores em Botafogo, onde provocara a
demissão de um ex-colega da faculdade de economia. Foi lá
especialmente para dizer os podres do operador que o ignorava desde a
formatura. Mostrou para o diretor um vídeo, no qual seu então amigo
criticava a empresa onde trabalhava, e uma foto recente dele, tirada
de uma rede social, em que o profissional aparecia com olhos virados
de embriaguez e entornando duas tulipas de cerveja. Completou a
vingança com uma acusação de cleptomania.
Depois
de frustrar o casamento, Ivan foi abordado por uma mulher grávida.
Mais do que uma simples mulher, aliás. Era uma ex-amiga sua.
Ex-colega de ensino médio. Ele era apaixonado por ela. Agora a moça
estava lá, barriguda de seis meses e esperando um filho de outro
homem.
Trabalhando
como repórter em um canal de televisão, ela o chamara para lhe dar
uma opinião sobre uma matéria que fazia. Ivan ficou tão nervoso e
frustrado pelo estado da conhecida, que a empurrou para espantá-la e
não dar a entrevista. Ela caiu e perdeu o bebê. Foi socorrida pelo
cinegrafista e a produtora, enquanto Ivan embarcava no ônibus que o
levaria para o bairro do subúrbio onde morava.
Dentro
do veículo, uma criança de uns dois anos brincava e o irritava.
Falava alto e dava gritinhos quando ria. Ivan foi engolindo a raiva.
Ouvia a mãe mandar o filho parar de gritar. No quinto grito, ele
estourou.
—
Dá
pra calar a boca?!
—
Quem
é você para dar ordens no meu filho?! Indignou-se a mãe, enquanto
o filho chorava.
—
Alguém
que está cansado de ouvir essa criança chata piando como uma
maritaca.
—
Quem
cuida do meu filho sou eu. E só por causa disso vou deixá-lo gritar
quando quiser! Mal-educado! Grosso! Esúpido! Os incomodados que se
mudem. Se quiser, pega outro ônibus.
E
foi isso mesmo que Ivan fez. Sob vaias dos outros passageiros. Pegou
outro veículo dez minutos depois. Neste intervalo, viu, no ponto, um
jovem casal de namorados. A moça era loura, cabelos curtos. O rapaz
era negro, forte. Disparou para ele:
—
Ela
te contou que é casada?
—
Não!
Sério? Estranhou o rapaz assustado.
—
Seríssimo.
—
Vagabunda!
Está tudo acabado! Gritou, esbofeteando a moça.
—
Você
vai acreditar nesse louco que nunca viu a gente na vida? Quem está
acabando o noivado sou eu! Você confia mais nos outros do que em
mim!
E
enquanto o casal discutia,
chegou
o segundo ônibus de Ivan, mais vazio do que o primeiro. Sacou o
celular e fez uma ligação.
—
Aqui
quem fala é um amigo. Presta atenção na sua mulher que ela está
te traindo com o seu melhor amigo.
Desligou
o telefone. Ajudou um cadeirante a entrar no ônibus pelo elevador.
Na saída, auxiliou um idoso a descer.
*
Jornalista e publicitário de formação e escritor de coração.
Publicou o romance “Notícias que Marcam” pela Giz Editorial (de
São Paulo-SP) e a coletânea “Indecisos - Entre outros contos”.
Bookess
- http://www.bookess.com/read/4103-indecisos-entre-outros-contos/ e
PerSe
-http://www.perse.com.br/novoprojetoperse/WF2_BookDetails.aspx?filesFolder=N1383616386310
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