Clodovil, a mosca na sopa
*
Por Fábio de Lima
O
título desse texto poderia ser “Brasília nunca mais será a
mesma”. Esse foi o slogan do candidato a deputado federal, por São
Paulo, Clodovil Hernandes. O estilista e apresentador de TV foi o 3º
deputado federal mais votado do Estado, atrás apenas do dinossauro
político, Paulo Maluf e do deputado reeleito, Celso Russomanno. Mas,
seria um título óbvio e, verdade seja dita, o que não podemos
falar (nunca) de Clodovil é que ele seja alguém previsível.
Nascido
em junho de 1937 numa pequena cidade do interior de São Paulo
chamada Eliziário, filho adotivo de um casal de origem espanhola, o
novo deputado veio para a capital ainda nos anos 50, mas só
conseguiu tornar-se estilista famoso nos anos 70. Na época, ele
protagonizava, ao lado do, também estilista, Dener, uma história de
sucesso da alta-costura no Brasil. Depois Clodovil entrou para a TV e
seu jeito intempestivo e sincero o transformou num Dom Quixote das
palavras, brigando sempre com inimigos reais e, principalmente,
ilusórios.
Hoje,
ele poderia estar satisfeito e acomodado no trono de um vencedor. Mas
quem pensa que o ‘jovem’ deputado de quase 70 anos está
satisfeito, engana-se. Provavelmente ele acha que é pouco 493.951
mil votos. Já declarou que merecia ter recebido pelo menos 2
milhões. Mas como isso já é passado – agora sua preocupação
deve ser de como deixará seu gabinete bem decorado e a sua altura,
em elegância. Clodovil está errado? Penso que não. Tudo em
Brasília deve ser muito chato e feio mesmo. Ele começa bem seu
plano político, na minha opinião.
Então,
fico imaginado como será a chegada de Clodovil no Congresso. Penso
que alguns deputados mais antigos e arrogantes desprezarão o
paulista que fez de seu talento, inteligência e, também, frescura,
as principais armas para uma vida de sucesso. É claro que muitos
leitores e muitos políticos torcerão o nariz para a palavra sucesso
associada a Clodovil. Mas é puro despeito. Ele tem uma trajetória
de vida incontestavelmente vencedora.
Pensem
nos amigos que o Clodovil deve ter. Imagino que não sejam muitos.
Pensem agora nos inimigos. Imagino que sejam muitos. Ele já brigou
com boa parte da imprensa brasileira e, principalmente, com boa parte
dos donos de veículos de comunicação. Qualquer pessoa estaria
acabada neste meio nefasto que é a mídia, da qual faço parte e
critico com conhecimento de causa. Mas, Clodovil sempre consegue um
espaço para aparecer, dar suas opiniões, brigar com mais pessoas e
levar a vida adiante. Ele é um sobrevivente.
Agora
em Brasília terá um bom salário durante seu mandato – terá a
oportunidade de brigar com muito deputado chato – e dizer coisas
que eu ou você gostaríamos de dizer, mas não temos coragem ou
oportunidade. É evidente que inúmeras declarações dele gerarão
polêmica. É esperado também que muitas de suas ações políticas
mostrem-se fracassadas e inúteis. É provável até que ele não
fique mais que uma semana em Brasília e volte de lá brigado com
pelo menos 50% dos 512 deputados que compõe o Congresso junto com
ele. Mas, se tudo isso acontecer é por que estava escrito no
roteiro. Não aquele roteiro que eu ou você escreveria – mas o
roteiro que só Clodovil Hernandes é capaz de escrever.
Eu,
mero jornalista e vomitador de palavras, não votei no Clodovil, mas
torço por ele em Brasília. Ele é o vingador dos pobres? Não. Ele
é o vingador dos ricos? Não. Ele é o vingador dos estilistas ou
apresentadores de TV? Também não. Quem é ele, então? Não sei e é
provável que nem ele o saiba – mas esse brasileiro com cara de
índio, com trejeitos femininos, estatura baixa e corpo franzino, não
desiste nunca – como diz o slogan de um país de mentiras que pensa
ser a Suíça. Portanto, espero que Clodovil Hernandes seja uma
“Mosca na Sopa”. Espero que a terra dos “300 picaretas”
jamais seja a mesma.
(*)
Jornalista e escritor ou “contador de histórias”, como prefere
ser chamado. É Diretor de Programação da CINETVNET
(www.cinetvnet.com.br), TV pela internet. Está escrevendo seu
primeiro romance, DOCE DESESPERO.
Estava com saudade de Fábio Lima. Gostei de reencontrá-lo aqui.
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