Geração Pinocchio
* Por
Rosana Hermann
A mentira está na moda. Não
que ela seja a novidade do momento, a mentira está nas raízes de
todas as árvores genealógicas humanas. Mas o marketing que promove
a mentira triunfou de tal maneira que seu status pecaminoso,
vexaminoso, foi varrido do mercado. Pelo menos, aqui no Brasil, onde
a mentira é tão disseminada que ao invés de aplaudir a sabedoria,
premiados quem não sabe de nada.
Não saber de nada é a
primeira lição para quem quer mentir bem. Negar o que se sabe é
trancar a verdade no cofre e vestir a máscara da inocência. Sei,
mas de tanto repetir que não, acabo me convencendo da minha própria
ignorância. A mentira é autossugestiva e acaba convencendo até o
mentiroso de sua veracidade.
É fato que a mentira tem
muitas faces, graus de intensidade e gravidade, que vão desde a
mentirinha light, usada para deixar de atender ligações indesejadas
ao dizer que não estamos ou não podemos, até mentiras mais heavy
metal, envolvendo atos criminosos.
A verdade, que sempre anda nua
e crua e ainda por cima dói, foi eliminada junto com todas as outras
dores da vida moderna, que não agüenta o menor incômodo ou
sofrimento. A verdade então se veste, traveste, implanta próteses
de mentira onde quer que necessite para encobrir insuportáveis
verdades. Em termos mais abrangentes a mentira está em todos os
seios com silicone, nas cirurgias plásticas, nos bronzeamentos
artificiais, nos cabelos tingidos e esticados à força, com ajuda da
física e da química e segue os mesmos artifícios. Há mentiras cirúrgicas e
cosméticas, permanentes e passageiras, que desbotam junto com o pó
de henna ou esmaecem com o tempo.
A mentira hoje é um adereço
essencial para quem quer fazer sucesso e a verdade caiu em desuso,
ficou careta, jacu, cafonérrima. Mesmo sendo relativa a verdade, não
vende, porque não seduz. A mentira é perita em iludir e dá de dez
na consciência, que só serve para estragar nossas ilusões.
Ah! A ilusão! A ilusão é o
Olimpo, o Nirvana da mentira. Mente-se só para isso, para iludir e
ser iludido, para camuflar e confundir. E funciona tão bem que,
talvez, fosse mesmo o caso de abolir a verdade de vez.
Mente-se na vida real, na vida
virtual, no trabalho, na família, na cama. Mente-se no corpo e na
mente, mente-se para fazer sucesso. E quer saber? Funciona. O sucesso
premia os melhores mentirosos, verdadeiros artistas do fake.
Portanto, vamos todos mentir e fazer sucesso! Vamos todos roubar
idrias dos outros sem créditos e assumir que a obra é nossa. Vamos
colher os frutos da autoria falsa com aplausos de milhões de outros
mentirosos que nos apoiam em nossa luta pela erradicação da
chatíssima verdade. Vamos copiar, vamos nos promover,
sempre em cima da inverdade. E quando algum chato nos flagrar e
denunciar, vamos desmoralizá-lo. Vamos usar a arma número um da
mentira, a alegação de inveja. Os mentirosos adoram achar que são
invejados! Vamos convencer tolos, idiotas, imbecis, ingênuos,
desavisados, toda a horda de mal-intencionados que a mentira é boa.
Com esse apoio maciço, é certo, os babacas, os ratos de escritório,
os estudantes dedicados, os malditos retos de caráter, aqueles que
insistem em jogar luz de verdade sobre a penumbra sensual da mentira,
serão ridicularizados e finalmente, destruídos.
A mentira está na moda. E
pode ser comprada até em dez prestações, sem juros e sem culpa. No
cartão.
*Rosana Hermann é
Mestre em Física Nuclear pela USP de formação, escriba de
profissão, humorista por vocação, blogueira por opção e,
mediante pagamento, apresentadora de televisão.
Nenhum comentário:
Postar um comentário