O
remédio é acreditar
A grandeza
do universo me embevece, assusta, não raro até me aterroriza, mas
fascina. Como ser racional, procuro entendê-lo. Em vão! Como
escritor, tento racionalizá-lo e explicá-lo. Outro fracasso. Na
impossibilidade natural de entendê-lo, limito-me a acreditar que as
aparências sejam, de fato, o que aparentam ser. E as explicações
que tento dar têm como alicerce essa crença. Neste caso, entre o
“saber” e o “crer”, sou forçado a me curvar a este último
verbo. Por exemplo, acredito que o homem simula, em sua constituição
orgânica, o próprio universo. Tudo leva-me a crer nisso. Comprovar?
De que jeito? Resta-me acreditar, posto que com um mínimo de lógica.
O homem, em
sua constituição orgânica, é regido pelas mesmas leis e
princípios naturais que regem tudo o que há: satélites, planetas,
estrelas, constelações, galáxias, buracos negros etc.etc.etc. Só
que, ao contrário destes, tem, em suas células, bilhões e bilhões
de vidas independentes. É constituído por sistemas vivos que
nascem, crescem, reproduzem-se e morrem constantemente. Leva, pois,
vantagens, sobre todos esses astros, que são mera matéria, no meu
entender.
Já escrevi
inúmeras vezes, mas não custa reiterar que, “a cada dia somos
outros e no entanto somos os mesmos”. Continuamos vivendo. Esse quê
de imaterial que caracteriza a vida passa das células moribundas
para as recém-nascidas, num processo que só termina quando o
indivíduo (no caso, nós), como um todo, morre. E para onde vai de
fato essa chama que nos anima após a falência total e irreversível
do organismo?
Saber, mas
saber mesmo, ninguém sabe. E nem explica. Especulações, teorias e
doutrinas há muitas, todas carentes de comprovação. Na ausência
de explicação racional e incontestável, multidões recorrem ao
expediente da fé. E eu também. Não se trata de crença cega,
dogmática, que nunca contesta. Não a minha, pelo menos. Duvido,
contesto, discuto e ponho em dúvida esses princípios a todo o
momento. Nem por isso deixo de ter fé. Embora não “saiba” se
eles são mesmo assim, mesmo que minimamente, creio que sejam.
A
fé é a “irmã gêmea” da esperança. É a irresistível mola
propulsora das grandes realizações. É a crença absoluta e
irrestrita no que, aparentemente, é impossível, ilógico,
irracional e irrealizável. Essa confiança sem limites, de que vamos
atingir determinada meta, que a razão nos diz ser inatingível,
mobiliza poderosas forças em nosso interior, que sequer desconfiamos
que temos.
Chega
a ser redundante a afirmação de que “a fé remove montanhas”,
já que a experiência nos mostra que remove mesmo. Muitas já foram
removidas e outras tantas ainda o serão. Se você não acredita no
sucesso de alguma empreitada – a de escrever um livro, por exemplo
– nem a comece. Se começar, redundará, quase que com certeza, em
fracasso.
A
fé, todavia, é muito mais poderosa do que a esperança pois,
enquanto esta é passiva, e se caracteriza – como a própria raiz
da palavra indica – pela “espera”, tem como característica a
ação. O fiel acredita que, agindo, chegará ao sucesso que tanto
busca. E chega mesmo. Rabindranath Tagore observou: “A fé é ave
que canta quando o sol ainda não raiou”. Ou seja, é a certeza de
que, haja o que houver, ele irá, de fato, raiar, daí a antecipação
em saudá-lo.
Por
isso, quem tem fé, nunca dá batalhas por perdidas, por mais que
pareça que não haja mais salvação. Por mais escura que seja a
noite, acredita que logo haverá muita luz para guiar seus passos,
com segurança e firmeza, rumo aos seus objetivos. Quando tudo parece
irremediavelmente perdido, crê, sem titubear um só instante, numa
reversão de expectativas e não duvida, em momento algum, do
sucesso.
E,
por acreditar de forma tão absoluta na superação dos obstáculos,
via de regra quem é munido de fé tende a reverter situações
aparentemente irreversíveis e a alcançar, de fato, a pretendida
vitória. Com fé, tudo podemos, até mesmo conseguimos remover
montanhas de angústias e de incertezas. O seu oposto é a dúvida
permanente e irremissível.
O ceticismo
– ou seja, total descrença em tudo e em todos – ao lado da
solidão, é uma das características marcantes deste início de
milênio. Conheço muitos e muitos céticos que, embora neguem que o
sejam, suas atitudes os desmentem e delatam. Em paralelo, claro, há
os que têm fé irrestrita, mística, extremada até, em tudo o que
entendem que seja a “sua” verdade, não importa sua natureza, se
religiosa, social, ideológica ou qualquer outra.
Como os
extremos se tocam, ambas as atitudes, levadas ao ponto máximo, são
equivocadas. O ceticismo extremado conduz as pessoas ao desencanto, à
desconfiança patológica e às neuroses. A fé cega, sem
questionamentos ou base minimamente lógica, leva, via de regra, quem
age dessa maneira, à estreiteza mental, ao dogmatismo, ao fanatismo
e ao erro. A atitude sensata (e sábia), é cultivar valores testados
e aprovados ao longo tempo, é estudá-los em profundidade, para
dar-lhes sólida fundamentação e é buscar disseminá-los na
sociedade, não os impondo, contudo, a ninguém.
John
Updike, no romance “O Encontro”, constata que “não há bondade
sem fé”. E prossegue: “Sem fé, todos os atos são apenas
ocupações. E se não teve fé, no fim da vida saberá então que
enterrou todas as suas possibilidades no solo deste mundo e que já
nada lhe resta para levar para o outro”. Isto, se acreditar em um
outro, no que os céticos não creem. Por isso, não contam com base
para a esperança.
Suas vidas
são áridas, vazias, sem sentido. Mas o argumento mais sólido para
que acreditemos em alguém, ou em algo (mesmo que de forma
instintiva), é dado por Will Durant, em seu clássico “Filosofia
da Vida”. Num determinado trecho, o filósofo analisa a
“naturalidade” e a falta dela das duas posturas. E conclui: “A
crença é um fenômeno natural. Vem diretamente das nossas
necessidades emotivas – da fome de autoconservação, da sede de
recompensa, de companhia, de segurança e até do pendor pela
submissão”.
Uma
das melhores definições que já li sobre fé, curiosamente, não
foi feita por nenhum teólogo nem qualquer filósofo. Foi a do
romancista australiano Morris West, sobre o qual escrevi
recentemente. No seu livro “O Advogado do Diabo”, o escritor
indaga: “Que é a fé?”. E a seguir responde: “ É um ato
inspirado de vontade que constitui a nossa única resposta ao
terrível mistério de se saber de onde viemos e para onde vamos”.
Fé é exatamente isso: acreditar, sem restrições, no incrível. O
mais não passa de filosofia barata, de tentativa vã de explicar o
inexplicável.
Boa
leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
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