Prima donna canarinho
Por Fernando Mariz Masagão
Na
semana passada, escrevi neste espaço um texto sobre os efeitos da
expectativa em torno do primeiro jogo do Brasil na Copa do Mundo da
Alemanha . Disse na oportunidade que o clima era de otimismo e de um
patriotismo efervescente, quase delirante. Apontava o fato de apenas
manifestarmos nosso amor ao Brasil quadrienalmente, condicionados aos
escassos motivos de orgulho, sendo um deles – e o mais forte de
todos – a seleção brasileira. Escrevi supondo ser esta uma
característica bastante peculiar ao nosso povo. Mas o brasileiro é,
em verdade, muito esquisito. Passados dois jogos da primeira fase da
competição, as bandeirinhas continuam a tremular, firmes e fortes,
numa demonstração de outra característica nossa: a fé.
Já
o otimismo...
Acho
que não existe uma pessoa no país que não vá classificar as duas
primeiras exibições da seleção como decepcionantes, para dizer o
mínimo. O que se viu em campo foi um amontoado de estrelas batendo
a cabeça, cada jogador tropeçando no salto alto do outro. E ficamos
todos espantados ante o futebol apresentado, digno de uma seleção
de Lucerna.
Eu
não sei se vocês concordam, mas outra característica nossa das
mais evidentes é o fato de sermos uma imensa nação de “Murphies”.
O brasileiro é um povo acostumado a matar três ou quatro leões por
dia. O que tiver para dar errado não só vai dar errado, mas vai se
desenrolar da pior maneira possível. E confirmando este dado
antropológico da mais ilibada cientificidade, a Argentina resolve
mostrar no seu segundo jogo que dispõe de um quadrado mágico
efetivo e aplica uma goleada histórica em cima de Sérvia e
Montenegro - que se não é uma Croácia, também não é uma
Austrália. E aqui começou o delírio oposto. Narrarei um fato que
me parece bastante ilustrativo.
Sucedeu
que no dia seguinte ao jogo da Argentina, numa seção em que o
Estadão destina para duas personalidades opinarem sobre algum
assunto relacionado à Copa, foi perguntado “se havia pintado o
campeão ?”, se a Argentina levaria o caneco, dado, creio eu, a
discrepância do futebol apresentado em relação ao resto. Como o
espaço em questão sempre apresenta opiniões contrárias sobre o
mesmo tema, de um lado escreveu Andrada, goleiro argentino que chorou
ao levar o milésimo gol de Pelé e que, evidentemente, respondeu
afirmativamente. Do outro, Martinho da Vila respondia que não, que a
Argentina não ganharia nada. E sapecou alguns argumentos dignos de
nota. Dizia o talentoso compositor que qualquer seleção de tradição
teria a obrigação de enfiar seis gols num time destroçado por
disputas étnicas. Que a goleada nada representava. Não via o nosso
Martinho, enfim, nada de anormal num time marcar seis gols num mesmo
jogo de Copa do Mundo. E completava, entre outros argumentos que
agora não me recordo, que seu time já havia goleado outra equipe
por 14 a 1 e nem por isso haviam faturado o torneio disputado na
Vila.
Bom,
fui eu relatar esta anedota a um amigo meu, já que o assunto na mesa
era o jogo da Argentina e me deparei, antes que pudesse contar o
artigo do Martinho para o Estado, com uma reação indignada, quase
furiosa. Foi novamente dito que a Servia e Montenegro era uma equipe
sem tradição, em meio a uma guerra intestina; que o cão que
ladrava agora não passaria das oitavas de final; que o Brasil
golearia a Austrália e demonstraria que a pressão exercida pelo
mundo inteiro em cima do escrete havia passado; sem contar a
superioridade do selecionado croata que havia marcado muito bem e era
muito firme taticamente. Só não foi apresentado como argumento
cabal uma goleada histórica como a do Martinho da Vila (que,
suponho, deve jogar bem melhor que meu amigo).
Veio,
então, o esperado segundo jogo. Entre muitas jogadas bisonhas e
tristes, as piores foram protagonizadas pelos dois Ronaldos, que nós
sabemos serem craques do mais alto nível. O Ronaldão furou uma bola
que quase o fez cair de bunda no chão. O Ronaldinho Gaúcho PISOU
literalmente na bola e de fato foi ao chão. O Brasil fez mais um
papelão nesta Copa. E a imprensa só noticiou uma “melhora” no
desempenho do time porque o Fred fez aquele golaço e esticou um
pouco o marcador . E nos classificamos com a certeza de que é mera
questão de tempo até a seleção engrenar. Esclareça-se que eu não
faço coro com a ala mais fanática da torcida que exige de seus
super craques show de bola em toda partida. Nem acho que um placar
magro simbolize que uma equipe jogou bem ou não.
Mas
a seleção, por todo seu potencial, está fazendo feio mesmo. E
resta-nos perguntar a questão crucial: que catzo está acontecendo?
Ponha o time no papel e se constatará que as performances
brasileiras constituem-se numa anomalia futebolística. Vejamos o
ataque: Ronaldo, Ronaldinho, Kaká e Adriano. Os laterais são
ninguém menos do que Cafu e Roberto Carlos. Atrás temos o goleiro
do Milan, Lúcio, Zé Roberto, Emérson... No banco: Robinho, Fred,
Juninho Pernambucano, Mineiro. Até nosso goleiro reserva, Rogério
Ceni, é extraordinário. Mas não funcionou. Já foi provado.
Então
o que acontece? Acontecem dois problemas, um de ordem tática, outro
de ordem psicológica. O primeiro resume-se ao seguinte: Parreira. Á
exceção do ataque, a seleção reserva deveria estar em campo. Cafu
e Roberto Carlos estão velhos, jogando burocraticamente atrás e sem
conseguir criar ligação com o ataque. No meio é evidente que
Mineiro e Juninho poderiam dar sangue novo ao time (deveriam pelo
menos ser experimentados). No gol não vou nem comentar. Acho que nem
a mãe do Dida o prefere ao goleiro são-paulino. No ataque, com as
opções do banco, o Parreira deveria desencanar dessa veleidade
babaca de quadrado mágico porque a única mágica conseguida até
então foi deixar o futebol brasileiro quadrado. Adriano e Ronaldo
cumprem a mesma função. Não podem jogar juntos. ambos são
pesados. Devem ser alternados durante os dois tempos. E é claro que
Ronaldo deve jogar. Por mais fora de forma que ele esteja, sempre há
a possibilidade de ele tirar um coelho da cartola (crédito que não
dou a Adriano). Mesmo com o risco de um japonês o confundir com a
bola e chutá-lo. Inclusive acho que o estão usando injustamente de
bode expiatório, mesmo porque o time tem técnico - que é o
responsável pela escalação. O Ronaldo merece mais respeito.
Já a
questão psicológica é mais complicada. Desde a Copa de 70 que a
seleção canarinho é uma Prima Dona. Essa instituição nacional é
um organismo vivo. No seu camarim devem ter frutas frescas, toalhas
brancas e sais. Há que afagar-lhe o brilho, mas há que cutucar
também seus brios, sempre. Se não, corremos o risco de perdermos a
Copa com o melhor time da competição, proeza que só mesmo nós
conseguimos (vide 66, 82, 86). Do jeito que foram os treinos-show da
seleção, com público pagante, mulheres histéricas, europeus
histéricos, amistosos marcados para goleadas; do jeito que a
imprensa nacional e internacional noticiava cada assadura no bumbum
das estrelas; diante da certeza propagada por todo mundo (inclusive
nossa comissão técnica) de que o Brasil perder seria absurdo,
diante de tudo o que estamos testemunhando, só mesmo o talento
individual de nossos craques pode nos levar adiante, pelo menos é o
que está acontecendo. Isso se não esbarrarmos na Argentina pelo
caminho, que além de terem muitos talentos individuais, estão
jogando como um time - muito embora em clássico a história seja
sempre outra. Mas até lá viveremos este amor esquizofrênico,
historicamente calcado em decepções e júbilo.
Na
verdade, é pena que, como diz o ditado, as pessoas que realmente
entendem de economia, política ou futebol estejam muito ocupadas
dirigindo táxis, bebendo nos bares ou escrevendo crônicas.
*Fernando
Mariz Masagão é músico, dramaturgo, poeta e colaborador de
publicações online sobre arte, com crônicas e críticas musicais.
Guitarrista e vocalista de bandas de rock'n'roll,
tem formação clássica vigorosa, em cursos de
regência sinfônica, apreciação musical e instrumentação.
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