Uma ou duas histórias sobre a
mulher na intimidade
* Por
Marcos Alves
Ver
uma mulher na intimidade pode ser algo maravilhoso e único, e também
muito perigoso - principalmente para o expectador desavisado. Mesmo
quando a presença do homem é consentida há sempre o risco de
surgirem insinuações e intrigas vindas de outro homem. Independente
do nível sócio-econômico, o que vai variar são os desdobramentos
- que dependem diretamente da visão de mundo e estilo de vida de
cada um.
1
- O banho
A vida é calma no bairro,
onde nada acontece muito diferente da rotina. O comércio aberto, as
conversas na porta. O sol a pino, velhas senhoras a passear e se
queixar com as empregadas.
De repente, vejo a cena
enquanto espero o ônibus. O jardineiro conversa com uma moça, perto
de um dos canteiros. Ela estava alojada ali, em um barraco de madeira
apoiado nas colunas da praça íngreme.
Abriu a torneira mas não
mandou o rapaz embora. Pegou mangueira e balde e, bastante à vontade
mas mantendo certa classe, começou a se banhar ali mesmo. Usava
apenas um short apertado e a peça de cima, trajes convenientes para
o calor de janeiro.
Ele muda a expressão. De
repente, deixa de ser um autômato, tem um sossego das ordens: "Corta
mais baixo essa grama!" Faça melhor essas aparas!"
"Cuidado com as flores!" "Passa uma vassoura aí!".
Ficou ali, de braços cruzados
encostado na mureta a observar a musa, toda desenvolta, a se
contorcer para esfregar as axilas, a virilha, enxaguar as partes
íntimas sem tirar a roupa. O cara ali, com a boca aberta, naquele
calor insuportável. Um interlúdio, uma pausa na rotina dura e cinza
da vida.
A cerca de dez metros, os
taxistas não dão importância à cena. Mais longe um pouco, um
moreno baixinho e forte grita: "Maria!". O jardineiro dá
um pulo para o lado. A mulher joga a mangueira para o outro e entra
no barraco. O ônibus chega e vou-me embora.
2
- Cena de quintal
A mulher que permite ser vista
na intimidade tem o poder sobre o homem, principalmente se for nos
primeiros encontros. No jogo da sedução esse é um momento forte e
marcante. Inaugura novas fronteiras no jogo do amor. Se não acontece
nada de especial das primeiras vezes, se tudo é como se fosse o de
sempre, se não aparecem sinais, odores, calafrios e arrepios,
estômago queimando, nada, então com essa pessoa nunca vai acontecer
nada de diferente mesmo.
Joel aparece na rua, desce a
ladeira de bermuda e camiseta. Cumprimenta o pessoal na praça, como
se habituou a fazer nos últimos meses, desde que se mudara para o
bairro.
A vizinhança era tranquila, e
isso o deixava satisfeito. Mudara-se para Belo Horizonte há pouco
tempo. "Vinha tentar a vida", costumava dizer quando
perguntado sobre o motivo da estada na capital.
Alugou um barracão de fundos
no Carlos Prates, bairro antigo - se é que há bairros antigos na
cidade com pouco mais de cem anos. Belô era jovem, como jovem era
Joel e larga era sua esperança. Viera para trabalhar, ganhar um bom
dinheiro e assim "construir uma casinha para a mãe lá em
Guaipava".
Trabalhava como vigia à noite
e durante o dia fazia bicos no bairro. Lavava carros, cuidava de
jardins, "até uns tanquinhos de lavar roupa andei consertando".
Foi assim que foi conquistando confiança e simpatia no lugar,
principalmente o pessoal que mora na frente do barracão alugado por
ele. "Stela e Moacir eram gente da melhor qualidade",
costumava dizer sobre o casal.
Morava numa dessas casas
compridas, que o proprietário vai aumentando nos fundos para alugar.
Em Belo Horizonte essas moradias são conhecidas por barracões.
Era domingo
e tinha tomado umas 3 ou 4 cervejas, para esfriar a cabeça. Enfiou a
mão pelo buraco que fica entre a parede e o portão, abriu a
fechadura e empurrou o portão de madeira que ficava ao lado da casa.
Dava para um corredor de uns 5 metros, o muro bem rente cheirando a
musgo por causa da umidade. Algumas espécies de plantas nasceram
ali, algumas parecidas com samambaias - primas distantes, talvez.
Quando chegou na área descoberta deu de cara com a vizinha de
biquini na área descoberta do quintal tomando sol.
Você disse que ia demorar
Joel, não esperava você aparecer! - Disse assustada, e pôs-se a
levantar, as mãos puxando a toalha estirada no cimento quente da
área comum onde fica o varal de roupas.
- Resolvi
voltar para dar um cochilo.
A desvantagem de morar em um
desses barracões é a proximidade inevitável e certa falta de
privacidade. Mas tudo costuma ser resolvido na base do respeito a
certas regras de convivência.
Joel pede licença e atravessa
a área rumo à escadinha que dá acesso ao barracão dele. No
caminho, deixa-se perturbar por pensamentos sobre a vizinha. Era uma
mulher bonita, atraente e, na poucas vezes em que conversaram, muito
agradável. O celular toca. É o Chico.
- E aí?
Falou com o advogado?
Rapidamente os pensamentos
agradáveis desapareceram e deram lugar às preocupações. Enquanto
Joel fala ao celular, Stella acena da janela, gestos nervosos. Para
Joel aquilo tinha um significado claro. "É a minha chance",
pensou. Desligou o telefone na cara do Chico, foi até a janela.
- O que
foi, bem? Arriscou logo uma frase carinhosa, sugerindo intimidade.
- Que bem,
que nada rapaz! Olha o respeito! Vem trocar o botijão que o gás
acabou e o almoço tem que sair, já é quase meio-dia. Bem! Ah,
Joel, se eu não fosse com a tua cara te entregava pro Moacir!
- Faz isso
não, dona Stella! Cadê o botijão?
E entrou na casa da vizinha
com aquele jeito de caipira envergonhado.
*
Jornalista.
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