O
Rio ainda é o tambor do Brasil
* Por
Elaine Tavares
O
pré-candidato à presidência da República pelo PSOL, Nildo
Ouriques, esteve por vários dias no Rio de Janeiro, onde cumpriu
intensa agenda partidária, visitando cidades do interior e também a
capital. Sua proposta foi ouvir os filiados e dirigentes locais sobre
os rumos do partido e também conhecer os principais desafios da
população fluminense. Entre as atividades esteve a visita à
Rocinha, uma das maiores comunidades da cidade do Rio, com mais de
100 mil habitantes, e lá, reforçou sua ideia de que a população
realmente quer uma mudança radical na vida e na política. E essa
mudança é a Revolução Brasileira.
Nildo
tem especial carinho pelo Rio de Janeiro. Foi lá que viveu seu
primeiro emprego, em 1985, atuando na Fundação Escola do Serviço
Público, durante o primeiro mandato de Leonel Brizola como
governador. Desde então tem observado que a capital fluminense,
apesar de ter perdido o posto de capital do Brasil, seguiu sendo uma
espécie de “tambor” do país, sem nunca ter renunciado o posto
de vanguarda intelectual e política. Até hoje, o Rio mantém um
grau de heresia e vitalidade com uma imensa capacidade de pensar o
país.
Na
visita à Rocinha ficou claro de que essa vocação de ser o tambor
do Brasil segue viva e atuante. E está na vida mesma das
comunidades, nas pessoas simples que vivem seus dramas cotidianos e
que os driblam com valentia, sempre procurando as saídas que
garantam o bem viver. “É impressionante a satanização que a
mídia faz dessas comunidades. É fato que existe a ação forte do
narcotráfico, que há uma militarização tremenda, um combate
aberto, letal, uma tensão permanente, mas as pessoas têm uma imensa
sabedoria e uma astúcia sobre as causas e as soluções”.
Nildo
conversou com lideranças, pequenos comerciantes, agentes
comunitários de justiça, trabalhadores e observou que se há alguém
responsável por todo o drama que vivem as pessoas empobrecidas nas
favelas do Rio ou de qualquer lugar, são os governantes. Eles são
responsáveis e cúmplices porque se recusam a convocar a população
para, junto com ela, encontrar as saídas para cada problema. “O
que falta nas comunidades é nada mais nada menos do que o poder
público. Falta acreditar no povo, falta fé nas gentes, falta chamar
as pessoas para participar efetivamente”.
Caminhando
pelas vielas labirínticas da Rocinha Nildo percebeu que se os
burocratas partidários torcem o nariz para o tema da Revolução
Brasileira, as gentes simples não. Elas abrem os olhos e os ouvidos
e encontram nessa proposta a melhor alternativa. “Ali a violência
é cotidiana, eles sofrem o racismo, a desigualdade de classe, a
miséria, o caráter letal da polícia. Eles querem uma transformação
radical. Sabem que nessa ordem nada vai mudar”.
Um
exemplo disso é a expressão do programa “Minha casa, minha vida”
que encravou na comunidade de mais de 100 mil habitantes um total de
400 casas. Isso é uma gota de água no oceano. Pensar a questão
urbana no Rio ou em qualquer metrópole passa por um projeto que seja
verdadeiramente transformador. “Ali deve se começar com 15 ou 20
mil casas. Menos que isso é ilusão. E a comunidade que olha como
funcionam essas políticas, sabe disso, quer outra coisa”.
Nildo
aponta que existe uma guerra de classe contra o povo e a saída é a
revolução brasileira. No caso da questão urbana, como na agrária,
na economia ou na cultura, o que precisa é uma articulação
concreta entre as reformas necessárias e as políticas públicas.
Programas paliativos que comovem as pessoas de boa fé são incapazes
de resolver os dramas urbanos ou rurais. Há que se pensar programas
massivos, que garantam moradia. “Para isso, no programa da
Revolução Brasileira será necessário mexer no estrutural: tirar
dos grandes proprietários do espaço urbano a capacidade que eles
têm de tomar a renda da terra e ficar especulando com o aluguel”.
Já
com relação ao tráfico, igualmente letal nas comunidades, a
solução não deverá passar pelos marcos da política punitiva
atual que usa uma polícia violenta, que mata o povo, que prende
apenas os pobres e pretos. Bem como são também pobres e pretos os
policiais que igualmente tombam nessa guerra sem fim, mostrando que é
apenas a classe trabalhadora que coloca as vítimas. “Os resultados
disso tanto nós como as comunidades já sabem: morrem os pobres, os
trabalhadores, e os ricos passam as férias na Europa. Não vamos
defender as ilusões do sistema. Temos um programa de grandes
transformações, mudanças reais, construções produzidas pelas
próprias pessoas que vivem os dramas cotidianos. Com elas vamos
realizar a Revolução Brasileira”.
*
Jornalista em Florianópolis/SC.
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