Desmistificando
o chá de coca
* Por
Urda Alice Klueger
Em
1993, minha amiga Sônia e eu fizemos os preparativos para uma viagem
à Bolívia e ao Peru no meio de muita farra: voltaríamos casadas
com traficantes de cocaína, voltaríamos viciadas em chá de coca. É
claro que não queríamos casar e nem nos tornarmos viciadas, mas
nossos amigos riam muito dos nossos planos.
Viajamos,
enfim. A primeira cidade boliviana que conhecemos foi Santa Cruz de
La Sierra, ainda na parte baixa da Bolívia, antes de se subir os
Andes. Santa Cruz nos surpreendeu por ser uma cidade grande e bonita,
plana e planejada, cujo centro, com uma antiga catedral espanhola,
linda praça e casario espanhol, é cercado por moderna cidade de
prédios modernos, agradável e aconchegante.
Chegamos
de manhã à Santa Cruz, e gastamos o dia conhecendo a linda cidade
(eu esperava uma cidadezinha de tugúrios, muito feia) e, de
tardinha, passamos por um mercadinho, onde havia na vitrine ... chá
de coca! Há que se lembrar que o chá de coca, na Bolívia, é tão
legal e consumido quanto o cafezinho, no Brasil; mas ainda não
sabíamos disso, e o chá famoso exercia uma grande atração sobre
nós, dava uma ideia de proibido, de pecado, e quem não gosta de
experimentar o proibido? Olhando para os lados, para ver se ninguém
nos via, Sônia e eu entramos no mercadinho e compramos uma caixa de
chá, com os mesmos cuidados que as pessoas têm quando compram
pornografia.
A
caixinha de chá que compramos era de famosa marca alemã, tinha
linda embalagem envolta em papel celofane, e o chá vinha em
saquinhos, como qualquer chá respeitável. Escondemos a caixa na
bolsa e voltamos correndo para o hotel, onde mandamos preparar duas
chávenas. Quando nos entregaram as xícaras, em nosso apartamento,
Sônia e eu nos deitamos para tomá-lo, para que quando acontecesse o
"barato", estivéssemos deitadas e nada nos acontecesse.
Até hoje eu morro de rir ao lembrar como ficamos as duas deitadas,
após tomar o chá, esperando o "barato". Dez minutos
depois eu perguntei:
Sônia ... tudo bem aí?
Estava
tudo bem, assim como comigo, nada estava acontecendo com ela.
Mais
dez minutos, e Sônia pergunta:
Urda ... tudo bem?
Era
hilariante a cena, nós a esperarmos o "barato" que não
veio. Uma hora depois, morrendo de rir, resolvemos voltar aos nossos
passeios. O chá de coca não dá barato nenhum.
Só
fui entender a verdadeira função do chá de coca depois que subimos
os Andes. Naquela altitude de 4.000 m, não sei como se viveria sem
ele. O mal-estar da altitude é uma coisa terrível, que não se tem
como fugir mesmo deitada, mesmo
dormindo, a altitude nos faz sentir muito mal
mesmo dentro do sono, tem-se a sensação de que se respira agulhas,
ou navalhas, e a cabeça está sempre com a sensação que vai
explodir. Qualquer pequeno esforço, como o de se subir uma escadinha
de cinco degraus, deixa-nos sem forças, derreados, com o coração
disparado, e é nessas horas que o chá de coca é benvindo. Ele nos
ajuda um monte a melhorar, dá-nos a sensação de que se vai
conseguir sobreviver, é o melhor remédio que existe contra os males
da altitude.
No
Bolívia, toma-se chá de coca tanto no botequim da esquina, quanto
no mais fino restaurante. Os mais refinados garçons do país, quando
vêm chegarem turistas derreados, que jogam os braços e as cabeças
sobre as mesas e não conseguem nem mais falar, sabem direitinho o
que eles precisam. Polidamente, aproximam-se e perguntam :
Mate de coca?
E
a gente dá graças a Deus que o garçom perguntou, que não precisou
gastar aquele tiquinho de energia necessário para pedir a infusão
que vai devolver um pouco das forças, porque força a altitude tirou
toda.
Eu
sempre digo que Deus faz as coisas perfeitas, o Diabo é que as
estraga depois. Num lugar alto como os Altiplanos andinos, onde é
tão difícil viver, Deus colocou a coca e o seu chá terapêutico (o
gosto não é bom, mas a gente o acha maravilhoso pelo bem que ele
nos faz.). O Diabo, depois, fez com que o homem descobrisse a forma
de, com aquelas folhas ingênuas e boas, produzir cocaína.
Blumenau,
25 de agosto de 1996.
*
Escritora de Blumenau/SC, historiadora e doutoranda em Geografia pela
UFPR, autora de vinte e seis livros (o 26º lançado em 5 de maio de
2016), entre os quais os romances “Verde Vale” (dez edições) e
“No tempo das tangerinas” (12 edições).
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