Um susto diante de si mesmo
* Por
Anna Lee
Era final de março, começo
de abril, e chovia muito quando Gilberto desembarcou no cais, depois
de o Jacuípe
da Companhia Pernambucana ter lutado desesperadamente com as ondas
bravas do Lamarão. Teria ficado perdido no meio do temporal se um
carregador de malas não o tivesse praticamente empurrado por uma
porta, que estava entreaberta:
- O senhor fica aqui até a
chuva abrandar. Mais tarde, venho buscá-lo.
Gilberto só teve tempo de
olhar para a tabuleta que informava: Hotel de França. E entrou.
A sala principal estava vazia.
De um outro cômodo vinha uma voz de mulher num sotaque francês
carregado. Ela falava alto e sem parar. Mas não o suficiente para
interferir no transe em que o rapaz caíra ao se deparar com os
enormes espelhos que desciam ao longo das paredes até o chão e
cobriam quase toda a recepção. Espelhos que Gilberto só tinha
conhecimento pelas descrições de romances.
Em Sergipe, nunca vira nada
igual. Nem se enfileirasse todos os espelhos que havia em Aracaju, no
litoral e no sertão, e também nas cidades velhas, jamais
conseguiria reproduzir o que estava vendo. Na Bahia, onde estivera
durante dois anos, tampouco encontrara coisa igual. Se bem que lá só
morara em repúblicas. No máximo, frequentara casas de professores,
jamais lugares de luxo.
A dona do hotel apareceu e
disse:
- Bom dia, senhorrrr!,
escancarando a porta por onde Gilberto entrara e uma outra também.
Um clarão invadiu a sala. A
luz derramou-se nos espelhos de modo que ele pôde se ver não só de
frente como de lado, multiplicado e ao mesmo tempo dividido em formas
e pedaços mil. O que antes era deslumbramento agora era um
espetáculo hipnotizador. Ele não respondeu ao cumprimento. A
mulher, num gesto de compreensão, retirou-se.
Gilberto não tirava os olhos
de si mesmo. Pela primeira vez, se via de corpo inteiro. Até então,
só tinha se olhado em espelho pequeno, de parede, ou pequeníssimo,
de bolso, que reproduzia apenas o rosto, quando muito, gravata e
pescoço. Jamais assim... todo, paletó, calças, sapatos. Teve um
choque.
Naquele exato momento tomou
conhecimento da sua fealdade. Uma fealdade que o fez recuar. Era
“aquilo”?! A cabeça, grossa e pesada, enterrava-se nos ombros,
formando com o torso empinado um ângulo agudo. A queixada aproava
num arremesso antipático. Surgia ali a inimizade pelo próprio
físico, que carregou durante o resto da vida. Desde então, era
ver-se diante de um espelho grande, sobretudo de perfil, para
experimentar uma sensação brusca, quase um susto diante de si
mesmo.
-
Trecho de O Sorriso da Sociedade.
*Jornalista, mestranda em
Literatura Brasileira, autora, com Carlos Heitor Cony, de "O
Beijo da Morte"/Objetiva, ganhador do Prêmio Jabuti/2004, entre
outros livros. Colunista da Flash, trabalhou na Folha de S. Paulo e
nas revistas Quem/Ed.Globo e Manchete.
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