O
corpo de Ahzeturis
* Por
Marco Vasques
Lateja
o peito, e tonto ele sai sob o sol de uma tarde que nada lhe diz.
Comido pelo silêncio da vertigem, vivência da pele, caminha rumo ao
encontro. Do corpo nada sabia. Nem sabia se o guarda-roupa servira ao
corpo, ou se os corpos serviam aos guarda-roupas. Portanto, para ele
a nudez ainda era um mistério, e nada poderia ser dito para cortar o
efeito das vestes empalhadas pelas ruas.
Pensou
em um ditado oriental, sem ao menos entender por que seu pensamento
se dirigia para o outro lado do mundo. Ficou retumbando em sua
cabeça: a casa é o túmulo dos vivos. Voltou o olhar à terra e viu
que tudo é uma questão de tempo. Viu uma esperança quando desejou
que seus fios de cabelo fossem usados para fabricar flautas, o crânio
pudesse ser útil na fabricação de um instrumento de percussão, no
entanto tinham que aproveitar os olhos para que crianças inocentes
brincassem com um pouco de brilho, de vidros e sonhos.
Dos
ossos desejava apenas que fossem bem utilizados, e uma ideia
lhe agradou: fazer deles um faqueiro, onde figurassem garfos, facas e
colheres. Desejou que todos aqueles que, antropófagos, engoliram sem
piedade sua simplicidade, sua liberdade, todos aqueles que se
afogaram de tanto beber seu sangue, a esses desejou que fosse dado
cada talher fabricado com seus ossos.
Com
a pele poderiam fazer o que quisessem, mas o mais acertado seria
fazer dela algumas páginas para poemas, pois as linhas já estavam
prontas, todas esculpidas por canivetes e facas. A humanidade se
envergonharia de tanta dor, nenhum poeta teria coragem de rabiscar
uma só palavra sobre a pele tão escrita.
O
sangue poderia ser usado para fabricar alguns quadros. Bosch,
Magritte, Dali e Picasso saberiam como usá-lo. Só jogar na tela.
Tanta dor circular, algumas gerações carregadas nas veias, não
precisa de muito trato artístico. Pollock talvez fosse o que mais
entendesse tal gravidade de vermelho. Uma gravidade de arrebol em dia
de funeral. Vermelho em Bach. Vermelho soturno e surdo nos dedos de
Beethoven.
As
unhas poderiam ser entregues a algum artista de bairro, desses que
sabem fazer belos mosaicos em fachadas de prédios. As tripas
mereceriam, talvez, ser transformadas em um saxofone. Assim Ahzeturis
rumava ao encontro de sua decomposição. Desejou, ainda, que seu
estômago se transformasse em bola de futebol e estivesse a serviço
da alegria, logo Ahzeturis, que nunca conhecera esse sentimento.
Mesmo assim desejava proliferar o desconhecido sentimento entre os
homens, sobretudo entre as crianças.
Continuou
andando por cinco dias até completar toda a saga e ter distribuído,
de forma utilitária, tudo que era físico. Então, quando chegou na
boca, não soube o que fazer com o verbo. Sentou num trilho antigo,
na mais absoluta solidão, e chorou.
Contam
que depois disso Ahzeturis nunca mais foi encontrado. Alguns
estudiosos da literatura, por exemplo, dizem tê-lo encontrado, em
forma de sombra, nos textos de Thomas Mann, Gogol, Paul Éluard e
Dostoievski. E Ahzeturis, que nunca chamou a atenção em vida, hoje
é escopo de pesquisas históricas, pois todos querem saber por que o
corpo de Ahzeturis jamais foi encontrado.
(Publicado
na revista Coyote, 2006)
*
Poeta
e crítico de poesia. Bacharel e licenciado em Filosofia pela
Universidade Federal de Santa Catarina. Faz mestrado em Filosofia da
Linguagem. Autor de Elegias
Urbanas (Poemas,
2005, Bem-te-vi, Rio de Janeiro), Diálogos
com a literatura brasileira – volume I (entrevistas,
2004, EdUFSC/Movimento, SC/RS), Diálogos
com a literatura brasileira – volume II (entrevistas,
2007, EdUFSC/Movimento, SC/RS) e Harmonias
do Inferno (contos,
2005, edição do autor). Tem no prelo Flauta
sem Boca (poemas)
e trabalha no Diálogos
com a literatura brasileira - volume III. Nasceu
em Estância Velha, 1975, vive em Florianópolis, mas é de Imbituba,
onde passou a infância.
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