Estrelas
além do tempo
* Por
João Luís de Almeida Machado
A
luta pelos direitos civis estava em plena marcha. Os anos 1960 nos
Estados Unidos em ebulição política e social. O sul do país,
atrelado a práticas discriminatórias em virtude de seu passado
escravagista, apesar da vitória nortista na Guerra de Secessão e do
surgimento de um sem número de leis que tinham como propósito
tornar igual a condição de negros e brancos na sociedade
norte-americana, teimava em atuar no sentido do “iguais mas
separados”.
Por
conta disso, ainda que contassem com o apoio da legislação e das
autoridades federais, a população negra dos estados sulistas ia
para escolas distintas daquelas utilizadas pelos brancos, andava na
parte de trás dos ônibus, usava bebedouros e banheiros públicos
destinados somente as pessoas com ascendência africana e sofriam
brutal perseguição ao tentarem se incluir entre os votantes nos
núcleos eleitorais de suas cidades.
Não
bastasse tudo isso, eram ainda vítimas de perseguições violentas
por grupos de extremistas, como a KKK (Ku Klux Klan) e não tinham
sua segurança e integridade física e material garantida pelos
agentes policiais locais, muitas vezes membros da Klan ou com
opiniões contrárias as leis vigentes no país e a campanha intensa
em prol da integração que ocorria em toda nação.
Filmes
como “Selma”, “Mississipi em Chamas”, “Assassinato no
Mississipi” e “Malcolm X”, entre outras produções de enlevo,
abordam os bastidores desta luta intensa pelos direitos da população
negra nos Estados Unidos. Poucos, no entanto, demonstram o que
acontecia com as mulheres negras ou, ainda, com profissionais negras
muito qualificadas dentro da esfera corporativa estatal ou privada.
“Estrelas
além do tempo” nos coloca justamente neste patamar e apresenta,
como 3 brilhantes mulheres fizeram história, nos bastidores da
poderosa e celebrada agência espacial norte-americana, a NASA, em
fatos até bem pouco tempo desconhecidos para a grande maioria das
pessoas. Há, evidentemente, nesta história trazida para as telas
desde o preconceito explícito, passando por situações
inexplicáveis entre pessoas aparentemente tão inteligentes quanto
engenheiros de ponta da NASA até, principalmente, a superação das
protagonistas, toda a sua capacidade e brilho profissional,
questionados meramente pelo fato de que eram pessoas negras e, além
de tudo, mulheres.
O
filme aborda, portanto, dois tipos evidentes de discriminação que
vigiam na época e que, infelizmente, ainda são correntes nos dias
atuais, o preconceito em relação aos negros e as mulheres. Os dados
atuais talvez sejam um pouco melhores em relação aos anos 1960 na
região sul dos Estados Unidos, no entanto, por lá, no Brasil ou em
qualquer outra parte do mundo, as mulheres sofrem violências
inaceitáveis, são submetidas a salários inferiores em relação
aos homens e, caso sejam negras, as disparidades, como nos exemplos
citados, aos quais podem ser adicionadas outras situações, são
ainda maiores. Totalmente inaceitáveis ambas as condições.
Neste
sentido, o filme de Theodore Melfi, tem grandes méritos pela bela
história que traz para as telas, inspiradora para todos aqueles que
lutam contra os evidentes prejuízos contabilizados diariamente pela
discriminação racial, étnica e de gênero. Um libelo que precisa
ser visto, apreciado, aplaudido e que deve legar aos espectadores uma
postura cada vez mais contrária a qualquer tipo de intolerância.
O filme
Estamos
no início dos anos 1960, em plena Guerra Fria, durante a chamada
corrida espacial envolvendo russos e americanos. Este período é
igualmente intenso politicamente nos Estados Unidos em virtude da
luta pelos Direitos Civis, liderada por nomes como Martin Luther King
e Malcolm X, através da qual os negros norte-americanos pleiteiam a
igualdade de direitos em relação a população branca.
Katherine
Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughn (Octavia Spencer) e Mary
Jackson (Janelle Monáe) trabalham na NASA e estão, portanto, muito
envolvidas com a corrida espacial. São especialistas em cálculos
complexos, atuando como “computadores humanos”, numa época em
que os equivalentes cibernéticos ainda eram tão grandes e
dispendiosos, além de limitados e caros, que boa parte dos estudos
matemáticos necessários para se mandar foguetes para o espaço
passava pelos engenheiros e técnicos da agência espacial
norte-americana.
Se
não bastasse isso, são mulheres negras num contexto social bastante
delicado, marcado por lutas sociais intensas e pela discriminação
evidente, seja pelo fato de serem afrodescendentes ou por serem do
sexo feminino. Convivem com a desconfiança, são tratadas com
descaso por superiores, submetidas a situações humilhantes como
banheiros separados, têm pouca ou nenhuma possibilidade de ascensão
na hierarquia da NASA.
São
mulheres negras que, no entanto, foram decisivas para as conquistas
espaciais norte-americanas na composição de forças e trabalho em
prol do desenvolvimento que levou satélites e foguetes daquele país
para o espaço, trazendo significativos avanços científicos para
toda a humanidade.
“Estrelas
além do tempo” nos coloca em contato com a história de cada uma
delas, que ao mesmo tempo ocorrem e que lhes permitem a superação
de situações e de contextos claros e evidentes de discriminação
em relação às
mulheres e à
população negra por elas representadas. Um filme emocionante, de
gente como a gente, que buscou por meio dos estudos e do trabalho
árduo, chegar onde chegou e que, ainda assim, enfrentaram
dificuldades que, infelizmente, por conta da intolerância e da
discriminação, continuam ainda hoje a existir no mundo.
Para
refletir
1-
Além da temática focada nos direitos civis, o filme aborda também
a Guerra Fria e a Corrida Espacial, eventos de vulto envolvendo à
época as duas maiores potências mundiais, os EUA e a União
Soviética. Passados mais de 50 anos daquele momento histórico é
sempre importante refletir sobre o que nos legou tal conflito no que
tange a conquistas e derrotas. A corrida espacial, por exemplo, foi
responsável por importantes avanços tecnológicos que migraram da
indústria aeroespacial para o dia a dia das pessoas. Que tal buscar
estas contribuições e discutir tal legado com seus alunos?
2-
Para melhor entender os anos 1960 e a luta pelos direitos civis faça
uma breve mostra de filmes relacionados ao tema, entre os quais os já
mencionados “Selma”, “Mississipi em Chamas”, “Assassinato
no Mississipi”, “Malcolm X” e, é claro, “Estrelas além do
tempo”. Compare as abordagens, proponha aos alunos que se coloquem
no lugar dos personagens, peça a eles que criem relatos em papel,
áudio e vídeo sobre a intolerância, a violência racial, a
perseguição aos afrodescendentes, a desigualdade de gênero... Tudo
embasado, se possível, em dados adicionados ao conteúdo dos filmes,
a leituras de materiais selecionados e a relatos de pessoas que
viveram esta época ou que ainda hoje sofrem com a discriminação
racial ou de gênero.
3-
A expressão “computador humano” usada no filme pode causar
estranheza a todos aqueles que hoje lidam e convivem com a internet,
computadores, tablets, smartphones e tecnologias afins. Que tal
buscar mais referências à ideia dos computadores humanos e
comparar, na medida do possível, o cérebro humano com a
inteligência artificial, compondo uma linha do tempo sobre o tema,
criando um infográfico, por exemplo.
*
Editor
do Portal Planeta Educação; doutor em Educação pela PUC-SP; e
autor do livro Na Sala de Aula com a Sétima Arte - Aprendendo com o
Cinema (Editora Intersubjetiva)
Nenhum comentário:
Postar um comentário