Verdade
e “aparência”
“A
mentira é um apaziguador social e sem ela a vida seria um inferno”.
Essa afirmação, instigante e provocativa, é o subtítulo da
matéria de capa da edição nº 1.771, da revista Veja, de 2 de
outubro de 2002, intitulada “Por que todos mentem?”. (Boa
pergunta!). Houve, como seria de se esperar, muitas cartas de
leitores, criticando ou elogiando a referida reportagem, que abordou
um dos mais controvertidos e discutidos comportamentos das pessoas.
Ângela
Luíza S. Bonacci, de Pindamonhangaba, no Vale do Paraíba, por
exemplo, escreveu: “O mentiroso é um predador que intoxica as
relações sociais, transformando-as num poço de desconfianças”.
Estava certa ao fazer essa afirmação, ou apenas se limitou à
retórica, a mero jogo de palavras? Como saber?! Conhece tanto do
assunto, ou apenas aparentou conhecimento? Isto é, mentiu? A
discussão, a respeito, tende a ser interminável, sem que se possa
chegar, jamais, objetivamente, a alguma conclusão definitiva.
Desde eras
remotas, os maiores pensadores da humanidade tentam identificar
verdade e mentira, em vão. Outro leitor de Veja, Renato Vilela
Cunha, de Ituiutaba, Minas Gerais, foi mais objetivo na abordagem do
tema, posto que mais dogmático. Escreveu, para a seção “Cartas”,
da revista: “A ausência da mentira só seria possível num mundo
perfeito, sem guerras, traição ou qualquer outro tipo de
desrespeito ao ser humano”. Verdade? Parece que sim! Mas como ter
certeza?!
A
propósito, lembro-me de uma citação do escritor José Américo de
Almeida, autor de “A Bagaceira” (entre tantas outras obras), que
li não me recordo em qual dos seus livros, e que diz: “Há muitas
formas de dizer a verdade. E talvez a mais persuasiva seja a que tem
a aparência de mentira”. Afinal, nem tudo o que parece, de fato é.
A citada
matéria de “Veja” nos informa, ainda, que “um levantamento
mostra que as pessoas ouvem duzentas mentiras por dia”. Só!!! E
quantas são as que dizem? Quinhentas? Mil? Dez mil? Talvez muito
mais! Ou, quem sabe, muito menos.
Ainda na
qualidade de provocador, de “advogado do diabo”, com o objetivo
de induzir o leitor ao raciocínio (afinal, “pensar não dói!”),
cito a carta de Natália Rodrigues, de São Paulo, sobre a mesma
matéria, publicada na edição posterior da revista (nº 1.772), que
diz: “A verdade só existe para quem necessita de explicação para
fenômenos que não compreende. Por isso, mentir é uma opção quase
sempre aceitável. Pior do que aceitar a mentira como verdade é
definir o que é errado sem julgar-se certo”.
Como se vê,
o tema é dos mais instigantes, embora inúteis, já que jamais será
possível (claro que esse “jamais” não passa de presunção da
minha parte) se chegar a uma conclusão definitiva. Os que negam
mentir, quase sempre são os que mais mentem. A primeira (e talvez
maior) mentira que dizem é exatamente a afirmação de que nunca
faltam com a verdade.
Claro que
há “mentiras e mentiras”. Há aquelas inofensivas, sociais, em
que as pessoas, em conversa na roda de amigos, inventam fatos que não
aconteceram, para ilustrar uma conversa. Ou, então, as que não
passam de exageros de acontecimentos (com ênfase para a própria
ação, é claro!), ditas no afã (de quem as conta) de se mostrar
superior aos interlocutores: ou em força, ou em sabedoria, ou em
astúcia, ou em que se sabe lá o quê.
Há as
chamadas mentiras “piedosas”, que são as ditas para poupar
alguém de medo ou de sofrimento moral. Há as sutis, bem
trabalhadas, detalhadas, artísticas até, com todas as
características de verdade, pela verossimilhança, mas que não
contêm um único elemento verdadeiro. Em contrapartida, há as
deslavadas, as caricatas, as ridículas, aquelas que não seriam
capazes de tapear sequer o mais bronco dos broncos dos mortais.
Há,
também, a mentira criminosa, que pode valer, até, alguns anos de
cadeia ao autor, além de pesada indenização pecuniária. Nesse
caso, recebe outros nomes (três), de acordo com a sua natureza e
intensidade: injúria, calúnia e difamação. Os tribunais
brasileiros estão abarrotados de processos movidos por pessoas que
se sentem injuriadas, caluniadas e difamadas e que exigem reparação
àquilo que interpretam como “agressões à sua moral e à sua
honra”. E nem sempre são. Enfim...
Há,
finalmente, o oposto. Ou seja, há grandes verdades com toda a
aparência de mentiras. Afinal, como assinala José Américo de
Almeida, “ver bem não é ver tudo: é ver o que os outros não
veem”. E como “se vê”, esse é um assunto não somente para
uma crônica despretensiosa, como esta, mas para todo um tratado, ou
uma extensa coleção de livros, talvez até de milhares de volumes a
respeito.
Só que,
excluindo o fato de servir de provocação para o raciocínio, se
trata de um tema absolutamente inútil, do ponto de vista prático,
pela completa impossibilidade de se chegar a alguma conclusão
inquestionável. Afinal, objetivamente: o que é a verdade? Onde ela
está (quando nos referimos ao homem, logicamente)? O que é mentira?
As respostas, mesmo que não se admita, invariavelmente descambam
para os clichês, quando não para monótonos blá-blá-blás.
Boa
leitura!
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Eu não minto. Pelo menos, intencionalmente não.
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