Os
reis do drama
* Por
Analu Faria
Olho
pro garotinho com uma casca de ferida enorme no joelho e digo: ai,
isso deve doer. "Dói nada, quer ver?" E arranca um
pedacinho da casca, expõe uma pele quase em carne viva, a ferida
sangra. A mãe do garoto me olha com cara de poucos amigos e dá
bronca no filho. Maroto, o menino esconde da mãe um sorrisinho
transgressor, que reserva para mim. Penso que o garoto pode ter
tendências psicopatas, talvez fosse bom uma avaliação
psiquiátrica, psicológica... melhor não ficar perto, vai que ele
tem um canivete, um estilete ou algo assim escondido, meu Deus, eu
posso ser morta por um menininho!
Minha
mãe costumava dizer para os filhos: "Não corram na sala, que
eu tô vendo a hora de vocês racharem a cabeça na quina da mesa",
colocando uma ênfase especial em "racharem a cabeça".
Talvez um "... que vocês vão se machucar" fosse
suficiente. Lembro-me de que, já mais velhos, a frase virou motivo
de piada para mim e meu irmão: "Cuidado que você vai
RACHAAAAAAAR A CABEÇAAAAA na quina da mesa".
Meu
pai nunca deve ter chegado atrasado a qualquer compromisso que tenha
marcado. Isso porque toda vez que íamos viajar, ele chegava umas
duas horas antes no aeroporto ou na rodoviária. Se a viagem era de
carro e saíamos de madrugadinha, ele já começava a acordar com as
galinhas, uma semana antes, "para acostumar". Já melhorou:
hoje ele chega uma hora e meia antes da partida do voo, mesmo já
tendo feito check-in e sem mala para despachar.
Percebe-se
que o drama corre na família. O único que não endrameava as coisas
era meu irmão, mas o garoto também era alto (o resto da família é
de baixinhos) e todo paz e amor (o resto da família é meio
briguento), ou seja, um ponto fora da curva. Se não se parecesse com
meus pais, eu diria que foi trocado na maternidade. Tive a felicidade
de conviver com ele durante 25 curtos anos e sinto sua falta só
quando eu respiro.
Ele
faleceu deixando um rastro de tranquilidade suficiente para que, ao
pensar em seu sorriso, eu aceite com mais compaixão a natureza
hiperbólica dos meus pais e a minha própria. Louvo o exagero desta
minha família de reis do drama quando penso que é essa explosão de
coisas do espírito que me faz pensar no meu irmão como o melhor
irmão de todos os tempos, desde os primórdios da existência até
depois do infinito. É também o que me faz gargalhar, mesmo estando
em público, ao lembrar das piadas que fazíamos sobre nossos pais.
*
Jornalista.
Nenhum comentário:
Postar um comentário