Mundo ininteligível
Não
lhe parece em determinados momentos, amável leitor, que o mundo
enlouqueceu e se transformou num imenso hospício? A mim essa
impressão é constante. Não que me considere melhor do quem quer
que seja, não é isso. Mas confesso que boa parte do que vejo, ouço
e leio foge por completo da minha compreensão. E isso desde que eu
era menininho. Talvez seja efeito da minha educação extremamente
cartesiana, que me fez acostumar a raciocinar sempre com rigorosa
lógica e a esperar que todos raciocinem e (principalmente) ajam da
mesma maneira.
É
provável que me falte certo “jogo de cintura”, um quê de
maleabilidade para não levar as coisas tão a sério. Já fui pior.
Hoje já consigo distinguir com razoável acerto o trágico do
cômico. Já aprendi a rir das situações engraçadas, que não
tenham remédio, mesmo das que protagonizo, mas que caio até no
ridículo quando tento levar a sério, porquanto não vale a pena
remar contra a maré.
Todavia,
não sou o único a pecar por falta de compreensão. Não compreendo
quem sou, de onde vim, para onde vou, o porquê da morte e tantas e
tantas e tantas outras coisas mais. Vários dos meus “amigos”
escritores – tanto os que conheço pessoalmente, quanto os que
jamais irei conhecer, tanto os vivos quanto os que já morreram há
séculos, quando não milênios – manifestaram e manifestam amiúde
essa mesmíssima estupefação face à crescente falta de lógica do
mundo e, notadamente, das pessoas.
Milan
Kundera é um deles. O ilustre escritor checo revela, em trecho do
livro “A imortalidade”, que trago agora em mãos: “Pouco a
pouco o mundo perde sua transparência e torna-se opaco,
ininteligível, precipita-se no desconhecido, enquanto o homem traído
pelo mundo refugia-se em seu foro íntimo, em sua nostalgia, em seus
sonhos, em sua revolta, e, aturdido com a voz dolorosa que emerge de
dentro dele, não sabe mais ouvir as vozes que o interpelam de fora”.
Discordo
dele apenas quando afirma que “pouco a pouco o mundo perde sua
transparência”. Creio que em época alguma chegou a ser
transparente em nenhum momento. Sempre me pareceu opaco, opacocíssimo
(adoro utilizar superlativos e abusar dos adjetivos, ou seja,
utilizar tudo o que os críticos classificam como má literatura. Às
favas com o críticos! Se eles se acham tão bons escritores, que
escrevam melhor do que eu! Mas que não me encham o saco!).
Mas,
voltando ao assunto, considero que o riso seja santo remédio não só
para o que não compreendemos e que nos parece, digamos, “fora de
órbita”, mas principalmente para nossos tormentos e males, os
compreensíveis, claro. A medicina, inclusive, já comprovou sua
eficácia e incorporou-o ao seu arsenal de combate à dor. Já
escrevi sobre isso? Estou sendo repetitivo? E daí?!!! O riso é uma
espécie de válvula de escape de tensões e frustrações. Eleva a
taxa de endorfina no organismo e nos proporciona bem-vinda sensação
de prazer.
Todavia...
Estranhamente, utilizamos pouco esse recurso ao alcance de cada um de
nós. Preferimos nos manter tensos e contraídos, com o cenho
carregado, sisudos e impenetráveis, em vez de abrirmos amplo
sorriso. Se carranca resolvesse nossos problemas, eu faria a cara
mais medonha que já se viu. Entretanto, não resolve. E, pior, não
raro os agrava.
Se
rir já é muito bom, imaginem gargalhar, e espontaneamente É muito
melhor! E, convenhamos, não nos faltam situações, no dia a dia,
propícias a uma boa gargalhada. Reitero que levamos tudo e todos com
seriedade em demasia, esquecidos que a maior parte dos desejos e
aborrecimentos que nos afetam e afligem não passa de grande ilusão.
Victor Hugo chegou a comparar a gargalhada ao sol, “que varre o
inverno do rosto humano”. É como um sopro sutil de uma brisa de
primavera. E, o melhor: está sempre ao nosso alcance, para nos
valermos dela quando quisermos.
O
escritor William Thackeray também assegura, do alto da sua
experiência, o mesmo que Victor Hugo, posto que com outras palavras.
Diz que “uma boa risada é um raio de sol”. Observo, no entanto,
que devemos rir “para” alguém ou “com” ele, e nunca “de”
quem quer que seja. O riso franco e espontâneo desanuvia qualquer
ambiente e coloca todo e qualquer problema na sua devida perspectiva.
É, antes de tudo, manifestação de humanidade. Afinal, queiram ou
não, o homem é o único animal que ri. Não acreditam? Pois bem,
apontem-me outro. Não conseguem, não é? Nunca conseguirão. Não
existe outro.
Mas
neste mundo incompreensível, em que, como em “O alienista”, de
Machado de Assis, os mentalmente sadios estão confinados em
manicômios, nas várias “Casas Verdes” que há por aí, e os
malucos belezas andam à solta com ares de “sapiência”, se
tivermos que rir de alguém, que seja de nós mesmos.
Não
devemos nos levar tão a sério. Embora não percebamos, quando o
fazemos somos ridículos (na verdadeira acepção do termo, ou seja,
“dignos de riso”). Quando conseguirmos rir de nós mesmos, com
franqueza e espontaneidade, estaremos manifestando, sobretudo,
segurança em relação ao que somos ou que fazemos.
O
riso, o bom humor e a alegria são o verdadeiro elixir da eterna
juventude. Sorrir faz bem à saúde e prolonga a vida, conferindo-lhe
luz, paz e qualidade. Portanto, quando se sentir assediado pela
tristeza, preocupação, dúvida ou depressão, não hesite, caro
leitor: sorria!!!! E não tente compreender o mundo. Jamais
conseguirá, mesmo que ache que sim. Irá frustrar-se. Em vez disso,
viva plenamente. Afinal, esta é uma aventura fascinante e única,
que, portanto, não tem reprise.
Boa
leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
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