Chão
de ferro
* Por
Pedro Nava
“COMO
NO DIA DA MINHA CHEGADA, cinco anos antes, no meu embarque para Belo
Horizonte, tive a assistência do Modesto. Levou-me à estação. Eu
ia galgar o nosso Caminho Novo de noturno. Vi desfilarem os
subúrbios, depois a baixada com seu ar de fogo, comecei a subir a
Serra do Mar.
Eu
estava num momento de grande euforia. Vencera uma página da vida,
flutuava dentro dum ar azul entre duas etapas. Pensava que tudo
continuaria em Belo Horizonte e na Faculdade, fácil e doce como
tinha sido naqueles anos de Pedro II entrecortados de férias
paradisíacas. Mal sabia eu o que ia sofrer na Rua da Bahia, no
Bar-do-Ponto, na Praça da Liberdade, na Rua Guaicurus, na Rua
Niquelina, na Lagoinha, Quartel e Serra: o martírio, paixão, morte
e ressurreição do moço mineiro Pedro da Silva Nava ainda
descuidado das lambadas, dos escárnios, das quedas e das sete chagas
de sua Via Dolorosa.
Eu
ia aprender aos poucos, à minha custa, os búfalos nadantes e os
crocodilos; as panteras e toda a casta de bestas-feras. O noturno
subia para Minas Gerais. Passou estações. Parou muito tempo em Juiz
de Fora e fiquei na janela do carro apreciando o Cristo Redentor todo
iluminado. Foi quando dormi na madrugada mineira.
Vi
amanhecer no meu Estado cortado instante a instante pelas curvas do
Paraopeba. A máquina puxava cada vez mais. De repente Brumadinho
surgiu dentro de moitas cheias de gotas d’água dum sereno que o
sol ainda não secara. Se o futuro iluminasse eu compreenderia que
estava chegando ao campo de concentração e aos fornos crematórios
dos meus sonhos de adolescente.
As
estações se sucediam. Fecho do Funil. Treblinka. Birkenau. Sarzedo.
Ibirité. Ibirité. Bergen-Belsen. Auschwitz. Barreiros. Gameleira,
Calafate, Belsen-Belo, Belo Belo Belo Belo. A máquina agora ia
devagar, batendo sino, atravessando a cidade sob um céu rival do céu
da Úmbria.
Belo
Horizonte, Belorizonte, Belorizonte. Desci na estação. Minha Mãe.
Fomos juntos para a Serra. Pisei novamente minha Serra. Sua terra de
ricos pardos começou a me penetrar. Dela respirei. Dela sujei meus
sapatos.
Seu
colorido era tão polpa que enganava não parecia mineral, antes
vegetal. Variava de cores. Tinha do castanheiro, do tojo, do ulmo, da
nogueira, da tília clara e da tuia escura. Entretanto era ferro.
Chão de Ferro.”
Em: Chão
de Ferro: memórias 3,
Pedro Nava, Rio de Janeiro, José Olympio:1976, 2ª edição, p.
273-4
*
Médico e escritor.
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