Verdadeira juventude
A
velhice começa em qual idade? Há não muito, pessoas que mal
passavam da faixa dos 50 anos já eram consideradas “velhas”. E
assumiam-se como tal. Os progressos da medicina, todavia, bem como a
melhor qualidade dos alimentos, da água e dos medicamentos
estenderam bastante esse limite. Há um certo tempo vimos, em
reportagem da ESPN Brasil, um cidadão do Nordeste que, aos 52 anos,
ainda era jogador profissional de futebol.
Romário
encerrou a carreira aos 42. O volante Fernando, do Santo André,
tinha essa mesma idade e ainda defendia o seu time, no Campeonato
Brasileiro da Série A, com fôlego de dar inveja a muito garotão
que atuava nas categorias de base dos clubes.
Hoje,
considera-se que aquilo que se convencionou chamar, eufemisticamente,
de “Terceira Idade”, tem início quase duas décadas depois. Ou
seja, aos 65 anos. E, pelo andar da carruagem, esse teórico limite
da maturidade deverá (logo, logo) ser estendido para 80 ou mais
aniversários.
Escrevi
inúmeras vezes, e reitero aqui, que juventude e velhice não é
questão cronológica, de calendário, mas um estado de espírito.
Não me canso de repetir que conheço inúmeros “velhos” de 18
anos, desanimados, sem perspectiva e buscando a fuga da realidade no
álcool e, não raro, nas drogas, e muitos “jovens” prestes a
atingir a idade centenária.
Exagero?
De forma alguma! Querem um exemplo? Alguém que não conhecesse
Barbosa Lima Sobrinho pessoalmente – que foi por um tempão
presidente da Associação Brasileira de Imprensa – e que lesse,
com atenção e assiduidade, os textos que escrevia aos cem anos
(isso mesmo, em idade centenária) para o Jornal do Brasil do Rio de
Janeiro diria, em sã consciência, que se tratava de um “velho”?
Duvido! Era tamanha a sua lucidez, tão grande o seu entusiasmo, tão
ativa a sua participação na vida do País, que se diria que se
tratava de um moço de 20 anos, se tanto.
E
esse não é um caso único e nem o mais surpreendente. Conheço
inúmeros outros. Meu avô Hilarion Bondaczuk, por exemplo, foi um
desses “jovenzinhos”. Com 98 anos completos, beirando os 99,
veio, sozinho, de Porto Alegre a Campinas, apenas para conhecer
pessoalmente suas novas bisnetas, minhas filhas, que na ocasião
tinham dois e um ano, respectivamente. Minha querida mãe (que Deus a
proteja e a guarde), caminha celeremente para os 93 anos.
Por
isso, está mais do que na hora de se pôr fim a esse estúpido
preconceito em relação às pessoas que já fizeram, por exemplo,
mais do que 65 aniversários. A estupidez desse comportamento
preconceituoso fica mais evidente ainda quando se recorda que todos,
absolutamente todos (a menos que a morte colha alguém antes, na
juventude ou na maturidade, por exemplo), um dia iremos envelhecer. E
as ideias que consolidarmos, a respeito das pessoas idosas, se
voltarão, então, por inteiro, contra nós. Seremos, considerados
inúteis, pesos mortos para a família e a sociedade, com mentalidade
de criança ou de uma pessoa insana, mesmo que não sejamos assim.
Por que? Porque alimentamos, ou ajudamos a alimentar esse
preconceito.
Meu
pai sempre dizia, do alto de sua sabedoria de homem simples, mas
sensato: “Pedrinho (foi assim que sempre me chamou), lembre-se que
você irá dormir na cama que arrumar”. Ou seja, tudo o que
fizermos, de bom ou de ruim, um dia nos produzirá consequências,
boas ou más.
O
pai da psicanálise, Sigmund Freud, em entrevista dada a George
Silvestre Vierek, para “Glimpses of the great”, em 1930,
(reproduzida pelo jornal “Folha de São Paulo”, em 3 de janeiro
de 1998), observou a respeito: “Biologicamente, cada ser vivo, por
mais forte que arda nele o fogo da vida, tende ao nirvana, deseja que
a febre chamada vida chegue ao seu fim. Podemos jogar com a ideia de
que a morte nos alcança porque a desejamos. Talvez pudéssemos
vencer a morte, se não fosse pelo aliado que ela tem dentro de nós.
Assim, poderíamos dizer que toda morte é um suicídio encoberto”.
Ou
seja, nós, subconscientemente, é que abrimos mão da vontade de
viver. Isso, no meu entender, é o que determina a tal da “velhice”.
Pode ocorrer tanto aos dezoito anos, quanto aos cem. Não se trata,
pois, como não me canso de reiterar, de questão cronológica, mas
de “cabeça”.
Aliás,
achei Freud sumamente pessimista nesta entrevista, que oportunamente
prometo abordar, para tratar de outros aspectos que o ilustre
psicanalista também abordou. Nessa questão específica, porém,
concordo plenamente com o que o padre Roque Schneider escreveu: “Ser
jovem é ter os olhos molhados de esperança e adormecer com
problemas, na certeza de que a solução madrugará no dia seguinte”.
E isso nós podemos fazer, se tivermos estrutura espiritual para
tanto, quer aos 16, aos 18 ou aos 20 anos ou quer aos cem.
Boa
leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk