Somos como a lua
O escritor norte-americano
Samuel Clemens – que se celebrizou com o pseudônimo literário de
Mark Twain e se tornou clássico juvenil com seus romances “As
aventuras de Tom Sawyer“, “As aventuras de Hucleberry Finn” e
“O príncipe e o mendigo”, entre outros – afirmou, certa feita:
“Cada um de nós é uma lua e tem um lado escuro que nunca mostra a
ninguém”.
E somos parecidos com o
satélite natural da Terra não somente neste aspecto (posto que de
forma metafórica, claro), mas em tantos outros. Um deles é o que se
refere às fases. A exemplo da lua, também as temos na vida. Umas,
são mais brilhantes, outras bem menos, com a diferença de que, cada
uma delas é definitiva. Tão logo passe, não volta jamais.
Do nascimento ao início da
maturidade, atravessamos a fase da Lua Nova. Somos dotados de vigor e
entusiasmo e partimos para o mundo com ousadia e volúpia, certos de
que nada e ninguém nos deterão na busca e conquista dos nossos
ideais. Nosso brilho, então, é intenso, que se reflete em nossos
olhos, ardentes de paixão: por um amor, por uma causa, por uma
esperança etc.
Claro que me refiro, no caso,
às pessoas positivas, valorosas, vencedoras. Há quem já nasça sob
o estigma dos derrotados. Há quem envelheça precocemente, ou por
equívocos pessoais, ou por educação deficiente ou por força de
inúmeras circunstâncias, muitas das quais escapam ao seu controle.
Há quem sequer justifique o fato de estar no mundo, quem se torne
peso morto para si e parasita para a sociedade. Infeliz de quem
ostenta essa terrível condição! Temo que a maioria da população
mundial se enquadre nela.
Como se trata de metáfora,
posso alterar a ordem das fases da lua ao meu bel-prazer. E é o que
farei. Reitero, porém, para deixar bem claro, que me refiro, nestas
comparações, apenas às pessoas vitoriosas, àquelas que costumo
classificar de “gigantes da espécie”, que não cultivam, e por
isso não acumulam, grilos e nem apostam na infelicidade. São
poucas, eu sei, infelizmente. Todos poderíamos (e deveríamos) ser
assim.
A fase seguinte é a do
Quarto-Crescente. É a da maturidade, quando crescemos física e
espiritualmente (e materialmente, por que não?). Definimos uma
profissão, constituímos família, geramos descendentes, educamo-los
e lhes transmitimos os valores que nos norteiam e mobilizam. Somos
produtivos, respeitados, adorados até (se fizermos por merecer essa
adoração). Aliamos à paixão da juventude a experiência da
maturidade. É quando mostramos ao mundo a que viemos e nos
consolidamos no coração e nas mentes dos nossos contemporâneos.
Mas não conseguimos nunca
alterar o inexorável ciclo da natureza. Chega sempre o momento em
que nossas forças começam a declinar. É a fase do
Quarto-Minguante. A experiência que acumulamos, porém, nos permite
cortar caminhos, descobrir atalhos e nos manter competitivos, posto
que com energias crescentemente minguantes (por paradoxal que essa
expressão pareça). Ou seja, diminuem constantemente, às vezes em
questão de meses, outras de meras semanas, dias ou horas.
Se soubemos cultivar
relacionamentos, porém, se fizemos por merecer, face nossos atos e
realizações, esta fase pode ser das mais agradáveis. Torna-se o
período da colheita do que semeamos, a época em que vemos os filhos
trilharem os caminhos do bem, da justiça e do sucesso sob a nossa
segura orientação, a da chegada dos netos, a do reconhecimento dos
nossos méritos e ações.
Finalmente, entramos na fase
da Lua Cheia. E ela pode ser repleta de gostosas lembranças e de
sublimes recordações. Mas só o será se as soubemos cultivar. É
uma espécie de retorno à infância, sem as responsabilidades que
tínhamos quando meninos, de estudar, aprender, e nos preparar para a
vida. É verdade que nosso corpo dará sinais crescentes de
decadência. Não há como evitar (embora isso possa ser retardado
com hábitos saudáveis e muita prudência).
Mas se tivermos o espírito
forte e se conservarmos o amor pela vida, nada impedirá de
continuarmos sendo úteis, produtivos e imbuídos de fé até nosso
derradeiro suspiro, até nosso último dia sobre a face da Terra, não
importa quando ocorra. A sensação que nos restará, olhando para
trás, fazendo um retrospecto de nossa trajetória, será a de paz,
aquela que acompanha os que têm certeza do dever cumprido. Poderá
ser, também, a de euforia, dos que estão convictos de deixar um
legado indestrutível para as futuras gerações e que, por isso,
gozam do justo júbilo dos vitoriosos.
Voltando a Mark Twain, de fato
todos temos um lado escuro na alma, o qual nos negamos a exibir a
quem quer que seja. Alguns, todavia, por mais que procurem
dissimular, não conseguem. Têm essa “escuridão” moral tão
acentuada, que não a podem esconder, por mais que tentem. Ela
permanece, o tempo todo, estampada em suas faces. Falta-lhes o brilho
da fé, o foco da esperança, a fogo da paixão e a centelha do amor
que ofusquem esse seu lado sombrio das vistas alheias. Estes,
infelizmente, já nasceram com o estigma dos derrotados!
Boa leitura!
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Alguns mostram seu lado escuro de vileza com tamanha convicção, que atingem a plenitude da criminalidade numa lua cheia precoce e deslumbrante. Quando pegos pela lei, continuam mandando no crime de dentro das penitenciárias.
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