Responsabilidade desnecessária
Os
conselhos, quando dão certo e as pessoas que os pediram fazem tudo
direitinho, conforme lhes foi aconselhado, beneficiam, apenas, os que
os recebem. O aconselhador, por sua vez, corre todos riscos
imagináveis, sem que leve qualquer vantagem nisso. Há quem tenha a
mania de aconselhar a torto e a direito, a todo o mundo, conhecidos
ou desconhecidos, sem serem sequer solicitados. Tornam-se chatos,
pedantes, dogmáticos e quem pode os evita.
Claro
que podem estar bem intencionados (geralmente estão), não há
porque se duvidar. Mas de indivíduos com boas intenções “o
inferno está lotadinho”, como bem diz o povão, em sua espontânea,
posto que rude, sabedoria.
Há
quem diga que se conselho fosse bom, as pessoas os venderiam, não
dariam de graça. Não é bem assim. Há momentos na vida em que
carecemos de uma pessoa sensata, experiente, ponderada e que nos
queira bem, que nos oriente em relação a determinados problemas.
Como em qualquer jogo, via de regra, quem está de fora enxerga
melhor. Detecta onde estão as dificuldades e se dispõe a apontar os
caminhos mais adequados para sairmos de algumas enrascadas. Isto,
claro, se elas tiverem saída. Às vezes não têm.
Mesmo
nessas circunstâncias, porém – e supondo que quem aconselha
esteja plenamente habilitado a aconselhar – o aconselhador (ou
conselheiro, como queiram) sempre corre riscos. Por exemplo, quem lhe
pediu orientação pode não seguir rigorosamente o que foi
aconselhado a fazer e se dar mal. Ou seja, pode complicar ainda mais
determinada situação já complicada. O que você acha que ele fará?
Assumirá o erro e arcará com as conseqüências? Raramente.
A
probabilidade maior é que lance toda a culpa do fracasso naquele
que, prestamente, se dispôs a acudi-lo em suas dificuldades. Pode,
inclusive, não apenas hostilizar o nobre conselheiro, como fazer
algo muito pior, dependendo da sua índole.
E
se o conselho der certo? Manifestará gratidão e se tornará mais
íntimo de quem o aconselhou? Dificilmente. A experiência indica que
assumirá todos os méritos por haver saído da enrascada que o
afligia e, provavelmente, esfriará suas relações com quem o
aconselhou, se não rompê-la de vez, o que é mais comum.
Que
vantagem, pois, nós temos em aconselhar alguém, mesmo que se trate
da esposa, do filho, do neto, do amigo ou de outra pessoa qualquer
que prive da nossa irrestrita confiança e, sobretudo, intimidade?
Nenhuma! Rigorosamente nenhuma!
Talvez
(e nem sempre) lhe reste a satisfação íntima de haver feito uma
boa ação para alguém. Na maioria dos casos, nem isso lhe sobra.
Vale a pena, pois, correr tantos riscos por recompensa tão pífia (e
quando ela existe)? Sinceramente, entendo que não!
Claro
que não sou a pessoa mais habilitada a tratar dessa questão. Já
recebi muitos conselhos (alguns excelentes, outros nem tanto),
solicitados ou dados de graça e, em contrapartida, aconselhei muita
gente.
Não
hostilizei, porém, e nem rompi relações com nenhum dos meus
conselheiros, embora muitos o merecessem. Algumas dessas pseudo
orientações (nunca pedidas, por sinal) foram tão ostensivamente
ruins, que as levei na pura brincadeira. Mas também não me lancei
aos pés dos que me aconselharam bem e nem lhes jurei devotar eterna
gratidão.
Quanto
aos conselhos que dei? Bem, arrependo-me profundamente de haver agido
assim, principalmente quando as coisas deram certo. Perdi amigos, que
considerava como irmãos, apenas por lhes haver apontado caminhos
óbvios, que os levaram ao sucesso em muitas das suas empreitadas.
Bem feito! O que eu tinha que me meter na vida alheia.
Hoje,
busco sozinho as saídas para as minhas dificuldades, valendo-me da
experiência que os meus já muitos anos de vida me deram. Às vezes,
complico, é verdade, situações muito simples, mas arco com as
conseqüências. Na maioria das vezes, porém, tenho acertado (ou
quase, sei lá).
Concordo
plenamente com o que Albert Einstein escreveu em um de seus textos a
esse propósito: “Não me agrada aconselhar porque, em todos os
casos, se trata de uma responsabilidade desnecessária”. E não é?!
Pra quê procurar chifre em cabeça de cavalo ou arrumar sarna pra me
coçar?! Sim, pra quê?!!!
Boa
leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Não sou padre, nem psicóloga, mas passei a vida toda aconselhando a pedidos.
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