O
crítico do metrô
* Por
Gustavo do Carmo
O
metrô já não tinha nenhum banco vazio. Mas também não estava
superlotado. Quem se apoiava nas barras de ferro no teto e na coluna
ainda tinha espaço para se movimentar. Idosos e grávidas podiam ter
a sorte de ganhar o lugar de alguém. Eu mesmo cedi o meu para uma
senhora de aparentes setenta anos.
Tenho
o hábito de ler livros em qualquer transporte público para passar o
tempo da viagem. Leio tanto o livro impresso quanto o eletrônico no
tablet e no celular. Justamente neste dia, em que eu desceria no
ponto final, eu não estava com os dois primeiros. Apenas com o
smartphone. Porém, havia dois rapazes de má aparência (um sem
camisa com boné e outro de camisa de basquete com cabelo moicano
descolorido, com fones no ouvido) olhando para mim. Fiquei com medo
deles me assaltarem, pois tem acontecido muitos arrastões nos trens
do metrô.
Tive
que ficar observando as paisagens das estações e os outros
passageiros: a idosa para quem eu dei o meu lugar dormindo de boca
aberta, um outro idoso cantando uma mulata, um casal de namorados
conversando e trocando beijos e abraços, um casal de irmãos
discutindo e um homem de cabelos compridos e cavanhaque grisalhos
lendo um livro. Evitei encarar os dois jovens estranhos.
O
livro que o cinquentão parecido com o empresário Richard Branson
lia era bem familiar: capa listrada em dois tons de vermelho na
vertical com a foto de um microfone e o título do livro em forma de
cruz. Era o meu. Alguém estava lendo o meu romance. E não era
nenhum conhecido. Estava me sentindo realizado.
Tive
vontade de abordá-lo e perguntar se ele estava gostando do livro.
Mas ficaria chato. Preferi desviar o olhar do leitor para não chamar
a sua atenção. Observei a paisagem das janelas, que tinham película
com publicidade no vidro.
Finalmente
um lugar ficou vago e me sentei. Em frente ao senhor que lia o meu
livro. O trem já tinha parado em uma das vinte estações onde eu
iria descer. O idoso assanhado, a senhora que ganhou o meu lugar e o
casal de irmãos já tinham desembarcado. Entraram, agora, um homem
engravatado e uma mulher com um menino de sete anos que não parava
de fazer perguntas. Até irritava. Os mal encarados continuavam no
trem.
Num
dos olhares para os passageiros, sem querer, o leitor do meu romance
me encarava sério. Depois abaixou o rosto para o livro, como se
estivesse conferindo a minha foto na orelha. Voltou a me encarar e
olhar para o livro. Tinha definitivamente me reconhecido.
Estava cara a cara com o próprio autor do livro que lia.
Para
um escritor iniciante como eu, ver alguém lendo o seu livro seria
uma realização. Para o leitor, encontrar acidentalmente o próprio
autor do livro que estava lendo seria muita sorte e uma grande
satisfação. O leitor fechou a cara.
Levantou-se,
veio até o meu banco, sentou-se ao meu lado (o trem já estava meio
vazio) e me abordou, apontando o livro:
—
Foi
você quem escreveu este livro, não foi?
—
Foi
sim. Respondi, num misto de orgulho e timidez. Tomei coragem: —
Quer que eu escreva uma dedicatória.
Ele
sorriu, mas o bobo aqui não percebeu que era um sorriso irônico.
—
Na
verdade eu queria o meu dinheiro de volta.
—
O
quê???
—
Brincadeira.
Eu ganhei esse livro de um amigo.
—
Ah
tá. Fiquei aliviado. — Me empresta que eu o autografo.
—
Não
precisa. Eu não quero autógrafo. Só quero te dizer umas verdades.
Eu sabia que ia te encontrar um dia para despejar toda a minha
insatisfação na sua cara. Esse livro é muito ruim. Infantil. Mal
escrito. Cheio de erros de português. Vocabulário pobre, com muitas
repetições. Pleonasmos. Muito mal pesquisado. Você se diz
jornalista, mas não entende nada da própria profissão. Dos fatos
históricos. Você não tem experiência nenhuma de vida. Não pode
escrever um livro. É um crianção. Vai se preparar melhor, meu
filho! Vai procurar um emprego decente! Vai fazer um concurso
público! Ainda bem que eu não dei um tostão nessa merda! Se eu
pudesse, mandava proibir a venda desse livro.
Cabisbaixo
de vergonha, sem perceber que já estava sendo observado pelos outros
passageiros, alguns com pena e a maioria rindo da minha cara,
estava com a voz embargada quando lhe respondi:
—
Eu
já pedi para retirá-lo do mercado. Não precisa fazer isso. Esse
foi o meu primeiro livro. Escrevi outro de contos e tenho um blog na
internet também.
—
Que
também são uma merda! Pesquisei o seu nome na internet. E li tudo o
que você escreveu. São todos uma porcaria! Uma babaquice!
O
"Richard Branson" jogou o livro violentamente na minha cara
e foi embora. Não deu tempo de reagir e lhe dizer que eu não tive a
sorte de encontrar bons revisores e um editor que editasse o livro de
verdade, podendo até reescrever a história. Além das palavras me
faltarem, não iria adiantar. Eu estava errado mesmo.
Fiquei
quieto com a minha humilhação. Ouvindo apenas o garoto chato
rir da minha cara e ser repreendido pela mãe, de algumas idosas me
olharem com pena e de um grupo de estudantes universitárias
cochichando sobre mim, algo sobre eu ser um retardado. O crítico do
metrô tinha condenado o meu livro em alto e bom som, para que todos
os passageiros, pelo menos no vagão onde eu estava, pudessem ouvir.
Já
chorando em silêncio, limpando as lágrimas com os meus olhos,
levantei-me para desembarcar. Chutei o livro pra longe antes de
saltar do trem. Caminhando na estação, ainda com a cabeça baixa de
tanta vergonha, fui seguido pelos dois jovens mal encarados, que me
alcançaram.
Um
deles, o sem camisa, deu um tapinha nas minhas costas e disse,
carregado de gírias:
—
Fica
assim não, meu amigo. Tem mano que é o maior caô. Só sabe
humilhar os outros.
—
Mó
playba esse cara aí. Acha que só porque é rico se acha no direito
de detonar todo mundo. E tu também, porque eu senti que tu ficou com
medo da gente. Completou o de cabelo pintado.
—
Desculpa.
—
Tá
desculpado, mano!
O
sem camisa perguntou:
—
Posso
ficar com o livro? Eu peguei o que você jogou lá no trem. Ih tem
uma dedicatória sua aqui. Não deve ser pra ele, pois você escreveu
para uma mulher: “Para Adriana, com carinho. Boa leitura”.
—
Pode.
—
Posso
ficar com o teu celular também? Isso é um assalto. Anunciou o de
camisa de basquete, já apertando uma pistola prateada e fria contra
a minha costela.
*
Jornalista e publicitário de formação e escritor de coração.
Publicou o romance “Notícias que Marcam” pela Giz Editorial (de
São Paulo-SP) e a coletânea “Indecisos - Entre outros contos”.
Bookess
- http://www.bookess.com/read/4103-indecisos-entre-outros-contos/ e
PerSe
-http://www.perse.com.br/novoprojetoperse/WF2_BookDetails.aspx?filesFolder=N1383616386310
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