Devaneios otimistas de um
pessimista inveterado
* Por
Fernando Mariz Masagão
Este
texto começa como uma tentativa frustrada, eu sei. Vou tentar algo
que me é impossível: escrever alguma coisa otimista. Para vocês
terem uma ideia do grau de dificuldade da tarefa que eu estou me
impondo, começo já com a certeza de que não vou conseguir. Sou um
pessimista por formação, convicção e conformação (genética).
Mas ando recebendo apelos e mais apelos para parar de ser tão
reclaminha. O Zé Paulo Lanyi vive me dizendo “Fernando, já deu no
saco esse papo de dor, de vontade de morrer, de amarga decepção
para com os homens e a existência. Todo mundo já sabe que a vida é
uma merda.” Já a Mariella Augusta diz que esta insistência nas
minhas ladainhas se deve ao fato de eu ser um escritor neófito. “É,
escrever sobre a morte, sobre a falta de sentido da vida, é coisa de
cabaço, de quem não tem pegada. Mas isso passa.”
Confesso
que não os escutei e, a princípio, ignorei o conselho dos dois –
mesmo admirando a pujança do talento literário de ambos. Meus
botões me garantiam que minha angústia era interessantíssima para
os leitores do Literário,
e assim, perseverei choramingando meu espanto para com Deus de todo o
jeito que encontrei.
Mas
as reclamações não cessaram – nem as minhas, nem as do povo. E
comecei a receber cartas e mais cartas de todas as partes do planeta.
Numa delas nosso imortal, Paulo Coelho, asseverava que lá na
Academia eu não poria os pés se continuasse daquele jeito. E junto
com a missiva vinha anexado um abaixo-assinado, subscrito por todos
os outros imortais, instando para que eu adotasse uma postura mais
Poliana em relação à literatura. Afinal, tristes e melancólicos
os séculos passados já haviam parido em grande quantidade e com o
talento para o nhé-nhé-nhé infinitamente superior ao meu.
Minha
caixa de e-mail ficou congestionada. Recebi uma mensagem eletrônica
psicografada de uma menininha de onze anos que havia morrido
carbonizada num incêndio, mas que me garantia que morrer era o maior
barato. “É só o senhor esperar para ver. É meio estranho na
hora, mas é cheio de gente bacana aqui no além.” E terminava
enfática: “Deixe de churumelas”.
Meus
vizinhos e colegas de trabalho passaram a evitar minha companhia. Meu
pai me deserdou porque minha mãe não pára de chorar, inconsolável,
clamando aos céus, “onde foi que eu errei, meu deus, onde foi que
eu errei!” noite e dia. Cheguei mesmo a apanhar de uma velhinha na
rua. Choveram guarda-chuvadas na minha cabeça triste. Doía mais
nela do que em mim, garantia, “mas aquilo era necessário para ver
se eu tomava jeito”, me explicou, depois, docemente.
Para
você terem uma ideia em que pé eu caceteei a todos, na semana
passada acordei com a cabeça do meu cavalo de raça empapando de
espesso sangue os lençóis de minha cama. E pra piorar tudo, de
noite, Fidel Castro ligou a cobrar e passou doze horas me explicando
que eu não passava de um burguês alienado. “Como era possível eu
reclamar tanto de tudo vivendo num país governado pelo Lula. Será
que eu não tinha vergonha na cara, etc, etc, etc, etc, etc, etc,
etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc,
etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc,
etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc,
etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc,
etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc,
etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc,
etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc,
etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc,
etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc, etc,
etc, etc, etc, etc...”
Mas
só tomei a peito a tarefa hercúlea de escrever algo otimista depois
que Nicole Kidman ameaçou acabar com nosso romance. “Eu não me
separei do Tom para você ficar fazendo papel de babaca em público”,
dizia furiosa. “Não fica bem num homem tão bonito e tão bom de
cama esse ar de Werther sem Prozac”. Pois é, meus amigos de
comiseração, foi a gota d’água. E assim, ante a possibilidade de
perder uma de minhas amantes, me lancei em direção ao abismo do
otimismo. Claro, ainda relutei em noites insones, refletindo que o
que estava me sendo pedido era a certeza de mais uma frustração. “O
que é que essa gente quer, porra! Que eu me foda de vez!? Será
possível que só o Paulo Ludmer aprecie meus textos?”,
desesperava.
A
filosofia do pessimismo sempre fora minha muleta metafísica. “Se
der errado, não foi por falta de aviso. Se der certo, que bom, eu
estava errado.” Eis a lógica do pessimismo. Não tenho nenhum
problema em estar errado. Já me acostumei. Aliás, não é preciso
nenhum esforço para saber que a autoestima dos pessimistas apanha
mais do que o Sport Club Corinthians Paulista. As perspectivas de
dentro do seio do pessimismo são as mais acalentadoras e
promissoras. Nada mais otimista que o pessimismo.
Mas
ante a possibilidade de perder Nicole; ante a possibilidade de perder
o carinho de meus amigos e familiares; ante a possibilidade de perder
o respeito de meus contemporâneos e, quiçá, da posteridade,
resolvi empreender este texto que, por si só, já é um libelo do
otimismo. Há metalinguagem nele, reparem.
Todavia,
vou ter que parar por aqui. Nem percebi como começou, foi tudo muito
rápido. Mas a escada dos bombeiros já alcançou o meu andar e se eu
me demorar mais, escrevendo, vou acabar fazendo companhia à
menininha de 11 anos e seus amigos tão bacanas.
(*)
Fernando Mariz Masagão é músico, dramaturgo, poeta e colaborador
de publicações online sobre arte, com crônicas e críticas
musicais. Guitarrista e vocalista de bandas de rock'n'roll, tem
formação clássica vigorosa, em cursos de regência sinfônica,
apreciação musical e instrumentação.
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