A
essência do mundo
* Por Pedro J. Bondaczuk
Destaco, hoje (de novo), o
poeta mineiro que, no meu entender, não teve o sucesso que merecia
pela excelência da sua obra. Embora seus poemas devessem constar,
pelos seus méritos literários, nas melhores antologias poéticas
(senão em todas), é conhecido, somente, num círculo bastante
restrito de artistas e de intelectuais. Trata-se de Ruy Apocalypse,
autor, entre outros, dos livros “Crônicas da Noite” (Massao Ohno
Editora, 1960), “Papoula dos Sete Reinos” e “Realejo de Minas”.
Nascido na cidade de Ouro
Fino em 2 de agosto de 1934 (cidade natal do meu querido e saudoso
amigo Maurício de Moraes, que brilhou na Literatura e no jornalismo,
sobretudo em Campinas, onde foi meu companheiro de Academia
Campinense de Letras), o talentoso escritor viveu pouco. Cometeu
suicídio, em 4 de março de 1967, jogando-se debaixo de um ônibus
na cidade de São Paulo. Por que? Vá se saber! Ruy Apocalypse,
destaque-se, é citado pelo escritor Edir Araujo em seu excelente
romance “A passagem dos cometas”.
As metáforas de que o
poeta mineiro se utiliza são originalíssimas e muito bem colocadas.
Seus poemas caracterizam-se, sobretudo, pelo ritmo, pela musicalidade
latente, pela espontaneidade. É difícil destacar qualquer deles,
dos seus três livros mais conhecidos, pois todos têm qualidade
superior. No entanto, em nenhuma seleção da sua obra, este “Crônica
V – Do Criador e Suas Raízes”, pode ficar de fora. Entendam o
por quê:
“Nesta
argila, plasmada no silêncio,
formei teu
braço esquerdo, de mentiras.
Das árvores,
roubei os galhos mansos
para cobrir
teu corpo e tuas iras.
Mulher, além
do sal, além do espelho,
és. E rios te
cortam. E, nas águas,
há braços de
mil náufragos brilhando,
como espadas
tebanas! Como espadas!
O rio que te
clama, fez-te fonte,
o espelho que
te adora fez-te lua.
Para cobrir
teu rosto (céu das iras)
eu me deixo
ficar, no teu enigma,
como um
pastor, dormindo sobre o monte,
sonhado pelo
azul, em sons de lira”.
Diante dessa fonte de
ternuras, de onde jorra tamanha emoção, não se pode deixar de dar
razão, por exemplo, à escritora Edith Sitwell quando afirma: “Como
Moisés, o poeta vê Deus na sarça ardente, quando o olho físico,
míope ou mal aberto, só vê um jardineiro queimando folhas”. E
vislumbra mais, muito mais do que isso. Vê a essência das coisas.
Percebe o que há de perpétuo no aparentemente efêmero e banal. Seu
talento vale-se de um filtro mágico que extrai beleza do que é,
aparentemente, disforme, feio, horrendo. Onde todos veem, apenas, uma
poça de água suja, vislumbra o firmamento, a lua e as estrelas.
Outro poema de Apocalypse
que me impressionou bastante é este “Crônica VIII – Da
Transfiguração Necessária”. Compartilho-o com prazer, com o
leitor de bom gosto:
“Que as
horas chorem fora das vidraças,
construindo
seus musgos sobre os mastros
de velhos
casarios alumbrados
e derradeiras
praças penitentes.
Que os bairros
mais burgueses alinhavem
suas rendas de
chá, em velhas xícaras.
Que o sono
seja grande e seja amargo
aos que amaram
o amor, perdendo a sorte...
para que tudo
nasça das ideias
que os ventos
espalharam nas migalhas
de luzes e de
carnes assombradas.
Do amanhã,
outras vozes serão vindas;
e do agora,
outros céus serão nascidos,
além do olhar
das lâmpadas caídas”.
Ruy Apocalypse comprova,
como afirmei, que o poeta não tem o mínimo pudor em desnudar seus
sentimentos e emoções em público, neste magnífico poema “Costas
de meu ser”:
surgir em meio a dor, nuzinho em pelo.
Hoje, curvado venho ao que eu espero
achar dentro do corpo, para crê-lo.
Rasguei os envelopes. Fui sincero.
Perdi os compromissos, mais o selo
da carta do que sou, no que me gero,
cada noite sem ar, pelo degelo.
Pouco me leio. Pouco me carteio.
Com o que fui por culpa de meus muros.
Perdi-me sem resposta nos escuros.
Em mim eu pouco estou. Tenho receio
de chegar a meus quartos e de ler
linha por linha, as costas de meu ser".
Interessantes, também, são
seus versos curtos, quase aforismos, repletos de lirismo e de beleza,
como este poema “Taça da manhã”:
Na garrafa das árvores
--- Há borbulhas de aves
na taça da manhã".
Ou como este “Rodas do sol”:
"Velocípedes vermelhos
pedalam, pedalam,
com as rodas do sol".
Ou como este “Cordas de luz”:
"E na sanfona do dia,
crianças sonoras
pulam cordas de luz!"
Dele,
o consagrado poeta paulista Paulo Bonfim, disse que “lembrava um
albatroz: estava destinado a voos mais altos” pelo magnífico
talento que demonstrava possuir. Classificou-o, inclusive, de
“possesso de magia”. Presumo que, se não partisse tão cedo da
vida, no auge da angústia, voaria alto, muito alto, altíssimo,
perto das estrelas. Talento para isso não lhe faltava. Integraria,
fácil, fácil, o panteão nacional dos luminares da poesia, a que
fez jus nos seus escassos 33 anos de vida, ao lado de Carlos Drummond
de Andrade, Manuel Bandeira, Mário Quintana, Cecília Meirelles,
Vinícius de Morais, Cora Coralina, Maurício de Moraes e tantos e
tantos outros “amigos das musas”. Sem esquecer, claro, o
magnífico Paulo Bonfim, a quem Ruy Apocalypse tanto impressionou.
Se depender de mim, portanto, o poeta ourofinense jamais será
esquecido. Não merece ser!
*
Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de
Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do
Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções,
foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no
Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios
políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance
Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas),
“Antologia” – maio de 1991 a maio de 1996. Publicações da
Academia Campinense de Letras nº 49 (edição comemorativa do 40º
aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio
de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53,
página 54. Blog “O Escrevinhador” –
http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk
Tocante.
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