Só
uma resposta
* Por
Eduardo Carvalho
No começo,
foi só o silêncio.
O terapeuta
já estava acostumado. O primeiro encontro é feito de expectativas,
mas além delas, o cliente precisa sentir que pode falar, se expor
com segurança e para isso não tem regra ou método. Intimidade que
na vida real leva muito tempo, se constrói em minutos.
Depois de
um breve suspiro, o homem começou a falar sobre sua vida. Da
infância sem sustos em uma família que, como todas as outras,
atravessava boas e más fases que nada impediram que ele e a irmã
pudessem chegar à idade adulta. Falou como conheceu sua esposa, da
dificuldade de terminar a faculdade e do emprego onde estava desde
sempre, agora, como nunca, cheio de perspectivas. Viagens ao exterior
pela empresa, cargo de chefia e, quem sabe um dia, tornar-se um
diretor.
Em casa, o
casamento estava indo muito bem com o filho de três anos que
surpreendia a cada dia com suas descobertas e da lógica de
pensamento que só as crianças podem ter.
Silêncio.
De repente,
uma dor de garganta que não passava. Médicos comuns, receitas
comuns. Passado um tempo, uma investigação mais profunda encontra
nódulos e uma doença comum, que só de dizer o nome dá medo, em
uma manifestação rara.
Em um dia,
tudo desaba; sonhos, medo de deixar de existir quando a vida parecia
sorrir todos os dias.
O médico
das más notícias disse que ele não deveria deixar de acreditar.
Mal prognóstico. Sem olhar nos olhos disse que ele poderia ter vinte
por cento de chance e que o tratamento precisava começar
imediatamente.
Enquanto o
médico falava ele só conseguia sentir saudade da esposa, do filho e
dos pais. Como dizer para mãe, para a esposa? Imaginar não ver o
filho crescer lhe tirava o ar.
As
lágrimas, represadas pela coragem masculina finalmente encontraram
um porto seguro. Soluçava em desespero.
O terapeuta
sustentava o olhar. Era o que podia fazer. Todos os livros que lera
viraram em nada diante da vida real, como ele já sabia, faz tempo.
Quando a
emoção lavou o que podia, um novo suspiro.
– Meu
amigo me disse que você poderia me ajudar. Eu só queria entender.
Silêncio.
Precisamos
de respostas. Elas são uma espécie de consolo, afinal, tudo precisa
ter uma razão! O problema é justamente esse; muitas vezes não
existe uma razão. Nossa imaginação busca onde pode preencher os
espaços vazios da compreensão como uma forma de encontrar alguma
justiça ou justificativa. Palavras que não começam iguais por
coincidência.
O terapeuta
moveu lentamente a cabeça.
– Não
tem como entender, não é? Nunca fumei. Não tem sentido!
Choro.
Comentou
que o filho não queria mais ir para a escola. Dizia que queria ficar
em casa com pai, apesar de nunca falarem do assunto na presença
dele. Nunca se engana uma criança e é fácil de entender o motivo:
se para ela não existe passado e muito menos futuro, toda sua
percepção se concentra no que está acontecendo. A professora,
informada da situação, relata que o filho já não brincava e
mostrava abatimento.
A esposa
apenas dizia que tudo isso era um pesadelo que iria terminar. Como
uma pessoa boa passaria por isso? A mãe sofria silenciosamente e o
pai estava ao lado nas sessões de quimioterapia, mas não conseguia
falar. Nos olhos, o medo do absurdo que devasta a razão.
Em duas
semanas tudo estava desabando e o tratamento intensivo já mostrava
suas marcas.
– Agarre-se
a seus vinte por cento. O mesmo absurdo pode ser a sua chance.
Disse-lhe o terapeuta.
– E se os
oitenta vencerem?
– Você
fez sua parte. O que contarão a seu filho é que você lutou, fez o
que pode. Se em algum momento da vida, ele superar dificuldades
baseado na sua luta, pode ser que tudo isso ganhe o sentido que você
procura. Mesmo não sendo uma garantia de nada, é como pode dar
certo. O mistério da vida é não ter lógica.
– Mas e o
motivo, tem algum para isso estar acontecendo?
– Não
tem, é o que nos diz a razão. O resto nós nunca saberemos. Pode
ser só o que sabemos; uma doença infelizmente comum em uma
manifestação rara.
Olhando
para o chão ele parecia absorver essa resposta. De algum modo o
acaso o absolvia.
– Isso me
dá um alívio, de certa forma. Pode não ter mesmo um motivo.
O terapeuta
demorou alguns segundos para responder:
– Carregamos
culpa demais. É assim que se mantêm as pessoas sob controle. Faça
o que deve ser feito, use sua força e fé. Se às vezes não existe
uma razão, porque não usar o que está fora dela? Lute por cada dia
a mais. Os milagres sempre são feitos por nós, no final.
– Só
sinto saudade. Saudade de quem vejo todo o dia, tenho saudade até de
mim.
Choro.
Silêncio.
Quando se
despediram, um aperto de mão. Nos olhos uma leveza de quem pode
falar, só falar. O homem que procurava respostas e o que não as
tinha apertaram as mãos.
– Interessante,
vim procurá-lo atrás de entender. Você não tinha a resposta, mas
de alguma forma estou melhor. Obrigado por não responder, talvez se
me dissesse alguma coisa que eu precisasse acreditar, poderia
aumentar minha angústia. Como saber se sua teoria era a certa? Ser
simplesmente como é, foi a melhor resposta que encontrei.
Do aperto
de mão, veio um abraço, rejeitado pelos manuais. Bobagens que não
respeitam o que acontece em um encontro, na vida.
Um sorriso
mútuo encerrou esse único encontro, que mudou os dois, cada um a
seu jeito.
Quando
a porta abriu, o próximo cliente já esperava.
O terapeuta
tinha alguns minutos. Molhou o rosto enquanto imaginava a dor sem
sentido.
Ao olhar-se
no espelho, pensou em perguntar para a imagem refletida: Por quê?
*
Parapsicólogo clínico
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