Defesa da espécie
É
muito controversa a questão do pessimismo. Ouço, amiúde, por aí,
dizerem que o pessimista é o otimista bem informado. Discordo. É,
isto sim, alguém bastante parcial no julgamento da vida e dos
acontecimentos. Enxerga apenas um lado da questão, o negativo, sem
atentar para o outro, o positivo, em muito maior quantidade.
Além
disso, sua visão parcial e amarga é influenciada pelos hormônios,
em detrimento dos neurônios. O pessimismo, como diz o escritor
francês Èmile-Auguste Chartier (que assinava seus textos com o
pseudônimo de Alain), é humor. Já o otimismo, no seu entender, é
vontade. Concordo.
O
otimista é como é porque quer ser assim. Deseja que as coisas boas
lhe aconteçam e essas, de fato, acabam por ocorrer. Vislumbra os
dois lados da vida e dos acontecimentos e opta pelo de maior
quantidade, relevando o de menor. Todavia “age” para que as
coisas aconteçam e não se limita, apenas, a querer isso. Ademais, o
pessimista é uma espécie de ave de mau-agouro, que envenena a fé,
a esperança e a alegria dos que o cercam.
E
o que fazer, então, com ele? Descartar esse indivíduo, como se
fosse um robô com defeito? Excluí-lo, liminarmente, da sociedade,
não importa por qual meio? Isso só alimentaria, ainda mais, o
pessimismo dos que o cercam e produziria novos pessimistas. Devemos,
isso sim, tentar convencê-lo, orientá-lo e curá-lo, se for preciso
(não raro, as pessoas sumamente pessimistas são vítimas de
depressão).
Há
pessoas que temem, obsessivamente, a morte (a rigor, todos a
tememos), mas não atentam para algo tão terrível (se não pior),
que é a “insuficiência de vida”. Vivem de uma forma que é como
se já estivessem mortas, embora andem, falem, comam, bebam, durmam
etc. Omitem-se do mundo, refugiam-se numa indevassável concha de
solidão e temem tudo e todos, sem usufruir, plenamente, dessa
maravilhosa aventura que têm o privilégio de encarar por um tempo
que desconhecem.
Fogem
dos prazeres sadios, como se fossem pecaminosos. Parecem se comprazer
no sofrimento, por acharem que devam, com isso, expiar algum pecado
original. Abrem mão da alegria, da beleza, das satisfações e dos
encantos, aterrorizadas diante do inevitável. Morrem aos poucos, dia
a dia, sem que se apercebam. Com isso, jogam suas vidas, que poderiam
ser exemplares, no lixo, como algo inútil. Bertholt Brecht
recomenda, em um de seus poemas: “Temam menos a morte e mais a vida
insuficiente”.
O
que fazer com essas pessoas? Deixar que continuem no seu inferno
particular e que morram à míngua? Claro que não! Agir assim
significaria cometer o imperdoável pecado da omissão. Ademais, todo
ser humano, por mais inútil que pareça, é importante. Existem
pessoas menos valiosas do que outras, cuja morte não nos faria
falta? É lícito tomarmos em nossas mãos o terrível poder de
decidir quem deve viver, quem não?
Há
situações extremas em que alguns têm que tomar essa monstruosa
decisão. Por exemplo, em hospitais superlotados, médicos têm que
decidir quem vão tratar e salvar suas vidas e quem deixarão morrer,
por falta de recursos para atender a todos. Nos campos de batalha
isso ainda é mais comum. Da minha parte, confesso, que jamais
tomaria essa terrível decisão.
Amiúde,
protestamos, até sob risco de prisão e de outros tipos de
repressão, contra a extinção de algumas espécies, seriamente
ameaçadas de desaparecer da face da Terra. Estão, neste caso,
várias famílias de baleias, o tigre asiático, o elefante africano
e muitos e muitos outros seres vivos, em virtude da ação predatória
do homem. É errada essa atitude? Claro que não! Quem age assim
defende, sobretudo, a vida.
Mas
das várias espécies ameaçadas, nenhuma corre maior risco de
extinção do que a humana. Os indícios estão aí para qualquer um
ver e ninguém toma qualquer providência concreta para deter e
evitar a deterioração do meio-ambiente. Ademais, o preconceito, um
dos piores, se não o pior veneno social, leva multidões a
discriminarem povos inteiros, achando que seu desaparecimento não
faria falta a ninguém. Equivocam-se os que pensam assim (que são
muitíssimos, embora jamais admitam).
A
antropóloga Margaret Mead fez a seguinte advertência a respeito
desse comportamento preconceituoso, absurdo e doentio, e no entanto
tão comum: “Se não formos capazes de defender todas as pessoas,
não seremos capazes de defender nada. É como na discussão sobre a
triagem – o processo de seleção dos feridos de guerra que devem
ou não ser abandonados. Se dizemos ‘nada podemos fazer pelos
índios, eles que morram de fome’, acabaremos dizendo ‘nada
podemos fazer pelas pessoas de Massachusetts ou da Califórnia’. O
que um país faz com a parcela menos importante de sua população,
ele acabará fazendo um dia com toda sua população”.
Corremos
ou não corremos, portanto, riscos, infelizmente iminentes, de
extinção? Qual espécie exige mais atenção para assegurar a
sobrevivência? A resposta, paciente leitor, tem que brotar apenas do
seu coração, mas com o indispensável auxílio da inteligência,
claro.
Boa
leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Valorizamos nossa vida e não a queremos perder, então é preciso valorizar a de todos, igualmente.
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