Recolhendo
os passos na casa bem-assombrada
* Por
José Ribamar Bessa Freire
“Hay
seres con el privilegio sobrenatural de volver a los sitios de sus
afectos.
(...)
Se dice entonces que esa persona está “recogiendo sus pasos”.
(Garcia
Márquez – Las últimas horas de Jaime Bateman – 1983)
Rincão
das Jaboticabas, no vale da Maria Comprida, na Serra das Araras, onde
fui escondido durante uns quinze dias, em 1967, para fugir da
polícia. Nunca mais havia voltado lá. Retorno agora, meio século
depois, para conferir as lembranças, numa operação que no Caribe –
nos diz Garcia Márquez – é denominada de “recoger
sus pasos”,
quando o velho, antes ou até mesmo depois de morrer, regressa aos
lugares de suas querenças, catando vozes, suspiros, cheiros, risos e
queixumes, imagens e cenas que por lá ficaram. Recompõe assim suas
mais íntimas recordações. Conto aqui os passos que foram dados e
como foram recolhidas as marcas no chão. Foi assim.
Os
passos dados
Policiais
do DOPS andaram me buscando, em dezembro de 1967, na redação do
jornal O
SOL,
na rua Tenente Possolo, por entrevista feita com o ex-governador da
Guanabara, Carlos Lacerda – “o Corvo” – um dos articuladores
civis do golpe de 1964. Ele queria obcecadamente ser presidente da
República e, quando os generais lhe deram uma rasteira suprimindo a
eleição direta, passou a fazer oposição à ditadura. Criou,
então, a Frente Ampla e buscou aliança com os dois ex-presidentes
cujas vidas infernizara: Jango, exilado no Uruguai, e Juscelino, em
Lisboa.
A
entrevista foi feita por acaso. Eu tinha 20 anos, era um obscuro foca
de um diário que inicialmente saía como encarte do Jornal
dos Sports.
Fui escalado em pleno período natalino para cobrir a noite de
autógrafos do livro “Recordações de um Desterrado” do diretor
da Tribuna
da Imprensa,
Hélio Fernandes, que ficara um mês preso na ilha Fernando de
Noronha, por publicar artigos contra a ditadura. Dispensaram-me de
voltar ao jornal naquela noite de segunda-feira, porque a edição de
terça já estava praticamente fechada, a matéria só seria
publicada na quarta.
Eis
que, de repente, chega na Livraria Eldorado, que estava entupida de
gente, ELE, Carlos Lacerda, ovacionado ali como “o futuro
presidente da República” pelas “candocas”, as senhoras da
CAMDE – Campanha da Mulher pela Democracia, que eram as
“paneleiras” da época. No meio do burburinho, arranquei uma
entrevista exclusiva. Lacerda, que abicorava o Palácio do Planalto,
em postura inusitada para alguém cúmplice e subserviente ao
imperialismo dos Estados Unidos, disparou a metralhadora giratória e
mandou bala como se estivesse no palanque de um comício que a
ditadura não permitia realizar:
- “Quero
derrubar o regime fascista do Brasil, porque ele está podre e não
aguenta dois anos. A baioneta e o dólar que o sustentam também
cairão”.
Corri
eufórico para a redação. Os editores Ana Arruda e Reynaldo Jardim
decidiram interromper a impressão do jornal e encaixar na primeira
página todo o texto da entrevista, o que não era usual. “VOU
DERRUBAR ÊSSE GOVÊRNO” – berrou a manchete com dois
circunflexos hoje dispensáveis. Como a matéria foi assinada, a
polícia me procurou no dia seguinte “para averiguações”.
Amigos recomendaram que eu me escafedesse por um tempo.
Eu
me escafedi. O meu cafofo foi o sítio da família da Núria, uma
querida amiga da faculdade, com quem compartilhava sonhos alados. Seu
pai, o renomado médico e psicólogo Emilio Mira y Lopez, ex-chefe
dos serviços psiquiátricos do Exército Republicano Espanhol,
falecera três anos antes. Quem organizou minha estadia foi a mãe,
dona Alice Madeleine, enfermeira uruguaia. Quando desci a serra duas
semanas depois, estava desempregado: O
SOL entrara
em ocaso. Foi fechado. A baioneta e o dólar permaneciam firmes e
fortes, quem caiu em seguida foi o próprio Lacerda, cujos direitos
políticos foram suspensos por dez anos, com a Frente Ampla
definitivamente proscrita. Morreu politicamente com o veneno que
ministrou a outros.
As
marcas no chão
Cinco
décadas depois. Reencontro Emílio, irmão caçula de Núria, agora
médico formado pela UFRJ, que trabalhava como clínico geral no
Hospital da Lagoa. Retrocedemos a 1967, quando lutávamos contra os
acordos MEC-USAID, que pretendiam privatizar a escola pública e
instituir o ensino pago. Numa passeata, a irmã de Emílio teve a
perna ferida por estilhaços de bomba da polícia. Ele ainda
secundarista e líder do Grêmio do Colégio de Aplicação da UFRJ,
em companhia do seu amigo Agenor, retornou para recuperar meus
óculos, que perdi na correria, ficando como cego em tiroteio. Esse
seu gesto solidário ligou para sempre as nossas lembranças.
Na
continuação da nossa conversa, cada um foi recolhendo os próprios
passos. Emílio preso durante 42 dias, em 1971, no Quartel da Barão
de Mesquita, acusado de militar no MURD – Movimento Universitário
de Resistência à Ditadura. A faculdade, a formatura, em 1974, na
qual foi o orador, a residência médica, o Hospital-Escola São
Francisco de Assis, os cursos na Califórnia, a acupuntura, a
medicina chinesa, a irmã migrando para o Paraná, as mortes de sua
mãe e de Rafael, seu irmão. Da minha parte, resumi andanças por
vários países, o exílio, o retorno, a prisão, as amizades, os
amores, a vida acadêmica, os alunos, os índios, especialmente os
guarani, as três netas.
Caminhamos
por uma estrada de 50 anos quilometrada pelo tempo, até chegarmos ao
pedágio do “Fora Temer” e à encruzilhada do “Viva a Uerj”,
onde agora nos encontramos. Soube, então, que o Rincão das
Jaboticabas continua com a família, sob os cuidados do Emílio. Não
resisti ao convite para revisitá-lo. Fui. Subi a serra com o coração
aos pulos, levando por precaução, como escudo, duas netas na visita
àquela casa bem-assombrada, onde íamos passar três dias.
Na
lembrança, depois de tanto tempo, o que ficou da casa, além da
supimpa geleia caseira de jaboticaba, foi a imagem da biblioteca
construída com pinho de Riga, tendo ao fundo uma lareira. Foi lá
onde eu me encafifei em 1967. De lá só saía para a cozinha na hora
das refeições compartilhadas com o caseiro e para o quarto de
dormir. Passava o dia ouvindo MPB e especialmente músicas da guerra
civil espanhola, e lendo Garcia Lorca, Alberti, Antônio
Machado, cercado por fotos de dona Alice e do velho Emilio, que me
olhava através das fotos e que ali estava – agora eu sei –
recolhendo ele também seus próprios passos.
A
casa da minha lembrança era uma, era aquela que abrigou o CPC da
UNE, quando o velho Emílio era vivo e aonde Vianinha escreveu grande
parte de sua peça “Rasga Coração”. E a outra, a atual, a que
encontrei? Ainda continuam lá os mesmos livros, que migrarão
brevemente para a biblioteca da Uerj. As fotos também, assim como a
mesa usada por Vianinha. Mas cadê os discos de vinil? O tempo, esse
gato guloso, comeu. Posso jurar, no entanto, que de noite, enquanto
minhas netas dormiam, eu ouvi o ranger das tábuas do piso do
corredor, por onde caminhavam Sidney Miller e Nara Leão entoando "A
estrada e o violeiro" e Carmela, a atriz de teatro que enfrentou
os fascistas, cantando com o punho levantado:
- El
Ejército del Ebro
rumba,
la rumba la rumbabá
una
noche el rio pasó
ay
Carmela, ay Carmela
Y
a las tropas invasoras
rumba,
la rumba la rumbabá
buena
paliza les dió, ay Carmela, ay Carmela.
A
música nos ensina que “nada
pueden bombas donde sobra corazón”.
Na busca de rastros antigos, acabei ensaiando novos passos, que
deixaram marcas recentes. Lá ficam, agora, as pegadas das minhas
netas. A companhia delas me permitiu ver o que a memória apagara: a
vida fluindo, um jardim ensolarado com muitas árvores frutíferas,
plantas, flores, uma piscina, passarinhos, borboletas, tucanos que
volateiam com pontualidade britânica sempre no mesmo horário, entre
montanhas, uma delas a Maria Comprida, deitada, coberta de nuvens que
a vestem com o véu de noiva, além de algumas sementes de esperança
renovada.
Cadê
a utopia do homem novo imaginado pelo Che? A casa, que abrigou tantos
sonhos, não tem porão. Certamente lá o poeta amazonense Ernesto
Penafort (1936-1992), que também participou da aventura do jornal O
SOL, encontraria
o que recolher, mas aí não teríamos seus versos belos e
melancólicos, com os quais, para fazer um contraponto, aqui me
despeço:
"Dos
passos que foram dados
nem
marcas restam no chão.
E
de seus sonhos alados?
Nem
as asas restarão
Pois
foram todos sonhados
No
espaço de um porão".
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