O
caso do mendigo, de Lima Barreto
* Por
Debora Bottcher
Como já escrevemos aqui, em
2017 a FLIP homenageia o escritor Lima Barreto, que era excepcional
cronista. Seus escritos, para jornais e revistas da época,
envolvem o leitor não só pela linguagem despojada, combativa e
irônica – encontrada também em Triste
fim de Policarpo Quaresma –,
como também por continuarem extremamente atuais.
Escritas
em sua maioria entre 1918 e 1922, revelam a sua revolta e
insatisfação com as instituições políticas e sociais. Sem se
exaltar, em tom de conversa familiar, ele denuncia aspectos cruéis
da sociedade brasileira – o que mantém seus textos extremamente
contemporâneos.
Na
antologia Lima
Barreto – Crônicas para Jovens, lançada
pela Global Editora, estão
presentes desde textos em que o autor discorre sobre problemas que a
República – que nasceu durante sua juventude – não conseguiu
solucionar – como o racismo e as desigualdades sociais -, até o
problema da violência que acompanhava as partidas de futebol, num
tempo em que o esporte ainda dava seus primeiros passos no Brasil.
Sua preocupação com os efeitos perversos das reformas urbanas
feitas no Rio de Janeiro nas duas primeiras décadas do século XX
também pode ser visto em crônicas como “As
enchentes”, “O
desastre”, “Megalomania” e “O
prefeito e o povo” e “A
revolta do mar”.
No
prefácio de Gustavo Henrique Tuna, responsável pela seleção deste
livro, ele avalia que as crônicas de Lima Barreto “indiciam
sua independência de pensamento em relação aos poderes
estabelecidos no país e são marcadas pela sua vontade incessante de
se pronunciar a respeito das crueldades da vida cotidiana,
sublinhando as injustiças sociais que atingiam as camadas mais
humildes da população e zombando dos costumes de uma elite que, aos
seus olhos, lhe parecia egoísta e constantemente cega às
necessidades mais amplas do país”.
Selecionamos
a crônica abaixo, uma mostra bem concreta da linguagem precisa – e
muitas vezes repleta de humor – de Lima
Barreto sobre
as questões da sociedade – como o preconceito -, que continuam
atuais até hoje. Boa leitura!
O
caso do mendigo, Lima Barreto
“Os
jornais anunciaram, entre indignados e jocosos, que um mendigo, preso
pela polícia, possuía em seu poder valores que montavam à
respeitável quantia de seis contos e pouco.
Ouvi
mesmo comentários cheios de raiva a tal respeito. O meu amigo X, que
é o homem mais esmoler desta terra, declarou-me mesmo que não dará
mais esmolas. E não foi só ele a indignar-se. Em casa de família
de minhas relações, a dona da casa, senhora compassiva e boa, levou
a tal ponto a sua indignação, que propunha se confiscasse o
dinheiro ao cego que o ajuntou.
Não
sei bem o que fez a polícia com o cego. Creio que fez o que o Código
e as leis mandam; e, como sei pouco das leis e dos códigos, não,
estou certo se ela praticou o alvitre lembrado pela dona da casa de
que já falei.
O
negócio fez-me pensar e, por pensar, é que cheguei a conclusões
diametralmente opostas à opinião geral.
O
mendigo não merece censuras, não deve ser perseguido, porque tem
todas as justificativas a seu favor. Não há razão para indignação,
nem tampouco para perseguição legal ao pobre homem.
Tem
ele, em face dos costumes, direito ou não a esmolar? Vejam bem que
eu não falo de leis; falo dos costumes. Não há quem não diga:
sim. Embora a esmola tenha inimigos, e dos mais conspícuos, entre os
quais, creio, está M. Bergeret, ela ainda continua a ser o único
meio de manifestação da nossa bondade em face da miséria dos
outros. Os séculos a consagraram; e, penso,
dada a nossa defeituosa organização social, ela tem grandes
justificativas. Mas não é bem disso que eu quero falar. A minha
questão é que, em face dos costumes, o homem tinha direito de
esmolar. Isto está fora de dúvida.
Naturalmente
ele já o fazia há muito tempo, e aquela respeitável quantia de
seis contos talvez represente economias de dez ou vinte anos.
Há,
pois, ainda esta condição a entender: o tempo em que aquele
dinheiro foi junto. Se foi assim num prazo longo, suponhamos dez
anos, a coisa é assim de assustar? Não é. Vamos adiante.
Quem
seria esse cego antes de ser mendigo? Certamente um operário, um
homem humilde, vivendo de pequenos vencimentos, tendo às vezes falta
de trabalho; portanto, pelos seus hábitos anteriores de vida e mesmo
pelos meios de que se servia para ganhá-la, estava habituado a
economizar. É fácil de ver por quê. Os operários nem sempre têm
serviço constante. A não ser os de grandes fábricas do Estado ou
de particulares, os outros contam que, mais dias, menos dias, estarão
sem trabalhar, portanto sem dinheiro; daí lhes vem a necessidade de
economizar, para atender a essas épocas de crise.
Devia
ser assim o tal cego, antes de o ser. Cegando, foi esmolar. No
primeiro dia, com a falta de prática, o rendimento não foi grande;
mas foi o suficiente para pagar um caldo no primeiro frege que
encontrou, e uma esteira na mais sórdida das hospedarias da rua da
Misericórdia. Esse primeiro dia teve outros iguais e seguidos; e o
homem se habituou a comer com duzentos réis e a dormir com
quatrocentos; temos, pois, o orçamento do mendigo feito: seiscentos
réis (casa e comida) e, talvez, cem réis de café; são, portanto,
setecentos réis por dia.
Roupa,
certamente, não comprava: davam-lha. É bem de crer que assim fosse,
porque bem sabemos de que maneira pródiga nós nos desfazemos dos
velhos ternos.
Está,
portanto, o mendigo fixado na despesa de setecentos réis por dia.
Nem mais, nem menos; é o que ele gastava. Certamente não fumava e
muito menos bebia, porque as exigências do ofício haviam de
afastá-lo da “caninha”. Quem dá esmola a um pobre cheirando a
cachaça? Ninguém.
Habituado
a esse orçamento, o homenzinho foi se aperfeiçoando no ofício.
Aprendeu a pedir mais dramaticamente, a aflautar melhor a voz;
arranjou um cachorrinho, e o seu sucesso na profissão veio.
Já
de há muito que ganhava mais do que precisava. Os níqueis caíam, e
o que ele havia de fazer deles? Dar aos outros? Se ele era pobre,
como podia fazer? Pôr fora? Não; dinheiro não se põe fora. Não
pedir mais? Aí interveio uma outra consideração.
Estando
habituado à previdência e à economia, o mendigo pensou lá
consigo: há dias que vem muito; há dias que vem pouco, sendo assim,
vou pedindo sempre, porque, pelos dias de muito, tiro os dias de
nada. Guardou. Mas a quantia aumentava. No começo eram só vinte
mil-réis; mas, em seguida foram quarenta, cinqüenta, cem. E isso em
notas, frágeis papéis, capazes de se deteriorarem, de perderem o
valor ao sabor de uma ordem administrativa, de que talvez não
tivesse notícia, pois, era cego e não lia, portanto. Que fazer, em
tal emergência, daquelas notas? Trocar em ouro? Pesava, e o tilintar
especial dos soberanos, talvez atraísse malfeitores, ladrões. Só
havia um caminho: trancafiar o dinheiro no banco. Foi o que ele fez.
Estão aí um cego de juízo e um mendigo rico.
Feito
o primeiro depósito, seguiram-se a este outros; e, aos poucos, como
hábito é segunda natureza, ele foi encarando a mendicidade não
mais como um humilhante imposto voluntário, taxado pelos miseráveis
aos ricos e remediados; mas como uma profissão lucrativa, lícita e
nada vergonhosa.
Continuou
com o seu cãozinho, com a sua voz aflautada, com o seu ar dorido a
pedir pelas avenidas, pelas ruas comerciais, pelas casas de famílias,
um níquel para um pobre cego. Já não era mais pobre; o hábito e
os preceitos da profissão não lhe permitiam que pedisse uma esmola
para um cego rico.
O
processo por que ele chegou a ajuntar a modesta fortuna de que falam
os jornais, é tão natural, é tão simples, que, julgo eu, não há
razão alguma para essa indignação das almas generosas.
Se
ainda continuasse a ser operário, nós ficaríamos indignados se ele
tivesse juntado o mesmo pecúlio? Não. Por que então ficamos agora?
É
porque ele é mendigo, dirão. Mas é um engano. Ninguém mais que um
mendigo tem necessidade de previdência. A esmola não é certa; está
na dependência da generosidade dos homens, do seu estado moral
psicológico. Há uns que só dão esmolas quando estão tristes, há
outros que só dão quando estão alegres e assim por diante. Ora,
quem tem de obter meios de renda de fonte tão incerta, deve ou não
ser previdente e econômico?
Não
julguem que faço apologia da mendicidade. Não só não faço como
não a detrato.
Há
ocasiões na vida que a gente pouco tem a escolher; às vezes mesmo
nada tem a escolher, pois há um único caminho. É o caso do cego.
Que é que ele havia de fazer? Guardar. Mendigar. E, desde que da sua
mendicidade veio-lhe mais do que ele precisava, que devia o homem
fazer? Positivamente, ele procedeu bem, perfeitamente de acordo com
os preceitos sociais, com as regras da moralidade mais comezinha e
atendeu às sentenças do Bom
homem Ricardo, do
falecido Benjamin Franklin.
As
pessoas que se indignaram com o estado próspero da fortuna do cego,
penso que não refletiram bem, mas, se o fizerem, hão de ver que o
homem merecia figurar no Poder
da vontade, do
conhecidíssimo Smiles.
De
resto, ele era espanhol, estrangeiro, e tinha por dever voltar rico.
Um acidente qualquer tirou-lhe a vista, mas lhe ficou a obrigação
de enriquecer. Era o que estava fazendo, quando a polícia foi
perturbá-lo. Sinto muito; e são meus desejos que ele seja absolvido
do delito que cometeu, volte à sua gloriosa Espanha, compre uma casa
de campo, que tenha um pomar com oliveiras e a vinha generosa; e, se
algum dia, no esmaecer do dia, a saudade lhe vier deste Rio de
Janeiro, deste Brasil imenso e feio, agarre em uma moeda de cobre
nacional e leia o ensinamento que o governo da República dá… aos
outros, através dos seus vinténs: “A
economia é a base da prosperidade”.
Bagatelas,
1911
*
Formada
em Letras, com especialização em Literatura Infantil e Produção
de Textos. Participou do livro de coletâneas "Acaba Não,
Mundo", do site "Crônica do Dia", onde escreveu por
10 anos. Publicou artigos em vários jornais. Trabalha com arte
visual/mídias. Também administra o Portal Feminino Estilo [Mulher]
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