Milagre da sorte
* Por
Fábio de Lima
(A
sorte é um milagre que independe da nossa fé!)
Posso
me considerar um homem de sorte. Sou pobre, feio e burro – mas
ainda estou vivo. Enquanto isso, muitos ricos, bonitos e inteligentes
não tiveram o mesmo destino. Nunca soube escrever bem, mas, ainda
assim, deslizo a caneta sobre as folhas de papel ao nascer e morrer
dos anos. Sei que muitos escritores de talento não tiveram a mesma
oportunidade. Amo e odeio na mesma intensidade e sei que muitos
rebeldes, como eu, não tiveram a mesma chance. A sorte é uma coisa
estranha, caro leitor.
Nasci
artista e isso contribuiu muito para me transformar em um homem
triste. Meus pensamentos cresceram confusos dentro da minha cabeça.
Sempre quis voar como se fosse pássaro, mas nunca consegui levantar
meus pés pesados do chão gelado. Nunca fui homem da roça e nunca
me habituei com o barulho da cidade. Desconheço a esperança e
desconheço toda forma de sobreviver ao tempo, sem essa bendita e
maldita sorte. Sou incapaz de enxergar o mundo sem analogias e
metáforas, caro leitor.
Sou
estranho, louco e único. Cabelos e olhos castanhos carregando meus
sonhos. Os mesmos trechos das mesmas músicas dentro da minha
imaginação. Tenho tudo que preciso para viver e nada que tenho é o
bastante para alcançar minha felicidade. O calendário morre lento
sob meus olhos. Dinheiro não tem importância para mim. E tantas
outras coisas, importantes para os outros, me parecem bobas. E a
sorte entorta e apruma os mesmos caminhos. Vivo com a impressão de
estar no lugar errado e na época errada, caro leitor.
Observo
o mundo à minha volta como alguém que procura uma pulga na pelagem
de um leão. Guardo em meu coração sentimentos dos mais tolos
momentos vividos e pensados desses últimos anos. E as rugas em minha
face se proliferam traçando um mapa do homem que fui, sou e sempre
sonhei e não consegui ser. A idade começa a censurar todos meus
planos de menino. A sorte sorri ironicamente. Algo me diz,
sussurrando como num filme de Ingmar Bergman, que estou acabado, caro
leitor.
Teimoso,
me arrasto como uma serpente procurando comida no deserto. Escrevo
poemas e os jogo nos fundos das gavetas de minhas decepções. Cansei
de visitar psicólogos e psiquiatras. Minhas ilusões eu mesmo
invento sem ajuda de teóricos alheios. Desenho, com giz de cera, um
grande coração azul na parede branca do meu quarto. Com sorte
entendo o absurdo. Acredito em cada duende verde que trabalha
incessantemente no jardim da minha casa, conforme minha mente débil
consegue acreditar, caro leitor.
Inalo
o perfume das rosas, enquanto minhas mãos sangram encravadas nos
espinhos. Conto as letras do meu nome querendo entender melhor quem
eu sou. Deixo cair lágrimas só depois do cair da noite e do brotar
do silêncio. E, se a cada lamento novo lembro de um problema velho,
não faz sentido, caro leitor amigo. Então, me contorço na sarjeta
esperando o famoso milagre da sorte. Lembro, à beira do derradeiro
suspiro, a última palavra que Deus me disse antes de me largar
sozinho neste mundo mórbido e mesquinho: a sorte é um milagre que
independe da nossa fé!
(*)
Jornalista e escritor ou “contador de histórias”, como prefere
ser chamado. É Diretor de Programação da CINETVNET
(www.cinetvnet.com.br), TV pela internet. Está escrevendo seu
primeiro romance, DOCE DESESPERO.
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