Sujeito Zero (15)
* Por
Sergio Vilas Boas
Já
bem tarde Alma teve
fome. Colocou o discman
sobre a cama; acendeu o abajur; apagou a nervosa lâmpada
fluorescente tubular espiral; abriu até o fim a cortina do quarto;
apanhou o menu-propaganda do restaurante que Quanaduck havia
indicado, o do chinês que faz entregas a qualquer hora e sob
qualquer condição atmosférica. Suspeitou que, àquela hora e
naquelas circunstâncias, ninguém atenderia no 1-800 ou no outro
número. Congelaram a normalidade também? Não.
Uma voz masculina respondeu em
um inglês asiático. Alma pediu tofu com legumes, o mais possível
de uma vegetariana heterodoxa suportar. A princípio, o sujeito não
entende. Ela diz o número correspondente à opção do menu e ele
respondeu “ouquê” – “ok”, Alma intuiu.
O atendente custou a
compreender que o suco de laranja dela tinha de ser natural, sem
açúcar ou outro aditivo. Ela não é o melhor exemplar da espécie
denominada ecologicamente correta. Tampouco implica. Como integrava
um amplo circuito de informações sobre pesquisas em mutagênese,
conforme pude comprovar em www.unlimit.org,
Alma se afirma capaz de distinguir a ciência séria da
sensacionalista.
O chinês pediu trinta minutos
de prazo para atender ao pedido. Bom demais para ser verdade. Ao
estômago roncante, porém, ela enviou outra mensagem: a de que a
comida, se viesse, levaria uma hora para chegar. Alma parece ter
mania de se vacinar contra as decepções imaginando o pior. E se a
comida não vier de jeito nenhum? Nessa hipótese melhor nem pensar.
Ela é uma criatura muito, muito ansiosa.
Estranhamente – exceção
para a noite, a neve e a oportunidade ímpar de lembrar, que ela
assimilou com dificuldade –, tudo parecia um pesadelo. Alma arredou
a poltrona para perto da janela e ficou olhando o lado de fora.
Certamente, viu telhados
cor de piche, brancas residências coloniais restauradas, chaminés
que lembram Papai Noel, torres pontiagudas de igrejas presbiterianas
e copas nuas de árvores centenárias iluminadas por refletores
públicos turvos.
***
Para
Alma, coincidência é uma palavra desprovida de mistérios, nada
além da simultaneidade de duas ocorrências. Mas não deve ter sido
o acaso que a estacou em Mystic. Ela pernoitou em uma região que
Wapson conhece como a palma da mão, porque nasceu e se criou nela.
Mystic foi por várias
gerações lar de marinheiros e pescadores impetuosos. Em 1776, às
vésperas da revolução de independência dos EUA, a Coroa Britânica
apelidou a vila de “maldito ninho de marimbondos nacionalistas”.
Tem hoje menos que os 4 mil habitantes (dois mil na cidade, dois no
campo – isso atualmente) da Carrancas de Seu Edmundo.
Em meados do século XIX, as
ambições dos habitantes de Mystic giravam literalmente em torno das
Américas. Fabricantes de embarcações lutavam para construir um
navio capaz de circundar mais rápido o Cabo Horn, no extremo-sul da
Argentina, e chegar a San Francisco, na Costa Oeste americana, onde o
ouro abundava.
Hoje Mystic subsiste graças
ao seu pequeno porto, ao turismo e à indústria
naval de Groton, cidade vizinha, que produz submarinos nucleares. Por
isso e por sua própria tradição, a vila possui um precioso acervo
sobre a história marítima dos EUA, contada no museu Mystic Seaport,
às margens de um rio que, naquela noite, estava perto de congelar.
O
pai de Wapson, Frank Vogler, líder do Sindicato dos Trabalhadores da
Marinha Mercante da Costa Nordeste, foi acusado de subversão pelos
paranóicos seguidores de Joseph McCarthy, senador por Winsconsin.
Vigiado e perseguido entre 1949 e 1955, Frank chegou a ser convidado
a passar “uns anos longe da pátria”, mas resistiu. Em 1966,
Frank, Martha e os filhos emigraram para o Brasil, por opção.
Exceto
Wapson, o mais velho (então com 18 anos), que desbundava. Não
trocaria a vida de hippie
on the road
por uma aventurazinha qualquer com familiares aos quais mal
telefonava para desejar feliz natal. Seu projeto de futuro enfrentava
três obstáculos: o pacifismo religioso dos bisavós; a moral
hiperamericana dos avós; o socialismo consumista dos pais. Wapson
tem muito a emprestar à geração de Alma. Ele é do tempo em que o
“ser contra” era valorizado.
*
Jornalista, escritor e professor. Editor do portal TextoVivo
Narrativas da Vida Real (www.textovivo.com.br);
vice-presidente da Academia Brasileira de Jornalismo Literário
(ABJL). Autor de “Os
Estrangeiros do Trem N”
(1997), “Biografias
& Biógrafos”
(2002) e “Perfis”
(2003), entre outros. E-mail: svilasboas@textovivo.com.br.
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