Raízes no irracional
O
escritor austríaco, Robert de Musil, escreveu, no ensaio “O homem
sem qualidades”: “A política, a honra, a guerra, a arte, tudo o
que há de mais decisivo na vida, acontece para lá do entendimento.
A grandeza humana tem raízes no irracional”. Entre essas tantas
coisas que nos engrandecem e nos tornam especiais, mas que não
comportam explicações, estão as paixões.
Tanto
faz que sejam por determinadas pessoas, causas ou instituições.
Desenvolvemo-las à nossa revelia e elas nos acompanham vida afora. O
homem contemporâneo tem vários comportamentos bem diferentes (se
melhores ou piores é questão para se discutir), em muitos aspectos,
daqueles dos seus antepassados. Por exemplo, fez de um simples
esporte, inventado pelos ingleses há cerca de dois séculos,
catalisador por excelência de suas paixões.
Para
muitas pessoas, seu clube de futebol é coisa muito séria, uma
espécie de religião. Suas vitórias ou derrotas adquirem a função
de catarse, agem como válvula de escape para tensões e frustrações
acumuladas no dia a dia. E estas, convenhamos, não faltam a ninguém.
Quando
seu time do coração vence, esse apaixonado por ele sente-se também
vencedor, mesmo que não tenha feito nada além do que estimular os
que o representam no campo de disputa para que o sucesso ocorra. Ou
seja, torcer. Quando perde ... sente a mesma dor que qualquer tipo de
perda proporciona. Por que isso acontece? Mistério! Mas pouco
importa.
Os
clubes de futebol, hoje, são, para seus torcedores, muito mais do
que meras associações desportivas. Extrapolam seu caráter lúdico
ou social. São símbolos do que as pessoas aspiram, sonham e lutam
para obter no correr de uma vida, Incluem-se, pois, naquele elenco de
entidades enraizadas no irracional, citado por Musil, mas que nos
torna grandes e especiais.
Embora
intelectual, afeito, portanto, às racionalizações e análises
objetivas e frias dos meus desejos, sonhos e compulsões, tenho, como
a maioria das pessoas, meu elenco de paixões. Não as racionalizo.
Nem poderia! Parte considerável delas tem, de fato, “raízes no
irracional”. Mas são elas, e não o raciocínio puro e frio, que
me tornam candidato à grandeza.
Entre
essas paixões, destaca-se uma que nasceu à minha revelia (como
tantas outras), espontaneamente, como todos os sentimentos nobres e
bons soem nascer. Evoluiu, ano após ano, tornando-se cada vez
mais profunda, avassaladora, intensa e absoluta.
Trata-se
do meu inquestionável e irrestrito comprometimento com um clube de
futebol, que aprendi a admirar, e mais, a amar sem reservas ou
restrições, como se fosse parte integrante da minha pessoa, do meu
caráter e da minha personalidade (e, em certo aspecto, de fato é):
a Associação Atlética Ponte Preta, desta minha apaixonante
Campinas. Fosse racionalizar a questão, teria que admitir que essa
paixão é uma imensa bobagem. Afinal o futebol, para quem não o
pratica (como é o meu caso), é, no máximo, uma diversão, um passa
tempo, um lazer. Nunca me trouxe e certamente jamais trará qualquer
vantagem financeira, intelectual e/ou moral. Mas...
Este
foco brilhante da minha paixão (no caso, o clube) surgiu antes,
muito antes que eu sequer viesse ao mundo. Para ser mais preciso,
antecedeu-me em 43 anos. E há já mais de um século (quase 117
profícuos anos) empolga gerações. É uma paixão que passa de pai
para filho (embora não se trate do meu caso), sempre num crescendo
sem limites, formando interminável corrente de amor de infinitos
elos. Sou tomado por ela há já cinqüenta e oito anos, quando me
fixei, de vez, em Campinas e não abrirei mão dela enquanto viver.
Mesmo que quisesse (e não quero), não conseguiria. Faz parte de
mim. Está no meu sangue, na minha essência, no meu código
genético. Por que? Por mais que queira racionalizar, não consigo.
Talvez
a explicação mais lógica seja que a Ponte Preta é, antes e acima
de tudo, símbolo de tudo o que admiro e busco incorporar à minha
personalidade. Simboliza, por exemplo, constância, persistência e
convicção. E mais, representa garra, espírito de luta e força de
vontade, sem os quais não se vai a lugar algum. É, também, símbolo
de fé e da capacidade de saber se erguer sempre que eventualmente se
cai, e recomeçar, quantas vezes forem necessárias, a jornada em
busca dos objetivos estabelecidos. “Ah, mas ela nunca foi campeã”,
dirão (e dizem a todo o momento) os adversários, em tom de galhofa.
É verdade. Contudo… nunca desistiu da luta e sempre com lealdade e
respeito às regras estabelecidas;
Sei
que eu deveria falar das qualidades técnicas do time, que variam
muito de ano para ano, das suas conquistas nos gramados (seis vices
paulistas e um da Copa Sul-Americana), da sua apaixonada e fiel
torcida (seu maior patrimônio) e das metas que, certamente,
haveremos de atingir. Mas isso significaria tentar racionalizar o
irracional, explicar o inexplicável e diminuir, por conseqüência,
seu significado. Afinal, paixões não se explicam, se sentem.
Boa
leitura!
O
Editor.
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