Não se compra o essencial
As
pessoas que se apegam ao dinheiro, como um crente se apega a Deus por
exemplo (ou até mais, quem sabe) causam-me pasmo. Não as entendo. É
certo que evoluí em meus sentimentos com o passar dos anos. Quando
moço, sentia, por elas, repulsa e desprezo. Hoje o que sinto é uma
certa piedade, misturada à absoluta incompreensão.
Sei
que na ordem atual das coisas, neste mundo em que os valores estão
todos (ou quase todos) às avessas, deveria ocorrer o contrário. Ou
seja, os endinheirados é que deveriam sentir (duvido que sintam)
pena das minhas tantas carências materiais.
Contudo,
não posso ser classificado sequer como pobre. Não conto com
recursos para esbanjar, é verdade, mas o que ganho é suficiente (e
em algumas ocasiões até sobeja) para satisfazer minhas necessidades
e, às vezes, até alguns dos meus caprichos. Nesse aspecto,
portanto, não tenho do que me queixar.
Não
sou nenhum perdulário que sai por aí esbanjando o fruto do seu
trabalho. Não chego a tanto. Mas não tenho apego o mínimo pelo
dinheiro. Vejo nele, apenas e tão somente, um meio de viver com
dignidade. Não faço poupança, embora tenha o cuidado de gastar,
rigorosamente, só o que ganho. Não me fio nunca em créditos para
sair gastando por conta.
Uma
coisa que nunca consegui entender é essa febre por ouro que afeta
muita gente e que parece não ter cura. Aliás, foge-me da
compreensão o motivo desse metal, de relativamente escassa utilidade
prática, ser considerado tão valioso, mais até do que o ferro,
indispensável ao homem por suas mil e uma aplicações. Sequer o
considero o mais belo. Seu valor é, pois, fruto de mera convenção,
que se perde nas brumas do tempo e que jamais foi revisada.
Olavo
Bilac, na crônica que publicou em 8 de outubro de 1899, no jornal
“Gazeta de Notícias” do Rio de Janeiro, a propósito da Guerra
dos Bôeres, que então se travava no atual território da África do
Sul, escreveu: “Ah! A fome de ouro! Em que arriscados passos não
se mete a gente, por amor do lindo metal, que a natureza previdente
armazenou no seio da terra, disfarçando-o em amálgamas vários,
como para esconder da nossa cobiça essa origem perene de horrores e
de sangreiras! Por amor dele a alma se endurece, o coração fica
seco como um arcai, afiam-se as unhas à rapina, aguçam-se os dentes
da traição, e o espírito, excitado pelas tentações, inventa
requintes de crueldade, cria prodígios de astúcia”.
Estes
só podem ser, mesmo, sintomas de uma doença, grave e incurável.
Não é coisa de pessoas normais, equilibradas, sensatas e racionais.
Não pode ser! Posso afirmar, com absoluta segurança, sem
pestanejar, que o ouro nunca me fez, não faz e nem fará falta.
A
rigor, só tive, em toda a minha vida (que já passa bem dos sessenta
anos), um único objeto feito com este metal, a que tanta gente
atribui tamanho valor. Foi o par de alianças do meu casamento. E até
isso eu perdi – com o que arrumei, diga-se de passagem, baita
encrenca com a esposa, mas não por sua valia pecuniária, mas por
ela entender que eu me tenha desfeito do anel para posar de solteiro.
Ela estava errada, claro. Mas foi uma luta para convencê-la!
Depois
disso, jamais cheguei sequer perto de ouro. E querem saber? Isso
nunca me fez a mínima falta. Não me sinto mais pobre por não
possuir nada feito com esse metal e acho que não me sentiria rico se
possuísse algo, a menos que fosse em quantidades gigantescas.
Reitero,
pois, que não consigo entender a cabeça de quem se apega, com
tamanha paixão, a coisas que, no meu critério de avaliação, são
tão banais. Só pode, mesmo, se tratar de doença. Que outra
explicação haveria? Não vejo nenhuma.
O
mesmo pasmo, ou até maior, me despertam os que têm obsessão pelo
dinheiro. É certo que ele lhes proporciona a satisfação não
apenas de todas as necessidades, mas até dos mais estapafúrdios
caprichos. Mas alguns têm tanto, que dá para tudo isso e ainda
sobra muito, muitíssimo. Para quê tanto?!
O
escritor dinamarquês, Henrik Ibsen, fez a seguinte e sábia
constatação, que os obcecados por esses valores simbólicos
deveriam atentar (mas não atentam): “Com o dinheiro podemos
comprar muitas coisas, mas não o essencial para nós.
Proporciona-nos comida, mas não apetite; remédios, mas não saúde,
dias alegres, mas não a felicidade”. Vale a pena escravizar-se por
tão pouco?! Só pode ser doença mesmo! Ou você tem explicação
melhor?
Boa
leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Edit5or pelo twitter: @bondaczuk
Vi diante de mim algumas pessoas que são fanáticas por dinheiro. Eu gosto dele, mas longe estou de ser apaixonada. Quanto ao ouro, tenho desprezo total. Não tenho nenhum objeto de ouro, a não ser a aliança de casamento que há dez anos e meio tirei do dedo e lancei no fundo de uma gaveta.
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