“Não
vou lhe cumprimentar e ainda vou lavar a mão” - Brizola
* Por
Mara Narciso
Não
há bom encontro sem aperto de mão. Cena de filme ou Jornalismo,
imagem de novela, passagem de um livro, muitos já viram uma mão
desamparada, pós-ato ignóbil, símbolo do desprezo e da humilhação,
ainda que cada país tenha suas próprias normas para o simbólico
aperto de mão. Desafetos se encontram, o ambiente pesa, trocam-se
agressões, a ação se inflama, o conflito ferve, depois das
raquetadas, retorna à quase normalidade. Então, acertadas as
contas, antes de sair, pode ser que um deles estenda a mão, nem
sempre em sinal de pacificação, mas num gesto civilizado
automático. Porém, aquele que se sinta irado, ou que queira ter
razão, vinga-se, deixando o adversário com a mão no ar. Este,
vencido, vomita despautérios e sai fuzilando. Se na ficção traduz
mal estar, na vida real afronta aos presentes.
Numa
discussão, mesmo quando parece justo o lado vencedor, presenciar
gestos de estupidez é constrangedor. Alguns se valem desse
expediente para enfraquecer o inimigo. Vangloriam-se dessa atitude.
Vale tanto quanto uma bofetada, sendo quase uma cusparada. Os humanos
são vingativos. Na política, os poderosos se ofendem verbalmente de
forma mais ferina que um murro, e muitos partem para as bofetadas,
outros filmam e se divertem, enquanto a maioria se sente mal. Para
evitar tais impulsos primitivos, valem-se dos simbolismos
civilizatórios das muitas culturas nas quais um aperto de mão
indica pacto de amizade ou de aceitação.
Uma
cliente antiga, com a qual tenho acertado, inclusive fora da minha
área, com respectivo encaminhamento, aborreceu-se comigo porque fui
firme com meu filho dentro do consultório. Devido ao déficit de
atenção, sem apertá-lo a ajuda que ele me fazia não seria eficaz.
Na hora do fato ela me ordenou paciência, coisa que tenho, diante da
boa vontade dele. Dias depois, a paciente me trouxe exames. Ao
entrar, não me olhou, mesmo ao ser recebida comigo de pé, com a mão
estendida. Vendo que ela não aceitaria meu cumprimento, perguntei o
porquê de ela não apertar a minha mão. Abaixou os olhos. Jogou o
exame sobre a mesa, sentou-se e continuou ríspida. Ao final,
conversou quase normal, ainda que tensa, mantendo o desconforto.
Duas
pessoas muito me prejudicaram, uma delas, expulsando meu filho da
escola aos quatro anos de idade e a outra inventando mentiras sobre
atitudes profissionais, e, alguns anos depois, nos encontramos. Foram
em eventos social e científico, respectivamente, entre amigos
comuns, e ambos me estenderam a mão. Eu as segurei em tenso
desconforto. Não sou humilde nem generosa, mas um aperto de mão não
se nega.
Nos
encontros políticos internacionais entre países em desacordo há um
intermediador neutro para buscar a paz. Espera-se um aperto de mão
entre os contendores, nem sempre natural, haja vista as dezenas de
cenas insólitas entre líderes, e em especial tendo por personagens
o Presidente de Israel e a Autoridade Palestina. Na campanha política
americana do ano passado, Donald Trump e Hillary Clinton começaram
um dos debates mais tensos sem apertos de mão. Numa visita da
Chanceler Alemã Angela Merkel aos Estados Unidos, Donald Trump
pareceu não ouvir o pedido de cumprimento da visitante.
Nos
desafios mesquinhos, cada um, à sua maneira tenta se fazer maior,
reduzindo seu adversário, e para isso, vinga-se, deixando pendente a
mão alheia, gesto desprezível. Quem quiser ser grande deve buscar a
cordialidade. Alguns apertos de mão são difíceis e outros quase
impossíveis, sendo manifestação de grandeza de ambas as partes que
trocam as asperezas pela boa vontade. Este pode ser o recomeço de
uma convivência pacífica.
Curiosidades
do aperto de mão em 15 países: http://exame.abril.com.br/
*
Médica endocrinologista, jornalista profissional, membro da Academia
Feminina de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico, ambos de
Montes Claros e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”
Fique com meu sincero aperto de mão, Mara.
ResponderExcluirObrigada, Marcelo. Ficamos quites trocando apertos de mão com respeito.
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