Imagens enganadoras
A
fotografia é um milagre, embora seja tão comum, trivial e
corriqueira, hoje em dia, ao ponto de não nos damos conta da
maravilha que é. Não houvesse eu nascido muitos anos após a sua
invenção, certamente consideraria impossível a mágica de captar
paisagens, pessoas e coisas, num determinado momento do tempo, e
eternizá-las. Hoje tudo pode (e é) fotografado, desde estrelas,
constelações e galáxias, tão distantes que já estão extintas há
milhões de anos, mas cuja luz só está chegando agora à Terra,
até o interior de um átomo.
Mais
miraculosos, ainda, são os filmes, que nos permitem não somente ver
imagens estáticas, mas, principalmente, as em movimento, eternizando
ações. E podemos não somente “ver” pessoas agindo, em uma
representação ficcional ou na realidade (quando se trata de
notícia), mas ouvi-las, como se estivessem ali, à nossa frente,
agindo em tempo real, mesmo que já tenham, até mesmo, morrido há
muito tempo e delas só restem alguns fragmentos de ossos e os
cabelos, se tanto.
Esses
processos são ou não miraculosos? Hoje em dia, qualquer pessoa pode
captar a imagem que quiser, com sofisticadíssimas câmeras digitais
e até com seus inseparáveis celulares, que se tornaram multiuso,
sem que isso cause admiração em ninguém. Admirados os outros ficam
se nos admirarmos desse milagre. Suspeito que até os mais rudes
silvícolas, com escassíssimos contatos com o que chamamos de
“civilização”, já disponham desses equipamentos. E se não
dispuserem, disporão a qualquer momento.
Mesmo
valorizando esse “milagre” da modernidade, não posso, porém, e
não devo me esquecer que imagens podem ser sumamente enganosas e,
por extensão, enganadoras. Com os equipamentos disponíveis, são
facílimas de serem manipuladas e fraudadas. E as fraudes, não raro,
são tão perfeitas, que enganam aos mais ilustres e competentes
peritos.
O
leitor talvez se lembre de um caso emblemático, que provocou muito
bochicho em meados dos anos 70 do século XX – em plena
efervescência da chamada Guerra Fria – na extinta União
Soviética. Tratava-se de uma fotografia do então homem forte do
império soviético, Leonid Brezhnev, com seu secretariado.
Parcos
anos após, a mesma foto foi divulgada, se não me engano, no
“Pravda”, mas sem a presença de um dos colaboradores do ditador,
que havia caído em “desgraça política” (e isso porque
“pravda”, em russo, significa “verdade”. Imaginem se
significasse “mentira”!)..
A
imagem foi tão bem fraudada, que parece que o sujeito se “evaporou”
da fotografia sem deixar o menor vestígio. O erro dos fraudadores
foi o de não destruírem a foto original. Bastou comparar as duas, a
que de fato foi tirada num determinado dia e a fraudada, para
descobrir a manipulação. E olhem que naquele tempo a informática
ainda engatinhava. Não havia, por exemplo, um Photoshop ou outro dos
fantásticos programas atuais de tratamento de imagens quaisquer.
Se
então essa enganação foi possível – tanto que foi praticada –
imaginem hoje. Quem sabe lidar bem com o instrumental existente, pode
manipular qualquer fotografia, sem que haja condições de alguém
comprovar a fraude. Nada me impede, por exemplo, de colocar-me no
solo lunar, deixando a marca das pegadas dos meus pés em sua
superfície, vestindo trajes de astronauta, como se houvesse um dia
viajado para o satélite natural da Terra. Nem é preciso destacar
que sequer em meus mais delirantes sonhos participei desse tipo de
odisseia. Estou longe de ser lunático!
Mas
a fotografia não foi inventada para que pilantras mal-amados e
corruptos convictos a utilizassem para enganar quem quer que seja.
Essa miraculosa capacidade de fixar imagens tem, atualmente,
serventias muito mais nobres e úteis do que as meramente
informativas ou reminiscentes. Entre tantas utilidades, tem servido
de precioso instrumental, por exemplo, para médicos, em sua
incansável faina de salvar vidas.
É
possível fotografar, por exemplo, nos mais variados ângulos que se
precise, qualquer parte do corpo humano. Essas fotos, digitalizadas,
podem ser salvas em computador. Programas recentes permitem que sejam
exibidas em três dimensões. E assim, se corretamente trabalhadas,
tendem a ser mais úteis e informativas aos cirurgiões do que as
velhas radiografias. Assisti, não faz muito, um documentário a
respeito no canal de televisão a cabo “Discovery Science”.
Muitos
médicos, mundo afora, já substituem as “velhas chapas” de
raios-x, e o equipamento que lhes permitia visualizá-las, na sala de
cirurgia, pelo computador, obviamente com vantagens. Com isso,
limitam a quase zero a possibilidade de cometerem erros ao operarem
algum paciente.
Recentemente,
escrevi uma crônica, contestada por alguns, destacando que a visão
é um dos órgãos mais enganadores que nós, humanos, temos, e
expliquei as razões. Ressaltei, em especial, a questão do ponto de
vista. Se as imagens, em tempo real e ao vivo, nos induzem a
esmagadores enganos e, muitas vezes, fatais, imagine, amigo leitor, o
que não acontece com fotografias e filmes, passivos de manipulação
e fraude tão bem-feitas que se aproximam da perfeição?!
Boa
leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk