Almoço
de Páscoa
* Por
Mara Narciso
Meus
amigos sabem que sou agnóstica e meu filho cético, desde que
descobriu que se revelar ateu feria meio mundo. Então, chegada a
Semana Santa, repassei alguns vídeos sobre o Espírito da Páscoa,
incluindo o renascer, a mudança, o ser melhor, se envolver, ser
grato, solidário e aquela lista de virtudes pouco praticadas. Soube
que a Páscoa também representa a oportunidade de vida eterna, pois
Jesus ressuscitado eterniza seus fieis.
Sincera,
verdadeira e avessa ao fingimento, causei estranheza. Sou uma
agnóstica cristã, não para fazer média com quem quer que seja.
Amo ao próximo, respeitando-o, não para ser boazinha, seguir
preceitos, barganhar ou ser perdoada. Sigo isso naturalmente, por
princípios inatos, e sem pretensão de convencer ninguém. Também
não adotei famílias. Minha bondade é restrita. Visito, apoio,
promovo ações, e só. E por egoísmo, pois busco me sentir bem com
isso. Apenas eu e quem recebe sabem.
Que
cada um escolha o seu caminho. Não aceito pregações. Em criança a
gente aprende o certo e o errado naquele seio familiar. E que não se
faça malabarismos para pregar uma coisa e fazer outra, barganhando
com Deus, fingindo seguir sem cumprir de fato preceitos pétreos
daquela Igreja. Fé não se impõe, assim como não se flexibilizam
dogmas à sua conveniência.
Qualquer
guerra é injustificável. O que significam aquelas em nome de Deus?
O adulto escolhe o que quer ser. A escolha deve ser sua. E não se
obrigue a levar alguém consigo. Eu não pratico nenhuma religião e
nem professo nenhuma fé desde os 16 anos (1971), quando dei um grito
de “chega!”
Igreja
apenas em batizado, casamento, missa de sétimo dia. Mas não foi
sempre assim. A minha Mãe Milena Narciso Cruz me criou na Igreja
Católica. Colado em minha cama tinha um anjo cuidando de um menino e
uma menina. Rezávamos todas as noites. Aos sete anos fui ao
catecismo, fiz a Primeira Comunhão, era obrigada a ir à Missa todos
os domingos. A nossa casa era cheia de imagens de anjos e santos,
Bíblia, missal, salmos, terços, velas acesas, muita fé em Nossa
Senhora. Mãe dizia que nos momentos mais tenebrosos, quando a dor
impedia qualquer oração, bastava dizer várias vezes: Maria,
valei-me! Maria, socorrei-me! E a graça vinha. Eu acreditava.
Receber o Corpo de Cristo na Comunhão causava emoção num prazer
contrito, de joelhos, cabeça baixa, rezando baixinho.
Era
preciso confessar e comungar pelo menos uma vez por ano, na Páscoa.
Naquele tempo, sem se confessar, ninguém comungava. Tinha de se
ajoelhar ao pé do padre, contar o que tinha feito e rezar a
penitência. Em menina, tremia de medo, e Mãe me obrigava,
levando-me ao confessionário: vai! Eu obedecia, mas detestava.
Estudei
por 10 anos no Colégio Berlaar Imaculada Conceição e três anos no
Colégio Marista São José. Era muita missa e aula de religião,
rezando quase todos os dias. Ameaças povoaram a nossa mente infantil
com imagens do inferno e do dilúvio. Qualquer um de nós tem nos
frágeis cérebros essas maldades gravadas em pedra.
Milena
me ensinou que a maior festa cristã não era o Natal, e sim a
Páscoa, porque se Jesus não tivesse ressuscitado, de nada valeria
Ele ter nascido. Então, em minha casa se comemorava o Natal com uma
ceia na família grande, avós, tios e primos e um Almoço de Natal
na família pequena. Mas para Mãe, o grande dia era o Domingo de
Páscoa, com todos se confessando, indo à missa de roupa nova,
comungando em jejum com a cabeça coberta por um véu branco, numa
missa enorme, lotada e durando mais de duas horas. Depois íamos para
casa almoçar uma comida especial, que nos bons tempos tinha vinho e
peru. Por isso amigos, entre lágrimas, dores, más e boas
lembranças, a Páscoa jamais deixará de ser A Páscoa, o renascer
melhor. Eu a reverencio, assim como reverencio a Cristo, a minha mãe,
e a todos os meus mortos.
*Médica
endocrinologista, jornalista profissional, membro da Academia
Feminina de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico, ambos de
Montes Claros e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”
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