A poesia é
incorruptível
"A poesia é incorruptível. O tempo
é que se degradou". Essa citação de Jorge de Lima, no livro "Obras
Completas", resume o que penso desse gênero literário dos mais nobres,
precursor de todos os demais, e hoje um tanto esquecido, abandonado,
negligenciado, embora não decadente.
Poetas de qualidade, que sabem juntar
forma e substância, razão e emoção, paixão e inteligência, há em abundância
pelo mundo afora. Do que carecem é de divulgação. Do que precisam é de pessoas
que saibam não somente interpretar, mas, sobretudo, sentir os poemas. O que
requerem é de atenção e valorização.
Durante anos, "naveguei"
nesse oceano de beleza. Fiz da poesia meu canal de comunicação com o mundo.
Tanto, que os primeiros trabalhos que publiquei na imprensa foram nesse gênero.
Quem tem o hábito de ler jornais sabe que isso representa enorme façanha.
São raros, raríssimos os poetas que
freqüentam as páginas dos suplementos de cultura dos principais diários
brasileiros. Mesmo os que conseguem, seus trabalhos publicados são esporádicos.
Têm espaço às vezes de anos entre um e outro. E geralmente as publicações
acontecem quando do lançamento de algum livro novo.
O que causou esse "fechamento de
portas"? Em primeiro lugar, foi a falta de interesse do público pela
poesia. Em segundo, a linguagem cifrada adotada pela maioria dos poetas,
incompreensível muitas vezes até para mestres de literatura, quanto mais para
um leitor com grau cultural primário, superficial, inadequado, desacostumado a
raciocinar. Em terceiro, a própria feiúra da vida moderna, com sua violência e
degradação dos sentimentos. Em quarto, a falta de divulgação de obras de poetas
novos, que se não tiverem dinheiro para bancar suas edições, permanecem para
sempre inéditos.
Com isso, falta renovação. Com razão ou
não, as editoras argumentam que, à exceção de nomes consagrados, como Carlos
Drummond de Andrade, Cecília Meirelles, Mário Quintana, Manuel Bandeira e mais
meia dúzia de "monstros sagrados" da nossa literatura, poesia não
vende. E ninguém está disposto a arcar com encalhes nestes tempos de
"vacas magras".
Desde que ingressei no jornalismo – me
profissionalizei em 1979, embora atue na área desde 1961 – deixei de escrever
poemas com a freqüência de antigamente. Claro, não abandonei por completo esse
exercício, essa recriação da beleza através das palavras, esse constante
fotografar de emoções. Mas já não escrevo freneticamente como nos anos 60 e 70,
ocasião em que cheguei a reunir mais de mil trabalhos no gênero e a participar
de concursos, tendo vencido vários.
Hoje, a produção é ocasional e
desordenada. É até possível que seja grande e que apenas eu não me dê conta
disso. Seria necessário reunir todos esses textos, esparsos em gavetas de
armários e escrivaninhas, em bolsos de paletós e jaquetas e no meio de páginas
de vários cadernos e agendas, para saber quantos são.
São poemas e mais poemas escritos em
maços de cigarro, em guardanapos, em cantos brancos de páginas de jornais e
ultimamente em computador. Antigamente, estes textos eram rigorosamente
copiados e classificados, em formato de livro. Hoje, sequer tenho tempo para
respirar...
Um dos que consegui encontrar outro
dia, e que me agradou quando da releitura, foi este "Desafio",
escrito em 23 de setembro de 1995 e que diz:
"Fazer
da vida sinfonia heróica.
Calar
a voz irada do instinto.
Dar
harmonia a ásperas dissonâncias.
Criar
beleza das sucatas do tempo.
Desafios.
A batalha é solitária.
Drama
ensandecido de zumbis
num
palco composto por miragens.
Silêncio:
um anjo agoniza
em
copiosa hemorragia de luz.
Figuras
soturnas, sombrias
vagam,
ensimesmadas, mudas,
por
vielas escuras, fétidas,
perdidas
nos meandros do vício.
Multidões
desorientadas, em fúria,
vociferam
slogans sanguinários,
mantras
homicidas de violência:
rebelião
de marionetes sem cabeça.
Fornalha
que consome ilusões,
reduz
a cinzas esperanças,
princípios,
ética e tradições.
Fazer
da vida sinfonia heróica.
Calar
a voz irada do instinto.
Dar
harmonia a ásperas dissonâncias.
Desafios...Tarefas
de uma vida..."
A poesia foi, é e continuará sendo
"incorruptível". Não tenho dúvidas de que foi o tempo que se (e me)
degradou. E estendeu essa degradação às coisas, às pessoas, aos sistemas, aos
conceitos, ao mundo. Só a beleza pode servir de antídoto à corrupção de
costumes, de idéias, de comportamentos e das emoções... À
"coisificação" da vida...
Boa leitura!
O Editor.
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