Quarta-feira de Cinzas
* Por
Jomar Moraes
Hoje é dia de…
Referindo-me
claramente à expressão que acima se lê, como título desta croniqueta, em 1990
reuni umas tantas delas, e as publiquei num livro intitulado “Cinza das
quartas-feiras”. Esse título tomou como ponto de partida o sintagma locucional
bem conhecido, Quarta-Feira de Cinzas, dia de todas as ressacas etílicas e
morais, porém no calendário católico apostólico romano, o dia vestibular da
Quaresma, suposto período de contrição, de arrependimento e até de autopunição
pelos excessos praticados no auge do tríduo, em que, acima e além de todos os
preceitos e valores, é a carne fremente, indomada e indomável, que vale.
Carnaval, carnevale.
Mas, como ia dizendo e
fiquei na metade do caminho, tomei o sintagma locucional quarta-feira de cinzas
e a partir dele cheguei ao título do livro, que é, repito, “Cinza das
quartas-feiras”. Não se trata de um mero jogo de palavras, mas de um título que
continua fazendo sentido, e que no passado fazia mais sentido ainda, pois nas
quartas-feiras de cinzas, durante seguidos anos, este nosso jornal não
circulava, fato que me valia o único dia de férias que eu tinha por certo, no
decurso de cada ano. Hoje o aperreio aumentou, pois nem bem estamos a duas semanas
da tal quarta-feira de cinzas, o pessoal da Redação começa a telefonar,
lembrando que a crônica da quarta-feira fatal tem de ser entregue
antecipadamente. E sobre isso, falo no texto a seguir transcrito, sem nenhum
constrangimento, porque, sendo meu, como de fato é, posso usá-lo como e quantas
vezes me aprouver.
Sobre ser de crônicas
o citado meu livro, assim o considero, apoiado na indiscutível autoridade de
Fernando Sabino, um dos príncipes da crônica brasileira, que no livro “A falta
que ela me faz”, escreve, a certa altura: “Crônica? Nunca a célebre definição
de Mário de Andrade (sobre o conto) veio tão a propósito: crônica é tudo aquilo
que chamamos de crônica”.
‘As crônicas ora
reunidas apareceram, primeiramente, no suplemento Alternativo (seção “Hoje é
Dia de…”), de O Estado do Maranhão, onde escrevo às quartas-feiras, desde
fevereiro de 1984.
Pelo menos sob um
aspecto este volume tem um mínimo de unidade: seu conteúdo, salvo raras
exceções, é datado, tópico, circunstancial. Corresponde à minha interpretação
de fatos do cotidiano maranhense e brasileiro. Reflete atitudes e sentimentos
decorrentes dos estímulos mais diversos. Tudo, pelo comum, escrito no calor da
hora, e com a pressa de quem é incapaz de fazer crônicas antes de esgotado o prazo
estabelecido pela Redação.
Isso explica pequenas
modificações de forma que, aqui e ali, julguei necessário introduzir nestes
textos destinados à existência por um dia, e que agora podem – quem sabe? –
ganhar alguma sobrevida. Para o que nasceu com destino tão precário, já é
muito.
Ficam, assim, dessas
quartas-feiras que o passar do tempo vai contando às centenas, as cinzas que
encherão os vazios das quartas-feiras de cinzas, quando a ressaca ao
irresistível tríduo não deixa nenhuma alternativa para a edição do Alternativo,
o que dá ao cronista suas curtas, únicas e merecidíssimas férias.
Talvez a publicação
deste livro seja uma comprovação a mais de que Plínio, o Velho, dizia uma
verdade, que tantos repetiram, entre eles Cervantes, e que pode entrar nesta
paráfrase, com o auxílio da conhecida sentença de Mallarmé: nenhum livro é tão
mau que não tenha algo de bom, e tudo, neste mundo, existe para terminar num
livro’.
Depois de
transcrever-me a mim mesmo, entre aspas simples, trago à colação, para terminar,
um belo e tematicamente apropriado soneto de meu saudoso confrade Fernando
Viana, que muito me honrou com sua amizade.
Confete
Este confete eu
guardo: é uma lembrança
do meu, do teu, do
nosso Carnaval!
– três dias de ilusões
que a gente lança
na conta do recalque
universal…
Lembro o Pierrô e a
Colombina mansa,
enlaçados na síncope
irreal
do beijo que, trocado
após a dança,
sublimou nosso
instante emocional!
Só restou da fogueira
desses dias,
sob as cinzas das
doidas alegrias,
este fulvo confete cor
de mel;
restou este confete
ínfimo e triste
– mas, ah! quanta
saudade não existe
num tão pequeno disco
de papel!
(Do livro “Seara”,
Sioge, 1979)
*
Jornalista e escritor, membro da Academia Maranhense de Letras, falecido em
agosto de 2016.
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