O contorcionista
* Por
Assionara Souza
É mentira. O contorcionista sente
dores, sim. Sempre acredita a cada apresentação que esta certamente será a
última. Concentra-se atrás da coxia fazendo e refazendo séries de alongamentos
até chegar a vez de entrar no palco.
Nascido em uma família
de contorcionistas renomados, houve assombro e bater de pratos quando os pais e
em seguida os irmãos e todos os demais parentes e mesmo os amigos descobriram:
O menino não leva jeito pra coisa. O menor jeito. Não. Não leva.
Guardaram-no dentro de
uma caixa durante toda a adolescência para ver se ele adquiria nesse mínimo
espaço habilidades que não viriam naturalmente. Seus longos e finos braços
abraçavam as pernas encolhidas e com a testa encostada aos joelhos ossudos
chorava sem compreender.
Através de pequenos
furos no papelão, assistia ao mover dos corpos compactos enrolados elásticos
soltos lépidos dos seus irmãos que viviam fazendo pouco de sua nula aptidão.
Dois em um. O terceiro era ele.
Até que fugiu de casa
levando somente o sobrenome. E perguntavam onde quer que ele fosse parar se por
acaso não pertencia à estirpe da famosa família formada por excelentes
contorcionistas. Cansado de não saber inventar respostas, disse que sim. E
desde então lá está seu sobrenome em todos os cartazes das principais atrações
do circo.
Todas as noites,
envolto em um círculo de luz, ele desenvolve posturas que não sabe como
aprendeu. E sofre. As dores são tão violentas a ponto de convencê-lo de que
toda profissão, por seu martírio, vem a ser uma espécie de ritual religioso.
*
Assionara Souza nasceu em Caicó (RN), em 1969. Mora em Curitiba. Leciona
Literatura Brasileira e Produção Textual. É mestranda em Estudos Literários
pela UFPR e estuda trânsitos entre literatura e artes plásticas na obra de
Osman Lins. Em 2005, publicou o livro de contos Cecília Não é um Cachimbo, pela
editora 7Letras.
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