Lições de sabedoria e bom senso
A nossa tendência natural, quase que
instintiva, é, salvo exceções (e bastante raras) a de atribuirmos as causas dos
problemas que nos atormentam e em que nos vemos metidos, e não importa a sua
natureza e/ou complexidade, à interferência de terceiros. Raramente nos julgamos
culpados por sua ocorrência, mesmo que nossa culpa seja ostensiva.
Buscamos, amiúde, justificar, e muitas
vezes com argumentos pueris, o injustificável, mesmo que aos olhos de terceiros
seja evidente nossa responsabilidade, total ou parcial, pela ocorrência daquilo
que nos amofina, aborrece e preocupa. Com isso, ou retardamos, ou mesmo
inviabilizamos as soluções. É como no caso das doenças. Caso a insanidade que
nos afete seja diagnosticada de maneira incorreta, dificilmente a terapia
recomendada fará efeito. Em vez de curá-la, a tendência lógica será apenas o
seu agravamento.
Lendo, hoje de manhã, o livro “Trilogia
da paixão”, de Johann Wolfgang Von Goethe – edição bilíngüe, com tradução de Erlon
José Paschoal, da L&PM Editores, 2009 – topei, casualmente, com esta
afirmação do autor que vem a calhar nestas descompromissadas reflexões: “A
causa maior dos nossos problemas sempre oscila entre a ignorância e a
negligência”. A princípio, este trecho ia passando batido na leitura, mas, por
alguma razão, essas palavras ficaram martelando-me no cérebro sem cessar.
Meditando sobre elas, porém, não tive como discordar da observação deste que é
considerado, com justiça, um dos maiores expoentes intelectuais alemães de
todos os tempos.
De fato, Goethe está coberto de razão.
Boa parte dos nossos problemas (e não raro todos eles), é causada ou por
ignorância, por desconhecermos sua raiz, ou por nossa negligência e omissão. Ou
seja, por não agirmos com a devida presteza, ou (pior) com nenhuma, quando eles
“afloram”. No primeiro caso, “diagnosticamos” equivocadamente a “doença”,
inviabilizando a cura, por aplicarmos “remédios” inapropriados e, portanto,
inócuos na tentativa de saná-la. No segundo, não agimos no tempo certo, quando
poderíamos prevenir o que mais tarde pode nem mais ter solução. Ou não é assim?
Sinto que poucas pessoas em nosso País
se dão ao prazer de ler os livros de Goethe, embora haja quantidade razoável
deles traduzida para o português e à nossa disposição. Diga-se de passagem, que
este clássico alemão nutria grande interesse pela cultura brasileira. Em sua
biblioteca, havia 17 livros tratando do Brasil em seus mais variados aspectos.
Ademais, emprestava com freqüência obras que versassem sobre o nosso país, que
lhe causava particular fascínio. Foi notável a influência que exerceu sobre
Machado de Assis e, mais recentemente, sobre a obra de João Guimarães Rosa. É,
portanto, um autor cujos livros não podem faltar na biblioteca de nenhum
intelectual, principalmente se for escritor.
Identifico-me bastante com o pensamento
de Goethe e, quanto mais leio seus dramas, romances, novelas, poemas e ensaios;
mais aprendo e mais quero aprender. Emoldurei, por exemplo, esta sua citação, “cada
novo dia nos repete: espere o impossível, faça o possível” e coloquei-a bem à
minha frente, diante da minha escrivaninha, como uma espécie de lema para inspirar
minha jornada diária. Por isso, não tenho moderação em meus sonhos e
expectativas e nem no meu empenho em concretizá-los, embora tenha consciência
de que sempre deverei me empenhar o máximo apenas para obter o mínimo do que
desejo. .
Por fim, encerro estas reflexões com
esta pérola de sabedoria e de bom senso de Goethe, que partilho com você,
constante e paciente leitor: “Se tomardes a vida com excessiva severidade, que
atração tem? Se a manhã não vos convidar a novas alegrias e se à noite não
esperardes nenhum prazer, valerá a pena vestir-se e despir-se?”. Responda a si
mesmo se é ou não é a forma mais inteligente e racional de encarar cada novo
dia.
Boa leitura!
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Estou precisando mudar o meu modo de pensar.
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