Fera saciada
A humanidade, possivelmente, está à
beira de uma catástrofe de proporções imprevisíveis e parece que ninguém vem se
dando conta de tamanho perigo. E a ameaça não vem do espaço. Está aqui mesmo,
na Terra, se desenhando sinistramente no
horizonte, sem que se tomem as mínimas providências para se evitar o pior.
Não me refiro, como destaquei, a
nenhuma colisão de cometa, ou de meteorito, com o Planeta, o que também é
possível, mas não tão provável. Também não se trata, por exemplo, de súbita e
simultânea atividade vulcânica, de todos os milhares de vulcões espalhados
mundo afora, o que, se ocorresse, mataria milhões e milhões de pessoas
sufocadas por gases e incineradas pelo calor e provocaria nova era glacial, já
que as cinzas dessas magníficas fornalhas naturais impediriam que a luz do sol
chegasse ao solo por anos e mais anos.
Todos esses riscos são possíveis, mas
pelo menos não são iminentes. A catástrofe potencial que pressinto e temo
(aliás, essa idéia me apavora) refere-se à produção de alimentos, cada vez
menor, em virtude dos caprichos climáticos (secas devastadoras em algumas
regiões produtoras e enchentes anormais em outras). Isso mesmo! O perigo que
está no ar, e nos ameaça a todos, é o de uma fome mundial como nunca antes se
viu.
Não se trata de ressuscitar as
previsões, feitas no século XIX, pelo britânico Thomas Robert Malthus,
ridicularizadas pela maioria dos economistas, políticos e administradores, mas
sempre lógicas. Para os que não se lembram do que se trata, refresco a memória
dos esquecidos. Esse sacerdote anglicano lembrou, em memorável e citadíssimo
ensaio, que, enquanto a produção de alimentos no mundo cresce em progressão
aritmética, a população do Planeta aumenta em progressão geométrica.
Não é necessário ser nenhum gênio para
concluir que, em dado momento dessa trajetória, faltará comida para todos. Seus
críticos interpretaram que Malthus previa essa catástrofe para o seu tempo ou
para os anos vindouros. Todavia, ele não estipulou prazo para que isso ocorresse.
Tanto poderia acontecer em anos, quanto em séculos ou até milênios. Mas a
lógica inflexível e matemática é uma só. E é facílimo de concluir qual é.
Tenho, agora, em mãos, a revista
“IstoÉ”, de nº 2014, de 11 de junho de 2008 e o editorial dessa publicação,
redigido pelo seu então Diretor Editorial, Carlos José Marques (não sei se ele
ainda é), começa assim: “A fome no mundo chegou a níveis críticos”. Pois é, não
se trata mais de concordar ou discordar de Malthus, mas de constatar um fato. E
o ilustre jornalista não é nenhum catastrofista
ou alguém ávido por sensacionalismo. Baseou seu texto em números, em dados
concretos, no caso, as conclusões do Fundo para a Alimentação e Agricultura das
Nações Unidas (FAO) na conferência que promoveu em Roma na primeira semana de
junho de 2008.
O alerta foi feito a quem de direito.
Ou seja, a autoridades de 180 países, presentes ao encontro. Estas, no entanto,
em vez de apontarem soluções práticas e emergenciais, por mínimas que fossem,
perderam precioso tempo discutindo, apenas, aspectos políticos da questão da
escassez: o uso de alimentos como arma para constranger governos não-afinados
com os interesses das potências; o embargo a Cuba; o protecionismo comercial
dos países ricos e outras tantas picuinhas.
O documento final da reunião adverte que
“se algo não for feito urgentemente o aumento de preços e a escassez de
produtos vão se alastrar de uma forma descontrolada”. Já estão se alastrando. É
verdade que o Brasil (bendito Brasil!) acabara de emplacar uma safra agrícola
recorde. Mas vários e vários países produtores colheram metade ou menos do que
colhem usualmente. Vai daí...
Vejam em que enrascada a humanidade
está metida (e a maioria nem se dá conta disso). Um relatório da mesma FAO,
divulgado em 2004, dava conta que 75% das espécies vegetais utilizadas na
alimentação humana já se perderam, irremediavelmente. Ou seja, estão extintas.
Ressalta que apenas três tipos de sementes (arroz, trigo e milho) respondem por
dois terços da energia dietética consumida pelo mundo.
E tem mais. A FAO constatou que em
vinte anos, o setor agrícola e de pesca despencou de 22% para 12%, ou seja,
quase à metade. E a população, enquanto isso... Nos países pobres,
eufemisticamente chamados de “em desenvolvimento”, essa queda foi ainda mais
abrupta. Precipitou-se dos 30% para 15%!
Sabem o que mais a FAO informou? Que na
oportunidade, 41% das terras do Planeta já eram desertos ou estavam em
acelerado processo de desertificação. A cada ano, desaparecem 40 mil
quilômetros de florestas tropicais, que se transformam em cinza e carvão. Nesse
ritmo (e na verdade a devastação está aumentando e não diminuindo), até 2028,
pelo menos 15% da biodiversidade do Planeta terá desaparecido.
Enquanto isso, a ganância, o egoísmo, a
ambição desmedida e a burrice campeiam. Relatório do Programa das Nações Unidas
para o Desenvolvimento, também de 2004, informava, naquela oportunidade, que o
patrimônio de apenas 358 pessoas era maior que a renda anual de 45% da
população da Terra (que então era de 6,7 bilhões de habitantes e que hoje é de
7,6 bilhões).
Em treze anos, essa absurda concentração
de recursos, não tenham dúvidas, aumentou de forma ainda mais escandalosa. As
200 maiores corporações, que representavam, então, um terço das atividades
econômicas mundiais, empregavam, na oportunidade, somente 0,75% (menos de 1%,
portanto) da mão de obra disponível no Planeta. Hoje, esse número de empregos é
muito menor.
Uma das coisas que nunca consegui
entender, desde criança, é o fato de haver tantas pessoas famintas, sem sequer
um pedaço de pão duro e amanhecido para tapear a fome, em um mundo que não faz
muito ostentava tanta abundância. E num período de escassez mundial, quem o
leitor acha que será penalizado e condenado a morrer de inanição? O rico e
poderoso? Quem pensar assim é o ingênuo dos ingênuos.
Enquanto houver esse tipo de
contradição, jamais poderemos considerar o homem como “civilizado”, a despeito
dos seus avanços nos mais diversos campos do conhecimento, como os da ciência,
tecnologia, artes, filosofia etc. O escritor russo Máximo Gorki, no conto “O
avô e o netinho”, dá a sua explicação para esse comportamento egoísta e maldoso
que ainda impera mundo afora. Colocou, na boca de um personagem, esta dura
constatação: “O homem de barriga cheia é uma fera e nunca tem pena do que está
faminto. O farto e o apenas saciado são inimigos – sempre um é uma felpa no
olho do outro, por isso nem um, nem o outro pode sentir piedade pelo que é seu
inimigo”.
Infelizmente, o que ainda se vê no
mundo (e que se teme que venha a piorar muitíssimo), é o homem como inimigo do
homem, em vez de seu aliado para o bem comum. Ainda assim, conservo, contra
todas as evidências, uma pontinha de otimismo (sempre fui incorrigível
otimista). Mas esta torna-se crescentemente menor em vista do que constato,
leio, vejo e ouço a respeito dessa iminente catástrofe, sem que ninguém mova
uma palha sequer para evitar. Afinal, otimismo não é e nem deve ser sinônimo de
alienação.
Boa leitura!
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Ontem o setor de carnes desmoronou. Mais uma má notícia no campo alimentício.
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