A cultura engolida por templos
* Por
Francisco Simões
Fiquei triste quando
vi uma tradicional livraria, em Ipanema, no ano de 1999, ser fechada, entrando
no seu lugar uma loja de roupas femininas. Esta ainda está lá. Fica na Av.
Visconde Pirajá indo para a rua Aníbal de Mendonça. Felizmente agora já temos
mais duas novas e excelentes livrarias no bairro.
Na época escrevi uma
poesia com o título CULTURA DE SAIA CURTA. Podem lê-la no meu site pessoal.
Isso, entretanto não
era tudo ou significava muito pouco diante do que veríamos mais pra frente.
Quando me refiro à Cultura (com C maiúsculo, sim senhor) não relaciono apenas
livrarias, mas também teatros, cinemas etc. O fato acima ocorreu em 1999 e
depois vimos que também outros estavam a engrossar o desmonte de símbolos
culturais nossos. Estes já o estavam fazendo... em nome da fé!!
Templos já eram
abertos por todo canto, em todo tipo de prédio, dos mais modestos aos mais
luxuosos. Outro dia li um artigo de certo jornalista, creio que da Folha de S.
Paulo, onde, usando de humor e ironia, ele dizia “estar abrindo uma religião”,
ou uma igreja. Pretendia “se beneficiar” das inúmeras facilidades fiscais entre
outras benesses concedidas por nossas leis para as igrejas.
Era um sarro realmente
muito bem humorado, mas profundamente sério, praticamente uma denúncia que
infelizmente a muitos deve ter passado despercebido ou nem ter despertado algum
interesse. Na matéria ele apresentou uma relação imensa de 113 nomes
verdadeiros de “novas igrejas”, que estão por aí, alguns muito exóticos,
extravagantes e outros ridículos, com todo o respeito.
Voltando ao começo,
nas minhas andanças pela Europa quando lá morei por quatro longos períodos, fui
encontrando templos de igrejas “nascidas” no Brasil e que já fincavam algumas
raízes em Portugal e também em Espanha. Não se surpreendam, mas na França
também já havia alguns sinais desses “novos tempos” (ou seriam “novos
templos”?). Confesso que fiquei surpreso.
Enquanto no Brasil
alguns cinemas e até teatros eram fechados, comprados por particulares e
transformados em “templos religiosos”, no ano de 1998, quando passeávamos por
Cascais, Portugal, em companhia de um casal amigo, de repente vi aquele prédio
muito bonito, com vidros enormes, uma fachada elogiável, e lá no alto escrito
com todas as letras: “Templo da Igreja Universal”, etc e tal.
Antes eu já soubera
que aquilo estava ocorrendo por outras cidades portuguesas e também espanholas.
Um dia, creio que em 1995, assisti em reportagem da televisão RTP que estaria
havendo uma forte pressão para que a cidade do Porto vendesse seu principal e
histórico teatro, uma obra prima de arte, justamente para os donos da mesma
igreja. Ocorre que aquele teatro era, e é ainda hoje, felizmente, patrimônio
nacional, portanto pertence ao povo, se posso dizer assim.
Noutra reportagem, em
outro dia, fiquei chocado com o que assisti pela TV portuguesa. Alguns artistas
e intelectuais lusos decidiram defender aquele patrimônio e se instalaram com
mesas e cadeiras, em frente ao referido teatro. Através daquela manifestação e
de um abaixo-assinado eles tentavam chamar a atenção do governo local para o
fato. Até aí tudo bem, exerciam seu sagrado direito na defesa do belo
patrimônio público e o faziam pacificamente.
De repente as portas
do teatro se abriram e lá de dentro algumas pessoas, “armadas” de vassouras e
outros apetrechos, avançaram contra os intelectuais e artistas tentando
agredi-los. Eram adeptos da tal igreja que por pouco não provocaram uma
sangrenta luta entre irmãos. Felizmente a polícia estava por perto e evitou o
pior. Fiquei muito triste, decepcionado e preocupado.
Em nosso país continua
a compra de cinemas e teatros, dos poucos que restam, e também de emissoras de
TV e de rádio por pessoas que se identificam como pastores, missionários, ou
algo assim e donos de tal e tal igreja. Nunca vi tanta gente falando em nome de
algum deus, sendo que uns operam “milagres” ao vivo pela TV. Também “expulsam
demônios” agindo sempre em nome d’Ele.
Na nossa TV a cabo,
aqui em Cabo Frio, correndo pelos canais encontramos às dúzias os que ou
pertencem a eles ou transmitem, em vários horários, programas daqueles
senhores. Isso em diversas cidades e em diferentes Estados da Federação.
Não pensem que ao
tratar deste assunto irei defender alguma das nossas religiões, talvez a
católica, já que fui aluno de Colégio Marista além de ter sido criado em
família extremamente religiosa. Não se trata disso não. Muito pelo contrário.
Já de há muito tenho uma visão bem diferente da que fui, digamos, catequizado.
Não quero polemizar
com ninguém, respeito a posição de cada um. Afinal em minha vida tenho sido
atingido por várias vezes pelas regras, pelos dogmas desta Igreja. Meu
relacionamento com a católica é de há muito bem distante, distante mesmo, e nem
preciso dizer de quantos motivos eu tenho para me manter assim. Um dia eu
contarei tudo.
Ao escrever este texto
não pretendi tomar partido de nenhuma delas, muito menos desconsiderar qualquer
uma, para além do horizonte das merecidas críticas. Todavia, sobre a católica
então eu teria certamente que escrever um livro, não apenas uma crônica.
Sei, porém, que não
teria competência para manter polêmica com quem quer que fosse, mas razões não
me faltam para queixas e muitas críticas, afinal os assuntos estão na mídia
internacional, diariamente, e a história da mesma tem manchas que não
recomendam quem vive a ditar regras para a sociedade e a querer defender os
mais pobres. Desculpem, mas vejo muita hipocrisia a abusar da boa fé das
pessoas.
Não julguem que sou
ateu. Já o disse e repito novamente, não sou, e nem poderia ser, tendo um
contato maravilhoso com a natureza como temos aqui. Acredito sim em algo maior,
talvez uma mente pensante, ou sei lá o que, mas que reina justo na Natureza,
como, aliás, já o admitiam importantes e renomados filósofos, jamais em templos
ou com procuração para homens falarem em seu nome.
Enquanto isso nossa
cultura com certeza vai continuar a ser engolida por templos e pastores vão
penetrando na política nacional formando uma força à parte que ali estará
sempre para defender os interesses, não dos adeptos, mas deles próprios.
(Fevereiro/2011)
• Jornalista, poeta e escritor
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