Feri-me, mas me curei
As cicatrizes são as verdadeiras
medalhas que atestam o mérito de um guerreiro. Onde quer que vá, estão com ele.
Não as retira nem quando se despe para banhar-se ou para dormir. Estão
estampadas em sua pele. Acompanham-no vida afora a atestarem que se feriu,
porquanto lutou, mas que teve forças para se curar.
Sei que a metáfora é um tanto
inadequada, ainda mais levando em conta que sou absolutamente avesso a qualquer
tipo de violência. O “guerreiro” a que me refiro não é, pois, o sujeito que, de
armas na mão, investe contra outra pessoa num campo de batalha, tentando
matá-la para não ser morto. Oponho-me a qualquer guerra, mesmo as
eufemisticamente classificadas como de “defesa”. Afinal, quando um não quer,
dois não brigam.
Essas explosões de ódio e de violência
já causaram inúmeras desgraças, História afora. Resultaram na morte de milhões
de pessoas, a maior parte das quais inocentes, apenas para satisfazer a ambição
e a sede de poder de tiranos. A esse tipo de guerra abomino, e irei abominar
enquanto existir.
O guerreiro a que me refiro, porém, é
quem luta pela vida. Sou eu, é você, são seus amigos e conhecidos etc. São os
que todas as manhãs, saudáveis ou doentes, dispostos ou indispostos, alegres ou
tristes, saem de casa em busca do sustento, do sucesso e da felicidade.
Esta é uma guerra sem fim, que
atravessa gerações e que se repete sempre, ano após ano, século após século,
milênio após milênio, posto que com novos personagens e cenários bastante
diversos. Sua maior batalha, portanto, é a da sobrevivência. Contudo não a
qualquer custo, mas com honra e dignidade.
É uma luta às vezes insana, em que nos
vemos muitas vezes confrontados com situações críticas e aflitivas, que surgem
à nossa revelia, sem que tenhamos a menor condição de prever. E não raro nos
ferimos com maior gravidade nas circunstâncias aparentemente mais inocentes,
triviais e potencialmente menos perigosas, tomados, que somos, de surpresa,
inertes e indefesos.
Ora esses ferimentos vêm, por exemplo,
de pessoa que amamos sem restrições, que acreditávamos nos fosse leal e fiel e
que, no entanto, nos apunhala pelas costas, desmerecendo nossa confiança. E
como isso dói!
Trata-se de situação das mais comuns e
nem assim conseguimos nos prevenir para elas. Ora esses ferimentos provêm, por
outro lado, de algum amigo, desses que estimamos como a um irmão, em cujas mãos
seríamos capazes de depositar nossas vidas e que, no entanto, nos trai, sem
essa ou mais aquela, não raro por míseros “trinta talentos” (como Judas fez com
Jesus Cristo).
Muitas dessas feridas não cicatrizam
jamais. Permanecem abertas, em carne viva, doendo e sangrando e não raro
arruínam uma vida. Claro que não podemos ser sensíveis a esse ponto. Os que se
deixam abater por circunstâncias, como essas, jamais ostentarão as medalhas do
bom combate, representadas pelas cicatrizes. Não foram fortes para se curar.
Perderam uma batalha e deram a própria guerra por perdida. Os consultórios de
especialistas estão abarrotados de gente assim, que se feriu e não soube como
se curar.
Há, por exemplo, quem jamais volte a
amar, condenando-se à perpétua solidão. Há quem não confie em mais ninguém,
tornando-se arredio, brusco e hostil e espantando todos ao seu redor, inclusive
quem poderia lhe prestar amparo e auxílio. São atitudes até compreensíveis,
embora nada pragmáticas e, sobretudo, autodestrutivas.
Não há demérito algum em cair. Há , porém, quando
não temos forças ou não sabemos como nos levantar. A vida não é constituída de
um só dia e nem de um único episódio. O fracasso de hoje, pode se constituir no
sucesso de amanhã (e vice-versa).
Compete-nos adquirir maleabilidade. É
prudente sempre termos alternativas, um “Plano B” por exemplo, na eventualidade
do fracasso do que planejávamos (não importa se um relacionamento afetivo
estável, uma atividade profissional para a qual nos preparamos com afinco por
anos ou a concretização de um sonho que estava em nossas mãos e nos escapou por
entre os dedos).
Há um poema belíssimo, de Rabindranath
Tagore, cujos versos finais dizem:
“Quando
eu estiver contigo no fim do dia
poderás ver as minhas cicatrizes,
e então saberás que eu me feri
e também me curei”.
Seja, pois, o guerreiro do cotidiano
que, quando ferido, saiba se curar e ostentar, com orgulho, a medalha
indestrutível das suas cicatrizes.
Boa
leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Ah, de cicatrizes eu entendo. E como!
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