Discurso de posse 2
* Por
Roberto Marinho
Minhas senhoras
Meus senhores
Meus amigos
Senhores acadêmicos
Ao longo de sessenta
anos de convívio com Austregésilo de Athayde, ao analisarmos os problemas e
inquietações que vinham desaguar na redação em que cada um exercia o ofício que
nos identificava, jamais nos separamos, após um franco debate de idéias, sem um
acordo de julgamento.
A única vez em que o
velho e querido companheiro não admitiu contestação foi quando, ao receber a
carta em que alinhei os motivos que me induziam a resignar à generosa indicação
do meu nome para a Academia, decidiu não apreciá-la.
Surpreso, mas
empenhado em preservar uma amizade e uma admiração de toda a vida, assumi o
desafio de superar os meus méritos para vir ocupar uma cadeira ao vosso lado.
A sua ausência, neste
momento, traz-me a convicção de que Austregésilo pressentiu que era aquele o
nosso último encontro e portanto, não dispunha de tempo para discutir o que se
lhe afigurava menos uma homenagem à minha pessoa, do que a convocação para o
cumprimento de um dever.
Na verdade, como
presidente desta Casa, Austreségilo imprimiu-lhe uma orientação pela qual,
ampliando e aperfeiçoando o cultivo das letras e das mais diversas atividades
artísticas, insistiu em conciliá-las com a sua maior difusão por todos os
segmentos da sociedade brasileira.
O país não lhe parecia
necessitado apenas de uma distribuição mais justa da renda econômica, como
também de uma participação mais abrangente na formação do nosso patrimônio
cultural.
Nesse sentido, quando
se referia à importância da cultura de massa propiciada pela expansão da mídia
eletrônica, estimulava as minhas atividades de homem de comunicação,
reconhecendo-me o cuidado primordial de procurar servir à massa, sem desservir
à cultura. Por essa razão, considerou imprescindível mobilizar os meus recursos
pessoais e institucionais para dar continuidade a essa tarefa no plano
acadêmico.
Permiti-me assim, que
as minhas primeiras palavras nesta tribuna, repassadas de saudade, sejam
voltadas para a sua memória, respondendo à sua chamada: "Presente,
companheiro".
Senhores acadêmicos
O mestre que iniciou a
minha formação de jornalista foi Irineu Marinho, meu pai. Por seu intermédio,
desde a adolescência, tomei conhecimento das questões que agitavam o ambiente
de trabalho não só na Gazeta de Notícias, da qual foi secretário, mas na
atmosfera comum dos grandes órgãos da época.
Guardo a lembrança de
que entre as matérias de maior interesse dos leitores, além das questões
políticas, ressaltavam-se os debates literários, as atividades dos escritores,
não apenas no lançamento de suas obras, como nos seus encontros e conferências,
mantendo-se assim uma tradição de apreço aos valores espirituais que remontava
aos últimos anos do século passado.
Vale recordar que a
geração boêmia de grandes poetas e romancistas da década inicial deste século
tinha suas crônicas ou folhetins estampados na primeira página de nossos
jornais, caracterizando o Rio de Janeiro como a capital cultural do país.
E no momento em que,
incentivados pelas propostas pioneiras de Medeiros e Albuquerque e Lúcio
Mendonça, empolgaram-se pela idéia da fundação desta Casa, concretizada por
força da autoridade de Machado de Assis, a sua primeira reunião preparatória
ocorreu na redação da Revista Brasileira, então dirigida por José Veríssimo,
instaurando-se afinal solenemente naquelas mesmas salas em 1897.
Não há exagero em se
dizer que a história da Academia pode ser pesquisada nos registros dados pela
imprensa aos seus eventos marcantes. Assim aconteceu quando, em 1906, o
ministro Seabra encaminhou projeto de lei cedendo instalações no Silogeu para
sede da instituição.
Naquele mesmo ano, a
controvérsia sobre a eleição de Mario de Alencar refletiu-se em acirrada
polêmica envolvendo a Notícia e O País. Também os incidentes verificados na
posse de Euclides da Cunha, atingindo o presidente Afonso Pena, foram debatidos
em todos os jornais.
As colaborações de
Bilac, Laet, Coelho Neto e outros eminentes acadêmicos elevavam o estilo
redacional de vários órgãos, destacando-se no Correio da Manhã uma coluna de
crítica cuja autoridade se manteve de José Veríssimo a Álvaro Lins. Dessa
maneira os encontros semanais na Academia prolongavam-se na arena das colunas
diárias. Essa integração da literatura com o jornalismo trazia à memória a
previsão de Afrânio Peixoto de que o jornal tendia a substituir o livro.
Não é de admirar que
quando Irineu Marinho fundou A Noite, assinalando uma nova época na imprensa
brasileira tenha desde logo aberto suas colunas a escritores da altura de
Felinto de Almeida.
E em julho de 1925,
com o surgimento de O Globo, meu pai reiterou a sua vívida consciência de que,
na alma nacional, interligam-se os objetivos concretos de natureza política e
econômica, com os anseios espirituais de ordem artística, cívica e religiosa.
Com isso, assegurou ao novo órgão - embora abalado nos seus primeiros dias pela
perda de seu fundador - uma identificação com a opinião pública que, acredito,
constitui o segredo de sua atuante presença em todas as fases da história
republicana em mais de seis décadas.
Nos anos 20,
acompanhamos os movimentos políticos e militares que exigiam uma prática mais
autêntica da democracia que iriam implantar-se com a Revolução de 30.
Simultaneamente, preocupamo-nos em registrar que aquele anseio de renovação
estendia-se ao plano cultural, fermentando a partir da exposição de Anita
Malfatti e chegando afinal ao desafio da Semana de Arte Moderna.
Não escapou porém à
nossa observação que o processo só atingiu a sua culminância na sessão da
Academia em que se enfrentaram Graça Aranha e Coelho Neto.
Essa circunstância
deixou bem claro que esta Casa tem sido o centro fundamental de ressonância da
evolução do país no plano cultural. Machado de Assis já lhe atribuía, nos
primeiros dias da República, o papel de resguardar a unidade nacional no âmbito
literário, em confronto com o caráter divisório da federação política.
Na própria seleção dos
patronos e dos membros fundadores refletiu-se esse senso de responsabilidade,
inspirado na convicção de que o artista só atinge o ideal de universalidade
quando se alicerça no compromisso com a sua nacionalidade.
É o que constato ao me
voltar para as grandes figuras que me antecederam na cadeira que hoje passo a
ocupar.
***
Varnhagen, historiador
e diplomata, soube ir às fontes para documentar o nosso passado. Agiu como os
repórteres na busca dos fatos, antes de se atrever a interpretá-los. Graças ao
seu espírito de pesquisa, muitas informações refluíram dos arquivos, as quais,
enriquecidas pelas notas eruditas de Capistrano de Abreu e Rodolfo Garcia,
redundaram nos cinco tomos fundamentais da História Geral do Brasil, obra maior
do meu patrono nesta Casa.
É oportuno acentuar
aqui o ponto de encontro entre o jornalista que capta a verdade do presente e o
historiador que procura captá-la no passado. A verdade factual é, assim, para
ambos, a substância mesma do testemunho escrito. Uns e outros estão a serviço
da mesma causa. E isso explica por que Oliveira Lima, fundador da cadeira em
que me emposso, conciliou as duas vocações, sem deixar de ser diplomata a seu
modo, sem transigência e concessões.
***
O sucessor de Oliveira
Lima, Alberto de Faria, veio de jornal, como colaborador do Jornal do Comércio,
para abrigar-se sob as glórias da Academia, graças ao livro magistral em que
soube trazer à luz o caminho de lutas de Mauá em favor do progresso do país.
***
Dois historiadores,
Rocha Pombo em 1933 e Rodolfo Garcia em 1934, vieram depois. O primeiro foi
também poeta, romancista e contista, além de servidor da narrativa histórica,
mais didática que reflexiva. O segundo, companheiro de Capistrano, soube ser,
nos seus relatos do nosso passado, um modelar escritor, na limpidez, na
sobriedade e até no bom humor de seus textos.
***
Se esses dois
antecessores pertencem ao meu mundo, porque os vi, e com eles cruzei os meus
caminhos, aquele que se seguiu acha-se incorporado às minhas saudades.
Refiro-me a Elmano Cardim, que sempre soube ser um modelo de amigo e
companheiro, desses que nascem para deixar de si a recordação a que se associa
a mais pura emoção. Seu estilo de jornalista constituiu para mim uma lição
inesquecível.
***
Eis-me aqui, agora,
diante de Otto Lara Resende, meu antecessor imediato nesta Academia e
companheiro de tantos anos. Singular como escritor e como figura humana.
Foi sempre o
jornalista que, embora voltado para o momento que passa, orientou-se por
valores perduráveis. Nunca renunciou à liberdade a serviço da verdade.
Liberdade de denunciar o erro, o embuste, a corrupção, enfim, a falsificação.
Como também a de aplaudir, a de reconhecer eventuais equívocos, a de lutar
permanentemente por uma sociedade mais justa.
Repartindo-se entre as
letras e o jornal, soube repetir a lição de Alencar e Machado. O que lhes saiu
da pena, mesmo quando a inspiração adveio do fato essencialmente jornalístico,
ganha foro de perdurabilidade, a exemplo do que fez o mestre de Dom Casmurro
quando nos falou do sineiro da glória. Ou ao recordar o velho Senado, numa
página de antologia.
Otto constituiu um
exemplo da boa formação humanística que sempre nos veio das montanhas de Minas
Gerais. Ali se familiarizou com os clássicos. Aprendeu a dar à palavra o
aprimoramento da obra de arte, empregando-a no sentido exato, no ritmo do
período, numa elegância de estilo sem excessos nem derramamentos.
Quem conheceu Otto
Lara Resende, por seus livros, artigos e reportagens, não apreendeu
completamente a sua personalidade, visto que era sobretudo o companheiro do bom
convívio, com a arte e o gosto de conversar manifestado na frase de espírito,
na reminiscência feliz, na murmuração jovial em que se destacava pela
espontânea vivacidade de seus reparos inesquecíveis.
Essa arte de conversar
ele a trouxe para o Rio, juntamente com a roda de amigos de Belo Horizonte -
Carlos Castelo Branco, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino.
Isso explica por que
Otto, o grande conversador do grupo, nos deixou como escritor uma bibliografia
pequena, embora de grande dimensão literária. Alinham-se nela, um romance, O
braço direito e cinco volumes de novelas e contos: O lado humano, 1952; Boca do
inferno, 1962; O retrato na gaveta, 1962; A cilada, 1965; e As pompas do mundo,
1975.
Colaborador dominical
de O Globo, sabia ser o comentarista agilíssimo da vida corrente. E quando
passou a atuar no jornalismo diário, em sua coluna na Folha de São Paulo nos
últimos anos, mantendo o tom coloquial que lhe era próprio, deixou
indelevelmente registrada a vivacidade do seu espírito para todos aqueles que
não tiveram com ele a oportunidade e o privilégio de um diálogo pessoal.
Senhores acadêmicos
Agradeço ao meu dileto
e fraternal amigo Josué Montello ter aceito a incumbência de me transmitir
nesta solenidade os votos de boas-vindas desta Casa, além de me haver orientado
com sua grandeza de inteligência e coração, nos primeiros passos que me
conduziram à vossa presença.
Este estado de
espírito deixou-me à vontade para vos fazer uma confidência.
No momento em que me
foi entregue em casa o fardão acadêmico, com chapéu bordado e espada, acudiu-me
a constrangedora idéia de estar aderindo a uma formalidade anacrônica. Mas logo
a impressão se dissipou.
Compreendi que se
trata de uma veste que transcende o tempo em que foi criada. Análoga á toga do
magistrado, à farda do soldado, ao hábito do sacerdote.
Simboliza a adoção de
um compromisso de vida. E justamente esse caráter marca a sua fundamental
diferença da fantasia que se usa em datas de festa em portanto, de
descompromisso.
Conscientizei-me de
estar me comprometendo a partilhar convosco a defesa da dignidade da palavra.
Como certa vez observei, a comunicação não é privilégio do homem. Aquilo que
nos distingue é a compreensão. Com isso, queremos dizer que não adianta
distribuir informações se não estivermos dispostos a discuti-las. Utilizando-se
a força dos meios de comunicação, pode-se talvez vencer, mas não convencer. O
convencimento exige diálogo, em que nos arriscamos á troca de palavras.
Quando o jornalista
atreve-se a imprimir editoriais e comentários, aventurando-se a refletir o
pensamento do homem comum, corre o risco atinente à sua profissão.
Quando o cientista,
firmado em raciocínios e experiências, formula leis essenciais da natureza ou
da sociedade, corre o risco de transmitir a sua concepção do mundo para os
homens de seu tempo.
Quando o artista se dispõe
a elaborar em prosa ou verso, experiências humanas que reflitam ou transbordem
as de sua época, corre o risco da criação.
Nessas diversas
modalidades, fica-se sujeito à rejeição ou à consagração. Joga-se assim o
destino das vocações na força comunicativa das palavras.
Essa circunstância
acrescenta a esta Casa. além da atividade criadora de seus membros, a
responsabilidade específica do cuidado com a linguagem.
Não para
circunscrevê-la a rígidas normas gramaticais, excluindo-a da comunicabilidade
com a fala coloquial. Nem tampouco para jogar levianamente com o vocabulário, a
exemplo de alguns dos primeiros exercícios do modernismo que só iriam atingir o
ponto definitivo de equilíbrio na obra admirável de Guimarães Rosa.
Por outro lado abre-se
nos dias atuais uma nova frente de ameaça às palavras em virtude da sua
crescente substituição por imagens eletrônicas ou informes de computadores.
As imagens, sejam
diretas ou transmitidas por irradiações, são sinais que nos chegam do mundo,
marcando a sua presença em nosso espírito. As palavras são sinais pelos quais
impomos e atribuímos ao mundo um sentido espiritual.
Não nos é lícito
renunciar a essa primazia.
***
Cabe ainda observar
que o computador aumenta a velocidade do pensamento, mas não a sua profundidade.
O que é mais grave: a máquina não erra. Enquanto o homem tem a faculdade e o
direito de errar.
É um ser
essencialmente errante que viaja para o futuro, sem receio de incidir em
equívocos no que afirma, pois lhe é sempre possível corrigi-los.
É a esse bom combate,
no sentido de colaborar para que não se degrade a nossa língua, reduzindo as
nossas fronteiras espirituais, que me disponho, na medida de meus préstimos, a
ficar ao vosso lado.
Chesterton dizia que
em certas horas de crise, as palavras perdem sentido. Ficam loucas. Na atual
perturbação do Brasil não estão enlouquecendo apenas as palavras, mas todos os
símbolos nacionais a partir da moeda, estendendo-se ao sistema de segurança
pública, à vida urbana, às instituições jurídicas e políticas, á própria
Constituição.
*
Jornalista, empresário e membro da Academia Brasileira de Letras.
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