Carnaval
* Por
Antonio Lobo Antunes
O Carnaval eram homens
vestidos de mulher, de lenço na cabeça, muito rouge na cara e enchumaces a
fingir de peito, aos encontrões uns aos outros à porta das tabernas. Eram
serpentinas atiradas das varandas por meninas solitárias mascaradas de
espanholas, serpentinas que ficavam março, abril, maio a desbotar nos ramos das
árvores até a chuva as levar. Era eu na matiné do São Luís, campino pindérico
enrolado de vergonha no fundo de um camarote, a olhar de longe príncipes, fadas
e polícias (as três únicas profissões que à época achava sublimes e ainda
agora, no mais secreto de mim, continuo a achar) que se jogavam saquinhos,
atafulhavam a boca uns dos outros de papéis coloridos, iniciavam namoros de
rasteiras e puxões de cabelo (formas de dizer amo-te aos oito anos antes de
complicarmos tudo com flores e rapapés) e desfilavam no palco, aplaudidíssimos,
a receberem prêmios de bicicletas e caixas de bombons enquanto eu, campino
reles, os seguia roído de admiração invejosa, lutando contra as lágrimas a chupar
o polegar.
No Carnaval dava-me
melancolicamente conta da minha condição terrestre: num mundo povoado de
piratas-da-perna-de-pau, de mosqueteiros, de generais com bigodes de rolha
queimada e de Brancas de Neve sem anões, a chamarem pela madrinha aos gritos,
eu permanecia o mesmo triste futrica de joelhos esfolados desejoso de
assassinar o universo com a pistola de água comprada na capelista que se
avariava ao segundo jato, adereço inútil cuja única vantagem consistia em
enfurecer a minha mãe (— Não quero essa porcaria aqui em casa) enxotando-me
para o jardim onde me acocorava num degrau, de revólver pendurado na mão como
um Al Capone sem emprego, a olhar a coluna de formigas que subia ao comprido de
uma racha de parede indiferente à minha desdita sem remédio.
Avós desvanecidos
passavam na Estrada de Benfica a caminho da Foto Águia de Ouro, tangendo noivas
minhotas, Zorros de espada e mascarilha, imperadores romanos e lavadeiras de
Caneças em miniatura, comigo à janela, com o bibe de todos os dias, a engolir
as lágrimas de garganta apertada. Num bairro de coroas de papel e túnicas
douradas, com os homens vestidos de mulher a vomitarem o tinto no passeio,
sentia-me insignificante e supérfluo: ninguém me admirava, se extasiava, se
interessava. A cozinheira, com dó de mim (as cozinheiras eram seres compassivos
que tentavam levantar-me o moral deixando-me rapar o fundo das tigelas de
mousse) vinha anunciar-me que estava ali o Cabecinha para brincar comigo.
O Cabecinha morava
numa cave da Travessa do Vintém das Escolas, era feio, pobre, órfão de pai e
tratava-me por menino devido a uma conformada consciência das diferenças
sociais que o obrigava a não me ganhar nos jogos de futebol de baliza a baliza,
muda aos cinco e acaba aos dez. Vingado por existir alguém mais miserável do
que eu ordenava à cozinheira que mandasse vir o Cabecinha (soube no outro dia
que o Cabecinha faleceu de uma doença tão obscura como a sua vida, Manuel da
Costa Cabecinha baixo e humilde, sozinho na cave — Entre menino entre menino depois
da mãe morrer) e o Cabecinha surgiu de rei mouro, com turbante e tudo, montado
num cavalo de pau.
Estava magnífico,
refulgente, digno de um harém de odaliscas e nunca compreendeu (— Entre menino
entre menino) o motivo porque voltei as costas e, durante anos, deixei de lhe
falar. A coisa que mais me arrependo na vida é ter cortado relações com o
Cabecinha. Se ele não tivesse morrido ia hoje mesmo à Travessa do Vintém das
Escolas para nos mascararmos de mulher, de lenço na cabeça, imenso rouge na
cara e enchumaces a fingir de peito a fim de passearmos aos encontrões um ao
outro de taberna em taberna, no meio de príncipes, fadas e polícias, e
desaparecermos de braço dado, Estrada de Benfica fora, a caminho de um país sem
pobreza e sem caves enquanto as meninas espanholas nos atiravam das varandas
serpentinas que ficavam a desbotar-se nos ramos das árvores até a chuva as
levar.
(in Livro de Crônicas,
Dom Quixote)
* Escritor e psiquiatra português.
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