Carnaval e Literatura
A quantidade de livros, de escritores brasileiros, tendo por
tema o Carnaval, causou-me grande surpresa. Não achava que havia tantos! Não
deveria me surpreender, mas surpreendeu. Bastava que eu atentasse para alguns
aspectos óbvios para não ficar tão surpreso. Afinal, ao lado do futebol, essa
festa popular, tão combatida por alguns moralistas de plantão, não raro com
razão por causa determinados aspectos negativos que tem (violência,
licenciosidade etc.etc.etc.), mas abraçada por milhões, é, sem dúvida, uma das
grandes paixões nacionais. E antecede em séculos à introdução do também
apaixonante esporte bretão em nosso País. A forma como o brasileiro festeja o
Carnaval é peculiar, já que esta festa pagã ocorre não somente nesta terra
descoberta por Cabral, mas em várias outras partes do mundo, embora em nenhuma
com a mesma paixão demonstrada por nós.
Eu estava ensaiando escrever uma crônica, com ostensivas
críticas aos escritores brasileiros, por explorarem tão pouco esse tema, por se
tratar de uma das principais, se não a principal manifestação cultural
brasileira. Por desencargo da consciência, como sempre faço antes de criticar o
que quer que seja, resolvi fazer uma breve pesquisa, para ver se tinha razão e
se minha impressão era a correta. Não era! Em primeiro lugar, decidi dar uma
olhada na estante da minha própria biblioteca. E, de cara, topei com dezenas de
livros sobre o Carnaval, praticamente de todos os gêneros, de romance à poesia
e de escritores consagradíssimos. Fiquei a princípio surpreso, por assim dizer,
boquiaberto e na sequência fiquei constrangido com a minha falta de atenção em
relação ao que leio. É certo que minha leitura é copiosa e variada e não raro
perfaz uma média de três livros por semana. Mas... isso não justifica o fato de
não haver atentado como deveria para os temas abordados nos livros que leio.
Em princípio, julgando tratar-se apenas de uma coincidência
o fato de ter em minha biblioteca tantas obras literárias tratando do Carnaval,
resolvi consultar escritores amigos. E não tardou para eu receber por e-mail
muitas e vastas listagens elencando obras tratando dessa festa popular. Ainda
bem que antes de redigir a tal planejada crônica, resolvi checar se estava
certo sobre minha impressão inicial ao me propor a escrever a respeito. Escapei
de cair em ridículo por muito pouco. Poderia, é verdade, não lhes revelar nada
disso e simplesmente abordar a fartura de livros na nossa literatura tratando
de Carnaval, como se fosse o maior “expert” no assunto. Porém, por uma questão
de honestidade intelectual, faço esse “mea culpa” público, até porque, assim
como eu, muitos intelectuais têm a mesma impressão que eu tinha antes de
empreender minha pesquisa. Esta confissão, esclareço, não se trata de nenhum
autolinchamento, mas de um alerta, tanto para mim mesmo quanto para terceiros,
sobre a necessidade de sempre se apurar a veracidade daquilo sobre o que se vai
escrever e, sobretudo, criticar.
Eu poderia citar, no mínimo, por baixo, uma centena de
livros (e muito bons), tratando especificamente de Carnaval (e, reitero, de
todos os gêneros), mas não o farei. Para não passar por mentiroso, todavia, relaciono,
abaixo, alguns deles, na verdade dez, especificamente os volumes que tenho em
minha biblioteca e que, portanto, já li (alguns com várias releituras) e dos
quais não me lembrava, até me dar o trabalho de conferir. Não comentarei nenhum
deles (não, pelo menos, hoje, embora talvez o faça oportunamente), pelo fato
deste espaço não comportar tais comentários. Vamos, pois, ao meu seleto “top 10”:
NÚMERO 1 – “O país do carnaval” – Jorge Amado, romance,
Companhia das Letras, 1931.
NÚMERO DOIS: “Orfeu da Conceição” – Vinícius de Moraes –
tragédia carioca baseada no mito de Orfeu, Com´panhia de Bolso, 2013.
NÚMERO TRÊS – “Carnaval no fogo” – Ruy Castro, apaixonada
crônica sobre a vida no Rio de Janeiro, Companhia das Letras, 2000.
NÚMERO QUATRO – “Antes do baile verde” – Lygia Fagundes
Telles, narrativas escritas ao longo de vinte anos (entre 1949 e 1969),
Companhia das Letras, 2009.
NÚMERO CINCO – “Carnaval” – João Gabriel de Lima, romance,
Editora Objetiva, 2006.
NÚMERO SEIS – “Carnaval de poesias”, Sérgio Gramático
Junior, poesia, Editora Multifoco, 2010.
NÚMERO SETE – “Este mundo é um pandeiro – a chanchada de
Getúlio a JK” – Augusto Sérgio, história das comédias cinematográficas de
Carnaval produzidas no Rio de Janeiro, Companhia das Letras, 1989.
NÚMERO OITO – “O Carnaval dos animais” – Moacyr Scliar,
contos, Editora Ediouro, 1968.
NÚMERO NOVE: “Carnaval brasileiro: o vivido e o mito” –
Maria Isaura Pereira de Queiroz, pesquisa sociológica, Editora Brasiliense,
1993.
NÚMERO DEZ – “Na passarela do samba: o esplendor das escolas
em 30 anos de desfiles de Carnaval no Sambódromo” – André Diniz da Silva e
Diogo Cunha, história, Casa da Palavra, 2016.
Poderia citar dezenas, centenas de outros livros, alguns dos
quais eu não tenho (mas que espero logo ter), como “O dia em que adiaram o
carnaval”, de Luis Claudio Villafañe G. Santos; “O carnaval do jabuti”, de
Walmir Ayala; “Aula de carnaval e outros poemas”, de Ricardo Azevedo; “Arlequim
de carnaval”, de Ronaldo Correia de Brito; “Foi no carnaval que passou”, de
Gustavo Malheiros e “Antologia de carnaval”, organizada por Wilson Louzada, entre
tantos, e tantos e tantos outros. Cito, por fim, o livro “Passarela de sonhos”,
de contos, todos de minha autoria. Este, porém, você, paciente leitor, não
poderá ler, a menos que alguma editora se interesse por sua publicação. Até
aqui, nenhuma se interessou (ainda). Ele permanece, portanto, inédito, ao alcance,
somente, dos amigos mais íntimos e, claro, dos parentes que (ou se) o quiserem
ler. Quem sabe algum dia... poderei anunciá-lo como meu novo lançamento! Quem
sabe...
Boa leitura!
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Poderia lançá-lo como e-book. Seria uma gostosa ousadia de pós-carnaval.
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