As máscaras caem no Carnaval
* Por
Blima Bracher
Agora dei pra chorar
de alegria. Um choro tão intenso que não dá pra prender na garganta. Ele
escorre, forte e genuíno rosto afora, molhando a fantasia e borrando a
maquiagem sem dó.
Escorre na cadência
das baterias, no repique dos surdos, no repinique dos tamborins.
Acelera o coração ao
passar dos catitões, naquele grito uníssono de alegria tão forte que se
materializa em lágrimas.
E sigo ladeira acima e
abaixo atrás desta endorfina para a alma.
Dentro de um bloco de
Carnaval, nos tornamos um só.
Uma energia mútua,
como se fôssemos apenas parte integrante de um todo gigante. E nos tornamos
fortes e lindos, independente das diferenças. A energia pulsa, contagiante.
Células de vida naqueles breves dias da folia de Momo.
Nesta hora, não
adianta a fantasia. Cada um tem a sua, mas todos somos um. As máscaras caem.
De repente, um olhar
de cumplicidade no meio da multidão. E vem o sorriso de comunhão. Sim, estamos
todos comungando de um sopro de vida divino. Creio eu.
E o catador de
latinhas para pra ver o bloco passar. E pega duas já amassadas, que agora viram
o mais forte dos instrumentos, batendo na cadência da bateria.
É Deus que desce à
Terra nos dias de folia. E, de algum lugar, sopra alegria como lança perfume.
Estaria ele escondido
debaixo do Zé Pereira?
Ou dançando no Balanço
da Cobra?
Quem sabe rindo de nós
pelos dentes brancos das caveiras do Bloco do Caixão?
E na quarta tudo vira
cinzas.
Sinto o fio gelado da
navalha a perfurar meu coração.
O frio da morte ronda.
Deus subiu de novo aos
céus.
E alguns foliões
inconformados insistem em bater surdos sem ritmo, sem paixão.
Mas Ele de novo entre
nós, fantasiado e fanfarrão, só no ano que vem.
*
Jornalista e cineasta.
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