Tatoo à direita
* Por
Marcelo Sguassábia
Já vou avisando, a
quem se interessar, que aqui é tudo de extrema direita. Dos desenhos tatuados
até o tatuador, que é membro da Ordem Rosacruz com orgulho e mantém em dia suas
contribuições mensais à Opus Dei e à Legião da Boa Vontade.
Levando minhas convicções
da ideologia à anatomia, confesso que sinto-me mais à vontade tatuando do lado
direito do corpo. Não que eu seja radical. Pelo contrário, sou até bastante
complacente: comigo, os esquerdistas regenerados têm a chance de eliminar as
bobagens que um dia resolveram estampar na carcaça. Desenvolvi uma tecnologia
revolucionária, que permite a reconstituição da pele em sua pigmentação
original. A tinta da tatuagem é expelida no máximo em uma semana, deixando todo
o corpo livre para tattoos moralmente edificantes, como o Brasão do Exército ou
a imortal efígie do General Emílio Garrastazu Médici. Há quem duvide, dizendo
que é tudo conversa, que não há nada que remova uma tatuagem bem aplicada. Pois
que apareçam por aqui para a prova definitiva - trazendo, de preferência, uma
estrela do PT. Adoro exterminar essas estrelinhas, bem como Che Guevaras,
Fidéis, foices, martelos e demais ícones inúteis. Aliás, tinta vermelha eu só
removo, nunca aplico. Nem adianta insistir, que procure outro profissional. Um
leviano e irresponsável profissional, no caso, sem compromisso com o
desenvolvimento cívico das novas gerações.
Caveiras, folhas de
maconha, dragões cuspidores de fogo, serpentes, símbolos cabalísticos e de
magia negra também estão fora do meu mostruário. Mediante aprovação prévia de
cada desenho, admito aplicação de flores, ondas do mar, pássaros, símbolos
yin/yang, corações, mandalas e frases em geral, dependendo do que o sujeito
intenciona colocar como mensagem.
Tattoos nas partes
íntimas, nem pensar. São intocáveis. Há que se ter compostura e pudor, ainda
que cada um tenha livre arbítrio sobre o que fazer com o próprio corpo.
Particularmente, não me presto a esse tipo de serviço.
Chegou a hora de tirar
a tattoo dos guetos. Por que não um padre ou um maçom tatuados? Desde que o
desenho dissemine valores éticos e cristãos, que mal há nisso? Outro dia mesmo,
fiz uma bela de uma Santa Ceia tomando, de fora a fora, as costas do indivíduo.
Também tatuei um Rosário em um monge beneditino, começando no pescoço e terminando
nos tornozelos. Desviando, logicamente, de quaisquer partes pudendas no
percurso.
Pela glória da Pátria
e em defesa da manutenção da ordem política e institucional, coloco-me à
disposição dos clientes maiores de 21 anos, que apresentem atestado de bons
antecedentes e não tenham passagem pela polícia.
* Marcelo Sguassábia é redator publicitário. Blogs:
WWW.consoantesreticentes.blogspot.com (Crônicas e Contos) e
WWW.letraeme.blogspot.com (portfólio).
Na mosca, com distinção.
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